ZABUMBA FAZ BUM-BUM-BUM Clerisvaldo B. Chagas, 20 de junho de 2011 . (Para João Tertuliano, Sérgio Campos, Afonso Gaia e Lucas).          ...

ZABUMBA FAZ BUM-BUM-BUM

 ZABUMBA FAZ BUM-BUM-BUM
Clerisvaldo B. Chagas, 20 de junho de 2011.
(Para João Tertuliano, Sérgio Campos, Afonso Gaia e Lucas).

          Nesse sábado que passou, tive a honra de receber um dos ilustres valores da terra, filho do comerciante, intelectual e ex-professor Alberto Nepomuceno Agra. João Tertuliano Nepomuceno Agra, engenheiro eletricista, mestre em Ensino de Física, doutor em Física e professor universitário, diz bem da inteligência caracterizada do povo resistente da “Rainha do Sertão”. Além da visita a terrinha, veio o insigne cientista lá de Campina Grande, Paraíba, enlaçado pela causa da cultura santanense. Defensor ferrenho do Calendário Cultural de Santana ─ lançado pelo jornalista José Marques de Melo e Rossana Gaia no livro “Sertão Glocal” ─ João Tertuliano procura incentivar a concretização desse calendário. Entre os objetos presenteados por Tertuliano tanto da sua lavra quanto a de companheiros, deparei-me com o cordel sobre “Marinês, a Imortal Rainha do Forró”, da autoria de Manoel Monteiro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Logo na primeira página minha atenção voltou-se para a belíssima sétima que aparece como segunda estrofe do folheto. Os cantadores repentistas têm hoje como preferência a sextilha, porém, os vaqueiros nordestinos preferem as sétimas para seus aboios. Esse modo de composição poética é mais sonoro do que as sextilhas e foi deixado de lado, talvez, porque a sextilha constante numa cantoria seja menos cansativa. Mas vamos à sétima inspirada pelo cordelista Manoel Monteiro:

            “Triângulo faz tlin-tlin-tlin
                 Zabumba faz bum-bum-bum  
       A sanfona faz xem-xem
       O caboclo estando num
      Forró de pé-de-parede
               Não tem fome nem tem sede
                  Pois melhor não tem nenhum”.

          Diz Monteiro que Inês era filha de Manoel Caetano (ex-cangaceiro do bando de Lampião) e sua mãe chamava-se Josefa Maria, apelidada, Donzinha. Sua denominação artística nasceu na apresentação de rádio quando o apresentador misturou Maria com Inês. Sempre cantando na região de Campina Grande, termi-nou casando com o sanfoneiro Abdias. Admiradora de Luiz Gonzaga foi levada pelo Rei Luiz ao Rio de Janeiro após uma apresentação do artista em solo paraibano. Cantava, tocava triângulo e dançava o xaxado, tendo sempre um chapéu de couro na cabeça, à semelhança de seu pai no cangaço. Após sucesso pelo Brasil inteiro, especialmente Nordeste, mais de trinta discos gravados e um número vastíssimo de apresentações em público, Marinês calou em 14 de maio de 2007. “Peba na Pimenta” foi à música mais marcante da sua gloriosa carreira, também registrada pelo homem do povo, pela literatura de cordel. Com sua voz estridente e frases apimentadas, para a época, Marinês conquistou bravamente o seu espaço e hoje brilha no céu de Campina Grande.
          Se você caro leitor, não viveu à época, nem lhe digo o que perdeu. Nos ouvidos dos cabras da nossa geração, ainda ressoa o tlin-tlin-tlin do triângulo de “Marinês e Sua Gente”. E pelos velhos sertões queimados desse país nordestino, quem afia os ouvidos sente a autenticidade dos filhos do Sol. Abra as porteiras, cabra da peste, que ainda hoje a ZABUMBA FAZ BUM-BUM-BUM.


ESPANADOR DE SEU CLETO Clerisvaldo B. Chagas, 17 de junho de 2011              Falamos aqui outras vezes sobre as peculiaridades das farmá...

ESPANADOR DE SEU CLETO

ESPANADOR DE SEU CLETO
Clerisvaldo B. Chagas, 17 de junho de 2011

             Falamos aqui outras vezes sobre as peculiaridades das farmácias de Santana do Ipanema, Alagoas, nos anos sessenta. A “Vera Cruz” ─ homenagem sobre o descobrimento do Brasil ─ tinha um quadro de leitura obrigatória com sua alegoria dividida: “Entrai pela porta estreita”. E ali estavam às representações da porta estreita e da porta larga, a da salvação e a da perdição, o céu e o inferno. A Vera Cruz continua no mesmo local, mas ignoramos o destino do quadro. Bem que ele poderia fazer parte do museu do proprietário professor Alberto Nepomuceno Agra, no primeiro andar. A outra farmácia, de Cariolano Amaral, vulgo Seu Carola (ô) ─ o homem da gravata borboleta ─ antes no “prédio do meio da rua”, depois, ao lado da Esquina do Pecado, também tinha o seu símbolo. Era ele um negrão forte, careca e lustroso envergando uma barra de ferro. Propaganda impressionante de uma velha conhecida marca de xarope. Poderia a estatueta também fazer parte do museu de Santana. Mas existirá ainda o homem forte?
            Outra coisa que me chamava atenção era o espanador da loja de tecidos do comerciante Cleto da Costa Duarte, também localizada no prédio do meio da rua. Na loja de meu pai havia espanadores de fios de palhas, moles, finos, flexíveis, bonitos e bem feitos que de vez em quando eram vendidos por ambulantes. Nunca perguntei onde eram fabricados, pois diferenciavam de outro tipo comum, mais duro, feito em Santana, vendido nas feiras. Mas aquele espanador da loja de Seu Cleto era único. Feito de penas de peru, arrumado de modo que algumas penas menores se retorciam para cima, esses espanadores eram passados com rapidez sobre os tecidos, dando a impressão que nem serviam para tal mister, sendo mais para enfeite. Parece-me que tinha sido presente de um caixeiro-viajante do Recife. Também sem ter certeza, parece-me que havia objeto semelhante na “Casa Ideal”, sapataria que ficava por trás do prédio do meio da rua, mas do outro lado da via, pertencente ao senhor Marinheiro.
           Dizem que a vida é combate e nós vamos lutando com o costumeiro e com as surpresas que ora nos afligem, ora nos enlevam. Vamos associando os símbolos acima à religião, aos ensinamentos dos pais, ao modo de encarar os acontecimentos que testam a nossa capacidade. Acontece um mergulho nos objetivos da existência, no enfrentamento das vicissitudes, no mérito das provações. No fino nevoeiro também surgem às fraquezas, as covardias, os planos não realizados, valorosos amigos, traidores calculistas, méritos e deméritos que navegam quais folhas secas num espaço infinito. Remoendo nossas fraquezas, não deixamos de apenas para nós, avaliarmos o mérito de servir. Repetia meu pai: “Quem não vive para servir, não serve para viver”. E nesse momento em que o passado ocupa a área do presente, compreendemos que muitos dos que usufruíram da nossa boa vontade, da nossa obrigação em servir ─ esquecendo os obséquios ─ agem como o desafiador negrão de Seu Carola. E seguindo de perto à condição humana, os pobres entusiasmados, sem glória, sem rumo e sem caráter, marginalizam os tempos em que se assemelhavam com frequência ao ESPANADOR DE SEU CLETO.

LIBERTADORES Clerisvaldo B. Chagas, 16 de junho de 2011           Taça Libertadores pode até ser uma série de jogos comuns entre países ir...

LIBERTADORES

LIBERTADORES
Clerisvaldo B. Chagas, 16 de junho de 2011

          Taça Libertadores pode até ser uma série de jogos comuns entre países irmãos. Uma final, porém, de Libertadores, é simplesmente empolgante até para pessoas que não simpatizam muito com futebol. Acontece que são inúmeros itens que estão anexados ao simples rolar da bola no gramado. A grandiosa festa onde estão juntas milhares e milhares de pessoas, o colorido das roupas, dos estádios, da torcida. Fogos, cânticos, gritos, xingamentos, urros gigantescos, movimento forte no trânsito, discussões, alegria, bandeiras, comidas de rua e a mídia do mundo inteiro funcionando, deixam o futebol no topo do esporte das multidões. É bom parar um pouco o dinamismo da corrida diária para relaxar, nem que seja na poltrona, assistindo um belíssimo espetáculo da Libertadores. E foi assim que aconteceu em Montevidéu, uma das mais simpáticas capitais do mundo, bem ali na frieza meridional da América do Sul.
          A brancura maior do terno dos Santos faz contraste com o verde do gramado, com o terno à moda DETRAN, do Peñarol. Uma névoa invade o estádio e a ocupação total das arquibancadas aguarda com ansiedade o toque de início. O resultado é sem gol, mas o jogo foi bom, tenso, raçudo, com o mínimo de violência, acostumada a residir em países como Uruguai e Paraguai. Mesmo assim, o empate na casa do zero, foi como importantíssima vitória para o time da Vila que vai decidir no Brasil uma vitória por um placar simples. Em havendo empate, prorrogação. Persistindo o empate, pênaltis. Mais uma vez a final da final fica em nosso território, o que significa festa dobrada, muito dinheiro circulando, possibilidade real de ganhar o torneio pela terceira vez. Se no Uruguai o espetáculo foi garantido já imaginamos a festa que acontecerá no Pacaembu. Está certo que Neymar não foi brilhante em todo o seu potencial, mas também não foi tão decepcionante assim. Mas a mania de cair constantemente sem motivo, irrita mesmo a torcida adversária e também a nossa. O povo quer ver jogo de bola e não fingimento de quedas a cada minuto. É preciso alguém para abrir os olhos do jogador, nesse caso, pois o atleta vai-se tornando antipático e ao invés de aplausos ganha vaias bem motivadas, sim. O Estádio Centenário proporcionou um bom teste ao time do Peixe. O Santos precisa melhorar a posição e a atenção dos seus zagueiros, bem como a ligação mais junta a Neymar e Zé Eduardo. Elano não conseguiu ser um homem criativo como das outras vezes e, a falta de Ganso foi claramente notável.
          O grande momento do jogo foi quando o bandeirinha, com honestidade e coragem, deu impedimento durante o gol uruguaio. Ainda existem pessoas que valorizam a sua decência, como fez o bandeira em Montevidéu. Vamos aguardar a decisão na próxima quarta, que promete outro bom momento para o brasileiro que vai e o que não frequenta estádios. Afinal, não é sempre que temos a oportunidade de acompanhar time do Brasil na LIBERTADORES.



MIRAGENS DA MACONHA Clerisvaldo B. Chagas, 16 de junho de 2011           Não tenho conhecimento e nunca procurei saber a quem pertence, em...

MIRAGENS DA MACONHA

MIRAGENS DA MACONHA
Clerisvaldo B. Chagas, 16 de junho de 2011

          Não tenho conhecimento e nunca procurei saber a quem pertence, em Santana do Ipanema, o chamado Campo de Aviação. Situado a três quilômetros do centro, lembro bem que ele já existia nos anos sessenta. Campo de barro vermelho ao lado de pista asfáltica, também é ladeado por estradas vicinais que dão acesso a sítios importantes da região. Quando aeroplano ainda era bicho de sete cabeças, de vez em quando chegava por ali um teco-teco. A meninada dos arredores logo vencia a meia légua para espiar de perto o monstrengo que avoava. Maneiro, menino, que parecia o tal pavão misterioso! Ali, se a meninada não viu a chegada poderia contemplar a saída. Dava plantão, passando a mão no bicho roncador até que o piloto resolvia retornar. A poeira levantava do chão e o danado seguia fazendo carreira até despregar as patas do solo e subir “linheiro” que nem codorniz. Lá adiante ainda havia aplausos quando o pássaro metálico fazia a manobra circular rumo à capital. Falavam que o progresso iria chegar a Santana montado nos teco-tecos. Uma viagem do Ipanema a Maceió, baseada em até seis horas, ficaria uma beleza! Logo, logo os abastados da região estariam no litoral cuidando dos seus negócios e retornando rápidos contra perdas de tempo. Houve até um prefeito ─ que ainda gosta de se exibir sobre as cabeças alheias ─ que prometeu asfaltar o local e deixar tudo moderno para acelerar o falado desenvolvimento. Sem dúvida nenhuma iniciaria logo com seus passeios de luxo.
          Tudo aconteceu ao contrário. Avião ali passou a ser coisa rara. E quando os bancários do Banco do Brasil eram os tais da cidade ─ com suas inesquecíveis lambretas ─ muitas conversas preocuparam os pais de moças de Santana. Chegaram até inventar modinha, parodiando canção famosa:

“Ai, ai, ai do banco
     Me leve para o campo
         Mas cuidado com papai”

          Depois foi a vez das mulheres casadas que gostavam de pular cerca. Faróis de veículos tornaram-se autênticos espiões. Finalmente veio a fase do mato verde, do enroladinho, do baseado. Os contrabandistas eram apontados a dedo e os fumadores também. Devido o aperto policial, o usuário preferia o sossego do campo de aviação aos becos imundos de acesso ao rio. Os pontos das brasas por baixo do rasga beiço misturavam-se aos vagalumes que enfeitavam as noites sertanejas.
          Abandonado à própria sorte, a única coisa que mudou no campo de aviação foi o nome para Campo de Pouso. Lá se vão cerca de cinquenta anos de existência. Nem sabemos por que ainda não providenciaram um aniversário para homenagear alguém. Todas as fases citadas evoluíram, nem precisa mais de campo de pouso. Falar nisso, alguém sabe quando vai ser construído o aeroporto do Sertão? Ao entrevistar um célebre maconheiro, dos tempos mais difíceis e românticos dos desgarrados, o camarada disse, fitando o espaço, o céu azul, o voo das andorinhas: ”É isso aí, bicho. Avião de verdade mesmo a gente nem apreciava, mas chega ficava “sulene” com as MIRAGENS DA MACONHA”.



POBRE POVO Clerisvaldo B. Chagas, 14 de junho de 2011           Continua em Santana do Ipanema, a falta de coletivos para os trabalhadores...

POBRE POVO

POBRE POVO
Clerisvaldo B. Chagas, 14 de junho de 2011

          Continua em Santana do Ipanema, a falta de coletivos para os trabalhadores e população em geral. O comércio e os diversos serviços que atuam na “Rainha do Sertão” fizeram crescer a necessidade de transportes de massa. Quem contempla, mesmo de longe, do Bairro São José, através do espaço entre as casas do Alto dos Negros, lá longe do outro lado do rio, fica impressionado. O trânsito por aquela rua comprida e estreita, forrada à base de paralelepípedos, no jargão popular, desembestou. Calçamento péssimo entre o riacho Salgadinho e o Hospital Dr. Clodolfo Rodrigues de Melo. Já falamos sobre isso outras vezes. Ninguém calcula os benefícios sociais trazidos pelo novo hospital. Entretanto, a inflação, nessa terra também chamada “Capital da Carestia”, perdeu sela, rédeas e cabresto. Nas imediações da Unidade, um casebre avaliado em dez mil reais, pulou para cinquenta. Imaginem quando iniciarem os trabalhos da UFAL, ali vizinho! Mas o que está doendo mesmo no bolso da população mais carente, é o preço exorbitante das corridas de táxis e moto táxis para àquela periferia. Os taxistas adormeciam dentro dos carros, nos pontos, por falta de clientes, agora espicham o couro de quem precisa. E os moto taxistas que triplicaram o preço da corrida, cobram à vontade. Não existe critério quando o destino é Alto dos Negros, Cajarana, Conjunto Marinho. E mais: pelo dia é um preço pela noite outro preço. Quem tem seus familiares internados, só falta perder os cabelos com a cobrança exploradora dos transportes. Os que têm que subir a longa colina a pé, duas ou três vezes ao dia, para assistência aos familiares, ficam arriscados à doença também pelo preço das corridas. É aí que entra mais uma vez a necessidade de coletivo urbano. Um tipo pequeno, leve, de mobilização rápida para o comércio e extremos como a Lagoa do Junco (UNEAL, Batalhão de Polícia, Fórum); Cajarana (Hospital, brevemente UFAL); Barragem e Lajeiro Grande.
          A reestruturação do acesso ao hospital é uma necessidade em curto prazo. Mas o incentivo público ao transporte coletivo deve ser prioridade. Os capacetes dos motos taxistas estão precisando da Vigilância Sanitária. Suados, Fedorentos, podres. Uma ameaça constante a piolhos e dermatoses que dão um trabalho da peste para sanar. Temos exemplos. Uma touca descartável sob o famigerado evitaria muitas coisas desagradáveis. A própria associação deveria se encarregar do assunto em benefícios dos seus clientes, junto aos órgãos da Saúde.
          Enquanto isso, os que não podem pagar o que não têm, penam com as duas pernas que Deus lhes deu, em busca de serviços nos extremos ladeirosos de dois, três quilômetros na cidade. Na falta de incentivo à implantação particular do transporte de massa, o poder municipal deveria facilitar a solução aos seus munícipes que expõem os bofes nas colinas de Santana. POBRE POVO!



LAMPIÃO FILOSOFA EM CUSTÓDIA Clerisvaldo B. Chagas, 13 de junho de 2011           Entre a crueldade do punhal e a inteligência do chapéu, ...

LAMPIÃO FILOSOFA EM CUSTÓDIA

LAMPIÃO FILOSOFA EM CUSTÓDIA
Clerisvaldo B. Chagas, 13 de junho de 2011

          Entre a crueldade do punhal e a inteligência do chapéu, Seguia Virgulino Ferreira da Silva, assombrando os sertões de Pernambuco, Paraíba e Alagoas, até 1925, quando resolveu ampliar sua faixa de atuação. Foram anexados ao cangaço lampionesco, a partir de 1927, mais o Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia e Sergipe. Afora os dotes militares, são incluídos os pendores listados por vários especialistas do cangaço, como os de parteiro, artesão, vaqueiro, almocreve, poeta e outros mais. No meio da sua parafernália, compartimentam-se suas “tiradas” filosóficas em diversas ocasiões, que soavam como uma espécie de sentença. Para um homem da roça que viveu toda a sua vida no meio rural, nos lugares mais esquisitos, aprendeu bastante com a sabedoria sertaneja, acrescentando da própria lavra essas tiradas ocasionais que se assemelham aos chistes característicos da região de São José do Egito, em Pernambuco. Mas suas tiradas eram sérias e decisivas, algumas delas captadas pela nossa coleção. Como exemplo, ele dizia, no caso de surgir várias soluções para um mesmo problema: “Homem, plano é o primeiro”.
          De 1922 a 1925 atuando maciçamente nas fronteiras dos três primeiros estados, Lampião satanizava os sertões como terrível pé de vento. Era difícil de entender, então, porque ele entrara em Custódia, na época, vila da atual Sertânia, “amando e querendo bem” como costumava dizer. Em 11 de fevereiro de 1925, entrou na vila logo cedo e ficou aguardando que o povo acordasse, que as casas se abrissem. Estava com ele, entre outros, Mata Redonda, Fato de Cobra, Chá Preto, Chumbinho, Sabino, Sabiá e Jurema. Comeu, comprou, mandou fazer roupa, curativos em feridos, palestrou à vontade, não mexeu com ninguém. Ali gozou de um oásis temporário. Depois até Custódia entrou para o musical do cangaço com essa e outras quadrinhas, tudo indica, confeccionada dentro do bando:

“As moças de Custódia
  São feias, mas têm ação
        Guardam queijo e rapadura
    Pra o bornal de Lampião”

          Em Custódia, Lampião ainda foi à casa de um cidadão, sentou tranquilamente em sua calçada e falou para ele: “Você não disse que se eu entrasse aqui seria morto?” E diante do aperreio do morador, complementou na sua paz: “Deixe de besteira, homem, olhe eu aqui”. E não saiu sequer um cascudo.
          Resolvendo enviar correspondência ao governo estadual dizendo coisas que por certo não agradaram ao destinatário, assim procedeu. Dizem que foi a única coisa que não pagou na vila de Custódia, filosofando após o ato, mais ou menos com essas palavras: “Isso aqui é do governo, por isso não vou pagar. Se eu pagasse estaria roubando a mim mesmo”.
          Não sabemos se o bandoleiro soltou beijinhos, beijinhos na despedida, mas que ficou na história, ficou. Ainda hoje LAMPIÃO FILOSOFA EM CUSTÓDIA.


SÓ VAI ACOCHANDO TUDO Clerisvaldo B. Chagas, 10 de junho 2011           Todas as grandes obras do Sertão deram trabalho. Trabalho de dezen...

SÓ VAI ACOCHANDO TUDO

SÓ VAI ACOCHANDO TUDO
Clerisvaldo B. Chagas, 10 de junho 2011

          Todas as grandes obras do Sertão deram trabalho. Trabalho de dezenas e dezenas de anos de reivindicações, lutas, protestos, zoadas. Hospitais, rodagens, asfaltos, pontes, delegacias, terminais rodoviários, escolas, repartições públicas, cursos superiores, açudes e tantas outras coisas fizeram o sertanejo perder o sono e afiar a goela. Na minha existência ainda não vi governo bonzinho para o Sertão. Tudo é como foi dito acima, inclusive água e luz.
          Quem já teve oportunidade de viajar pela BR-316, de Palmeira dos Índios em direção a Inajá, em Pernambuco, fica encantado com o chamado retão que corta o peneplano sertanejo. É quando o motorista diz que de Palmeira dos índios a Inajá você roda sem mudar a marcha. Quando as estradas de barro eram bem conservadas, tive oportunidade de fazer essa viagem de Santana do Ipanema a Inajá numa carreira só como se fala por aqui. Estradona larga, bem conservada que ─ usando outra expressão popular ─ parecia um prato. Na época, o verdume da caatinga e o cheiro inebriante do mato, deixavam no viajante uma sensação enorme de bem-estar. Ao longe, o morro do Carié, em forma de lagarta, destacava-se no raso de caatinga servindo de importantíssimo ponto de referência. É o entroncamento mais importante do Nordeste, diziam. Dali pode ser usada a rosa dos ventos para Maceió, Paulo Afonso, Garanhuns e suas respectivas capitais. Continuando a reta a partir do Carié, íamos passar dentro de Canapi e depois no acesso a Mata Grande até chegar ao estado de Pernambuco. O resultado é que o asfalto rodeou o Carié, (na época com apenas um casa e um hotel) distrito agora que congrega centenas de moradores, mas a parte oeste continua no barro. A estrada foi sendo desprezada e atualmente o trecho Carié fronteira com Pernambuco é um tormento físico e paraíso de assaltantes.
          Esse protesto no entroncamento causou um imenso transtorno. Mas quem luta há quase cinquenta anos pelo asfalto, sabe que se não fizer assim, não sai nunca. É incalculável o prejuízo daquela região pela falta de benefícios nas cidades e no campo, durante essas cinco décadas. Parabéns pela coragem nas batalhas duras que enfrentam, cidades de Canapi, Inhapi, Mata Grande, Água Branca e o distrito Carié, juntamente com outros municípios pernambucanos na ponta da linha. Se ainda fosse vivo talvez assim cantasse, o saudoso repentista santanense, Zezinho da Divisão, com seu mote preferido:

 Se você quer ser ouvido
Grite que só condenado
      Por que um grito bem dado
           Dói nas oiças do bandido        
Se você for atrevido
Passe por cima de tudo
Pois só assim o buchudo
De longe lhe compreende
Gritando ao corno ele atende
SÓ VAI ACOCHANDO TUDO

TRÊS ERROS DE UMA VEZ Clerisvaldo B. Chagas, 9 de junho de 2011           Têm coisas que não se pode evitar quando elas acontecem em um s...

TRÊS ERROS DE UMA VEZ

TRÊS ERROS DE UMA VEZ

Clerisvaldo B. Chagas, 9 de junho de 2011

          Têm coisas que não se pode evitar quando elas acontecem em um só dia. Estamos falando sobre, Ronaldo “Fenômeno” e o jogo da seleção brasileira de futebol. No caso Ronaldo, atrelado à seleção; sobre Antonio Palocci, na parte política do país. Os jornais noticiosos bem que fizeram tremendo esforço para coordenar as notícias mais quentes entre a festa mundial do “Fenômeno”, a queda do poderoso ministro e o jogo da noite. Foi aí que lembramos novamente à cantoria em que um dos repentistas concluía a estrofe em sextilha quando chegava à festa um grupo de pessoas: “E logo a trinca chegaram”. Ao que o outro cantador mais letrado, logo indagou:

           “Dizer a trinca chegaram
   É erro de Português
            Mesmo só se fala “trinca”
   Se o grupo for de três
   Donde vem esse poeta
           Com dois erros duma vez?”

          Pois as três coisas importantes vindas num dia só deve ter dado trabalho sim. A renúncia do ministro pode ter sido jogada propositadamente para o dia em que o povo brasileiro estivesse voltado para o jogo da seleção e a despedida de Ronaldo. Faz parte dos caciques divulgarem péssimas notícias de várias origens, em vésperas de feriados, dias santos e finais de semanas, para amaciar o impacto. A seleção brasileira de futebol, novamente não convenceu. Comparamos o aglomerado de bons jogadores, com os times improvisados que fazíamos nas areias finas ou grossas do rio Ipanema. Faz-se o amontoado e coloca-se para jogar. Sempre foi assim. Cada jogo, personagens diferentes sem o tempo necessário para treinamento. Não dizemos um “pega na rua” por que ali estavam realmente os melhores, indiscutivelmente. Mas o nervosismo ou a falta de concentra-ção dos atacantes levavam o caso para a arquibancada insatisfeita com tudo que estava acontecendo, inclusive a repetição do jogo anterior. Uma droga! O erro geral da seleção, principalmente nos chutes dados em cima dos defensores como se eles fossem invisíveis, não deixavam o óbvio, a bola passar. Daí se dizer, falta de concentração ou nervosismo. Se a seleção errava, o fenômeno errava também. Esse é perdoável. Estava na sua festa de despedida na luta desesperada contra o excesso de peso e não tinha mesmo a mobilidade ideal das gingas que deram tantas alegrias ao Brasil. Seus combates agora, fora dos gramados, serão com a gordura que teima em não ir embora.
          Quanto ao que houve de fato com Antonio Palocci, apesar de líder carismático, ainda precisa ser esclarecido ao povo brasileiro. E se foi um erro do ministro não terá sido um errinho qualquer, mas um errão do tamanho do número vinte. Os erros de Ronaldo não diminuíram seus méritos. Os erros da seleção receberam as vaias da torcida. E os erros de Palocci deixaram perplexos os seus admiradores. Sabiamente o povo sertanejo fala: “Nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio”. Ê meu cantador, de onde vem essa terça-feira, com TRÊS ERROS DE UMA VEZ?

CHEIRO DE CAVALO Clerisvaldo B. Chagas, 8 de junho de 2011           Os jornais publicaram sem muito destaque, o falecimento da esposa do ...

CHEIRO DE CAVALO

CHEIRO DE CAVALO
Clerisvaldo B. Chagas, 8 de junho de 2011

          Os jornais publicaram sem muito destaque, o falecimento da esposa do ex-presidente João Batista Figueiredo, o último da ditadura militar 1964-1985. A ex-primeira dama Dulce Figueiredo, vinha sofrendo com problemas graves, tendo falecido na segunda-feira. Foi sepultada ontem, deixando, com a divulgação, um pouco da lembrança do seu marido. Dona Dulce havia leiloado 218 objetos pertencentes a Figueiredo que governou o país no período 1979-1985. Foi ele quem encaminhou ao Congresso Nacional o projeto de lei que dispunha sobre Anistia.
          Mal educado, bruto e arrogante, mesmo assim foi quem amaciou a sua maneira a ditadura para o ingresso de novos tempos no Brasil. Foi sucedido na presidência por José Sarney que era seu antigo adversário de partido, vice de Tancredo Neves, eleito indiretamente pelo Congresso Nacional. Com a morte de Tancredo, antes da posse, Figueiredo não quis entregar a faixa presidencial a Sarney na cerimônia de posse em 15 de março de 1985. Dizia ele, o general Figueiredo, que Sarney era um “impostor”, vice de um presidente que nunca havia assumido. No ciclo militar, o seu período foi longo, tendo passado seis anos no poder. Entre outras coisas do seu governo, houve anistia aos punidos pelo AI-5 e perdão aos crimes de abuso de poder, tortura e assassinato cometidos por órgãos de segurança; extinção do bipartidarismo; garantia de processo à abertura política, iniciado por Geisel, que resultou no fim do regime militar; criação do estado de Rondônia e amplo programa de reforma agrária no norte do Brasil.
          Apesar da sua brutalidade, os humoristas não paravam de retratá-lo. Chegou a dizer que gostava mais de cavalos do que de gente. Certa feita um presidente de um país vizinho do sul, mostrou dois belos cavalos e perguntou qual dos dois escolheria e, ele prontamente respondeu: “Os dois”. Algumas frases do último ditador correram trechos: Sobre a abertura política: “Quem não quiser que abra, eu prendo e arrebento!”. Sobre o poder: “prefiro cheiro de cavalo a cheiro de povo”. Um garoto perguntou o que ele faria com um salário mínimo. Resposta: “A única solução é dar um tiro no coco”. Outra vez disse: “O que sei é que no dia da posse (de Tancredo) irei embora de Brasília levando apenas minhas mulheres”. Referia-se aos cavalos. Quando perguntado sobre o aniversário do AI-5, respondeu: “Quem é esse menino? Entre outras frases, ficou em evidência a sua declaração de despedida ao jornalista Alexandre Garcia, para a TV Manchete: “Bom, o povo, o povão que poderá me escutar, será talvez os 70% de brasileiros que estão apoiando o Tancredo. Então desejo que eles tenham razão, que o doutor Tancredo consiga fazer um bom governo para eles. E que me esqueçam".
          Como o ex-presidente pediu, o povo brasileiro o esqueceu mesmo. Somente lembramos o homem agora por causa da morte de Dona Dulce. Vamos esquecer novamente a figura que não gostava de cheiro de povo, mas preferia CHEIRO DE CAVALO.

Agradecemos aos milhares de acessos a nossa página no Brasil. Também agradecemos aos internautas que nos honraram com suas leituras nos Estados Unidos, Holanda, Alemanha, Canadá, França, Reino Unido, Portugal e Croácia.


PONTOS OBSCUROS Clerisvaldo B. Chagas, 7 de junho de 2011.           Entre as praças santanenses, destaca-se como a principal, devido ao t...

PONTOS OBSCUROS

PONTOS OBSCUROS
Clerisvaldo B. Chagas, 7 de junho de 2011.

          Entre as praças santanenses, destaca-se como a principal, devido ao tamanho e localização, a denominada Cel. Manoel Rodrigues da Rocha, construída defronte a Igreja Matriz de Senhora Santa Ana. Ainda sob a arquitetura da primeira reforma da igreja em 1900, pela batuta do padre Manuel Capitulino de Carvalho, a cidade ganha em 1931, esse logradouro pelo primeiro interventor municipal Frederico Rocha 1930-31. De início, o espaço recebeu o nome de João Pessoa, sendo reformado algumas poucas vezes, mas trazendo o nome novo de Manoel Rodrigues, chegando assim até os dias atuais.
          Tangido de Águas Belas pela prepotência do coronel Constantino, o sapateiro Manoel Rodrigues estabeleceu-se em Penedo onde trabalhou na curtição de couro. Prosperava e mantinha contato com pessoas influentes da região. Ampliou seus negócios para as margens sergipanas do rio São Francisco e casou pela primeira vez, cuja esposa faleceu prematuramente. Manoel Rodrigues conheceu e casou com a professora Maria Izabel Gonçalves Lima, moça prendada de Sergipe, em 11 de outubro de 1898. Com os negócios prosperando, resolveu abrir um entreposto na vila de Sant’Ana do Ipanema. Depois, notando que o negócio estava mal administrado, mudou-se definitivamente para Sant’Ana, em 1901, ampliando suas atividades em curtição de couro, beneficiamento de algodão, agropecuária e comércio com loja de tecidos e miudezas.
          Ainda pela memória do doutor Hélio Cabral, desfaz-se o mistério da construção dos três mais pujantes prédios da vila que resistiram às reformas da cidade, excluídos o “prédio do meio da rua” e o “sobrado do meio da rua”, demolidos na gestão Ulisses Silva, gestão 1961-65. Manoel Rodrigues construiu e morou no prédio onde por muito tempo funcionou a biblioteca pública, no comércio, ainda hoje original com o monograma MRR e estátua dedicada a Mercúrio, no frontispício. Construiu também o enorme prédio, vizinho, lado esquerdo, da Matriz de Senhora Santa Ana, que marcou a cidade muito tempo como o “Hotel Central” de Maria Sabão. A biblioteca pública chegou a funcionar ali por algum tempo. E, por fim, Manoel Rodrigues da Rocha construiu seu terceiro casarão na vila, defronte a Igreja Matriz, mas no lado oposto da praça que mais tarde levaria o seu nome. Mudou-se do primeiro para este em 1916 (gestão municipal do padre Manuel Capitulino de Carvalho) e ali passou cerca de quatro anos, pois faleceu em 5 de maio de 1920.
          Sem ser político, apenas com seu prestígio civil e solidez econômica, tornou-se Coronel da Guarda Nacional. Muito fez por Santana do Ipanema, hospedando e comungando ideias com vultos importantes como Delmiro Gouveia e governadores do estado. Na política, mandava os Gonzaga, transferindo o mando para o padre Capitulino que foi intendente. Mas na época, a força moral do Coronel Manoel Rodrigues da Rocha, combinava com o modo de ser e o prestígio do professor e chefe político, coronel Enéas Araújo. Importantes são os documentos para esclarecer PONTOS OBCUROS.

MULHER BELA E VAQUEJADA Clerisvaldo B. Chagas, 6 de junho de 2011. Um boi brabo que rompe os matagais Bem distante às léguas das restingas...

MULHER BELA E VAQUEJADA

MULHER BELA E VAQUEJADA
Clerisvaldo B. Chagas, 6 de junho de 2011.

Um boi brabo que rompe os matagais
Bem distante às léguas das restingas
Senhor absoluto das caatingas
Rompedor de madeira e espinhais
Um cavalo nos quentes carrascais
Repentistas no solo genuíno
No cabelo perfume doce e fino
Da gostosa na cama madrugada
Mulher bela repente e vaquejada
Correm dentro do sangue nordestino

No trançado maldoso da favela
Ou nas unhas de gato nos gibões
O vaqueiro se eleva nos sertões
Sem tirar do juízo o nome dela
Pela tarde o encontro na cancela
Sob o Sol escaldante peregrino
Um vestido delgado e opalino
Transparente na moça apaixonada
Mulher bela repente e vaquejada
Correm dentro do sangue nordestino

No Sertão vale ouro a brincadeira
Um café um cigarro um tempo quente
Um cavalo um aboio uma aguardente
O momento infeliz da “saideira”
A viola que age mensageira
Uma noite a amante o desatino
Lábios doces de mel e de quinino
Que transformam o sujeito em quase nada
Mulher bela repente e vaquejada
Correm dentro do sangue nordestino

Um circuito, cavalos e chapéus
Garrotes carreiras campeões
Locutores cervejas repuxões
Vaqueirama repentes e troféus
Se é noite estrelas sob os céus
E a ronda de vulto feminino
Igualmente a Maria e Virgulino
Sai gemido na noite enluarada
Mulher bela repente e vaquejada
Correm dentro do sangue nordestino.

                                             FIM

LAMPIÃO, CACHIMBOS E CORONÉIS Clerisvaldo B. Chagas, 3 de junho de 2011.        Há mais de duas décadas, líamos a literatura cangaceira qu...

LAMPIÃO, CACHIMBOS E CORONÉIS

LAMPIÃO, CACHIMBOS E CORONÉIS
Clerisvaldo B. Chagas, 3 de junho de 2011.

       Há mais de duas décadas, líamos a literatura cangaceira quando uma coisa nos chamou atenção. Havia poucos policiais e muito espaço para cangaceiros. Para reforçar suas perseguições aos bandidos das caatingas, o governo aceitava civis agregados às forças policiais denominadas “Volantes”. A maioria desses civis era oriunda de fazendas de poderosos fazendeiros chamados coronéis, ou pela Guarda Nacional ou pelo poder aquisitivo. Cada um desses coronéis possuía homens armados na fazenda chamados, conforme a região, de jagunços, cabras, capangas ou meninos. A cabroeira servia, principalmente, para os confrontos raivosos entre os próprios coronéis. De vez em quando, parte dessa cabroeira era anexada à força volante no reforço à perseguição aos cangaceiros. O reforço desses homens às volantes dependia do interesse particular do coronel, do governo ou de ambos. Quando assim acontecia, esses capangas eram chamados pelas volantes de “contratados” e, pelos cangaceiros, pejorativamente de “cachimbos” (assim como atualmente são designados os “chumbetas”). Segundo Lampião, um desses coronéis que sempre mandavam contratados contra si era o Zé Rodrigues, de Piranhas, Alagoas.
          Ficamos muito tempo sem saber quem era na verdade Zé Rodrigues ─ um homem tão falado ─ e por que àquelas ações constantes em enviar “cachimbos” contra Virgulino Ferreira. Só agora de volta à ordem dos alfarrábios, encontramos por acaso duas respostas e duas novas perguntas. Descobrimos no pequeno livro “Os coronéis do sertão e sertão do São Francisco alagoano”, de Hélio Rocha Cabral de Vasconcellos que Zé Rodrigues era chamado coronel José Rodrigues de Lima, morava em Piranhas em luxuoso sobrado. Fora acusado de envolvimento na morte de Delmiro Gouveia e em atentado à vida do coronel Lucena Maranhão, verificado no dia 06 de abril de 1927. José Rodrigues foi assassinado quase em seguida, na calçada da igreja do Livramento, em Maceió, no dia 28 de agosto de 1927 (mesmo dia em que o governador Costa Rego lhe prometera proteção) e sepultado em Maceió, segundo Hélio Cabral de Vasconcellos. Essa foi à primeira resposta. A segunda, encontramos na papelada, foi saber que Lampião, antes, atacara a sua fazenda, daí o envio de “cachimbos” para persegui-lo. Agora as duas novas perguntas: Segundo ainda o mesmo autor acima, Zé Rodrigues era mau. Mas por que existe até hoje em Piranhas um silêncio em torno do seu nome se ele, bom ou mau, teve importância na história do Sertão do São Francisco e do cangaço? Segunda nova pergunta: por que Lampião atacara à fazenda do coronel José Rodrigues de Lima, se ele queria dinheiro, armas, munição e proteção dos coronéis?
          Se você, leitor, é um pesquisador sério e tem as respostas, escreva para o nosso e-mail que publicaremos nesse espaço. Pode publicar também de outra forma, para o nosso conhecimento e dos leitores aficionados em LAMPIÃO, CACHIMBOS E CORONÉIS.

CORISCO Clerisvaldo B. Chagas 2 de junho de 2011.           Em Alagoas , o cangaço teve início em seus movimentos no extremo oeste, princip...

CORISCO

CORISCO
Clerisvaldo B. Chagas 2 de junho de 2011.

          Em Alagoas, o cangaço teve início em seus movimentos no extremo oeste, principalmente nas regiões de Mata Grande e, então, Matinha de Água Branca. A maioria das ações cangaceiras no estado aconteceu nessa região serrana, fronteira com Pernambuco, onde oficialmente Virgulino Ferreira da Silva tornou-se cangaceiro. Entre o homem trabalhador e ações violentas, vindo do estado vizinho, Virgulino começou a conjugar suas arruaças ao bando dos Porcino que atuava na área descrita. Esse bando movimentava a região, entre 1919 e 1920. Depois de extinto o bando dos Porcino, Virgulino ingressou no bando de Sinhô Pereira que atuava em Pernambuco, recebendo aí o apelido de Lampião e, logo após, a chefia do que restou do grupo, após a saída definitiva de Sinhô, tanto do cangaço quanto do Nordeste. No início das suas tropelias, sem dúvida nenhuma, até 1925 o cangaceiro mais famoso de Lampião foi o feroz paraibano Sabino Gomes. Sabino foi inspirador de quadras populares como esta:

“Lá vem Sabino
Mais Lampião
   Chapéu de couro
Fuzil na mão”.

          Cristino Gomes Silva Cleto nasceu em 10.08.1907, em Matinha de Água Branca. Após problemas durante o seu trabalho na feira, foi prestar serviço no Exército em 1924, que também por problemas, desertou em 1926, procurando depois o bando de Lampião e nele ingressando em agosto desse mesmo ano. Por sua coragem, passou a ser um dos grandes do bando. Foi um dos oito maiorais que migraram para a Bahia em 1928, após ser destroçado o grupo de Lampião com a retirada de Mossoró. Quando o bando permitiu a entrada de mulheres, sequestrou Sérgia Ribeiro da Silva, com ela conviveu e casou. Cristino virou Corisco e Sérgia virou Dadá. Em outubro de 1939, Corisco foi ferido em Lagoa da Serra, Sergipe, nunca mais se recuperando. Ficou de mão direita paralisada e o braço esquerdo atrofiado.
Em fuga, foi perseguido incessantemente no sertão baiano através da volante de Zé Rufino, metralhado na barriga ─ ao resistir à investida ─ falecendo a caminho do socorro, na carroceria de um caminhão da volante, em 25.05.1940, Brotas de Macaúbas, sendo sepultado em Jeremoabo, Bahia. Depois, teve seu túmulo violado, cabeça decepada e levada para estudos em Salvador.
          Corisco fazia parte do Estado Maior do bando de Lampião ao lado de cangaceiros que se tornaram lendas e chefiavam subgrupos como: Mariano, Mergulhão I, Antonio Ferreira, Juriti, Português, Fortaleza, Labareda, Virgínio, Moreno e Arvoredo. Entretanto, seu subgrupo era mais arredio e gostava de atuar à parte, mas sob a chefia geral de Virgulino. Corisco apavorou durante muito tempo a região de nascimento, município de Água Branca. Para os coronéis que forneciam armas e proteção a Virgulino, Corisco não era confiável com seus modos bruscos, falta de habilidade e ouvidor de primeira conversa. Foi quase independente, mas sem nada de extraordinário em relação aos maiorais acima citados.
          Nem queria falar agora sobre cangaço, mas escapando do cerco pulou CORISCO.

• Estamos tentando consertar o “Mural de Recado” do Blog. Coisa de Internet.

POVOADO AREIAS BRANCAS Clerisvaldo B. Chagas, 1º junho de 2011.           Estamos chegando aos 71 anos da fundação do povoado Areias Branca...

POVOADO AREIAS BRANCAS

POVOADO AREIAS BRANCAS
Clerisvaldo B. Chagas, 1º junho de 2011.

          Estamos chegando aos 71 anos da fundação do povoado Areias Brancas (O boi, a bota e a batina, história completa de Santana do Ipanema). O povoado Areias Brancas está situado às margens da BR-316 a 12 km da sede municipal no sentido Santana do Ipanema ─ Maceió. Assentado em terreno arenoso, que se estende a perder de vista pelos quatro pontos cardeais, o povoado leva a vantagem da topografia plana e localização de mão para a capital. A extração da sílica, pegajosa e isenta de salinidade, faz sucesso na construção civil proporcionando segurança e economia às edificações. Além do extrativismo mineral, a região é pródiga na produção do caju, despontando sempre primeiro nas safras anuais. Na agropecuária destaca-se com os gados bovinos e ovinos e na produção do feijão e do milho, todos os produtos cultivados com raízes no passado longínquo. Sendo o maior dos quatro povoados santanenses, também é o que mais cresce fazendo o elo entre a sede e os sítios da sua região que são inúmeros. Assim um pequeno comércio com prestação de serviço vai aliviando as constantes idas de seus habitantes a cidade de Santana. Mercadinhos, farmácia, açougue municipal, biblioteca pública, padarias, boas escolas e o movimento constante dos transportes estudantis, dos sítios para o povoado, do povoado para a sede, dinamizam a economia e atrai investimentos como recente churrascaria e posto de gasolina.
          Areias teve início com o seu primeiro habitante isolado, de nome Ismael, que vendeu suas terras a outro cidadão chamado Josias. Mas, tal como Santana, teve início oficial baseado na fé, na religião das “festas de Manoel Joaquim” em homenagem ao padre Cícero Romão Batista, depois a Santo Antonio e por fim, definitivamente a São Sebastião. Vários passos religiosos foram dados, permitindo a expansão da fé e do início do casario que veio com a rodagem Maceió ─ Delmiro Gouveia. Na política, consegue eleger seus representantes na Câmara Municipal, escolhidos entre os habitantes desse aglomerado. Assim, o povoado tornou-se importante ponto estratégico para a política local, influindo enormemente nos pleitos eleitorais.
          Entretanto, nada justifica uma placa na entrada dizendo “Povoado Areia”. Areia é localidade do estado da Paraíba. A denominação “Areias Brancas” vem desde muito antes da fundação do povoado, é tradição e jamais foi chamada “Areia”, nem mesmo pelas pessoas mais incultas. Respeitando outras opiniões (ninguém é dono da verdade) não encontramos, contudo, embasamento em nenhuma fonte oral, uma só justificativa para chamar o povoado de “Areia”. O resto é invenção. Pesquisando exaustivamente nada encontramos de diferente numa localidade que tem no máximo 71 anos de existência ─ se quiserem levar em consideração o morador Ismael. Um pouco menos pelas festividades de Manoel Joaquim e Rosa, mas jamais “Areia” será o nosso, pelo menos o meu POVOADO AREIAS BRANCAS.



RASO DA CATARINA Clerisvaldo B. Chagas, 31 de maio de 2011.           Entre os apreciadores da Natureza, têm os que dão preferência as pai...

RASO DA CATARINA

RASO DA CATARINA
Clerisvaldo B. Chagas, 31 de maio de 2011.

          Entre os apreciadores da Natureza, têm os que dão preferência as paisagens de outros países. Pessoas que gastam pequenas fortunas em busca de belas regiões em todas as partes do mundo, até porque Deus espalhou sua magia por todos os recantos da Terra. Uma região bastante desolada pode ser o caos para alguns, mas pode também encerrar beleza se olhado com olhos diferentes. O intercâmbio turístico demonstra que o interessante pode estar na Ásia, na América do Sul, Europa, América do Norte ou outro lugar qualquer. O advento da fotografia, aperfeiçoada constantemente, proporcionou a humanidade uma descoberta diferente do seu único planeta. Lembramos que a Europa, algumas dezenas de anos após a descoberta das Américas, deslumbrava-se com as paisagens tropicais extraídas dos renomados pincéis dos seus artistas famosos e viajantes. Muitas cenas do cotidiano exibiam como pano de fundo mata tropical, uma cachoeira, baía, lagoa, dando um toque do novo, do exótico, deixando um pouco de inveja ao apreciador de longe. Enquanto empresários do nosso Nordeste preferem navegar pelo Danúbio, Reno ou Mississipi encontramos barões de empresas, deslizando pelas águas do “Velho Chico”, absorvendo ainda o mundo selvagem dos tabuleiros de caatinga. Uns descobrem lá fora, outros descobrem aqui dentro os magníficos cenários das serras e rios sertanejos. Espalhados por todo o Nordeste, desde o litoral do Maranhão até o sertão da Bahia as variadíssimas descobertas empolgam nativos que ficam extasiados com o que temos a oferecer.
          Entre tantas belezas naturais que orgulham a região, é destaque o quase deserto Raso da Catarina, antes desprezado como lugar inóspito e distante da civilização. Citado por vários livros que falam sobre o Cangaço, o Raso da Catarina foi sendo estudado e hoje representa uma poderosa reserva ecológica criada em 1983, sob administração do IBAMA. Trata-se de uma imensa região entre os rios São Francisco e o Vaza-Barris, dueto de dezenas de combates entre volantes e cangaço; entre o rezador Antonio Conselheiro e o Exército, gerando cerca de 30.000 vítimas da estupidez humana, entre 1893 e 1897. O Raso da Catarina, hoje visto como parque ecológico e reserva dos índios Pankararés, é considerada uma das mais bonitas reservas do Brasil. Foi esconderijo de Lampião sob a cobertura dos índios que, aliás, forneceram cangaceiros e cangaceiras que se tornaram célebres e ferozes no bando de Lampião, como o desumano Gato, por exemplo. Lampião foi dali desalojado, surpreendido na caverna do Chico por um contingente de Pernambuco, graças ao exímio rastejador Antonio Cassiano. Nessa ocasião Maria Bonita foi ferida e carregada às costas por Lampião. Seu cachorro foi baleado e a tropa faminta o devorou ainda vivo. Delimitada pelos municípios de Paulo Afonso, Jeremoabo, Canudos e Macururé (terra do famoso queijo que leva seu nome) o local é apreciado por turistas, curiosos, historiadores, estudantes e mais. Assim como é dever do santanense conhecer as serras deslumbrantes do município, esse dever é estendido ao nordestino que não pode deixar de apreciar ao vivo, O RASO DA CATARINA.

• Raso: região plana intercalada de riachos e ravinas. Catarina: mulher de lide-rança que habitava a localidade.

UMA TONELADA Clerisvaldo B. Chagas, 30 de maio de 2011.           Com os constantes aperfeiçoamentos na arte de destruir os semelhantes, o...

UMA TONELADA

UMA TONELADA
Clerisvaldo B. Chagas, 30 de maio de 2011.

          Com os constantes aperfeiçoamentos na arte de destruir os semelhantes, os cientistas bélicos vão expondo ao mundo os novos trabalhos de pesquisas. Para isso é preciso provocar algum tipo de guerra por aí para poder testar a eficácia dos seus inventos. Não é somente a bomba atômica que é perigosa. Aliás, agora, ela é mesmo a mais arrasadora, pois algumas da mesma família poderão destruir o planeta completamente em questões de horas ou minutos. Dessa têm muitas nos arsenais das nações belicosas. É o homem eternamente desconfiado do próprio homem. A desconfiança ou a ambição permanente fizeram surgir esses brinquedos de uma forma ingênua. Se uma pessoa adquire uma espingarda contra outra pessoa julga está segura. Mas acontece que essa outra pessoa, compra um rifle. A primeira adquire uma metralhadora e assim sucessivamente. Foi dessa maneira também com as nações na sede de estarem sempre em vantagem contra as outras. O aperfeiçoamento das ameaças levou os dois principais antagonistas, Estados Unidos e União Soviética, ao topo de um possível confronto, cujo vencedor não seria ninguém. E se falam na besta do fim do mundo, a impressão que se tem é que a besta é o próprio homem que procura destruir a sua espécie.
          Como os países que brigam no espaço aéreo da Líbia não querem invadi-la por terra, tornam mais difícil uma solução rápida e nem por isso causadora de menor sofrimento ao povo líbio. Estão somente soltando foguete para espantar o animal, porém com medo de pegar a onça à unha. Daí o Reino Unido achar pouco as bombas comuns que joga na cidade do ditador e parte para outra solução. Mandar uma bomba inventada desde os tempos das cavernas esconderijos de Bin Laden. Aquele tipo de bomba que causa muita destruição física, não dando chance nenhuma ao lugar de abrigo, pois penetra por todos os interiores. São as tais bombas “bunker-busting” (destruidora de edificações) que pesam uma tonelada cada uma e podem ser lançadas a partir dos aviões britânicos. Segundo os fabricantes de boas ideias, isso seria um recado bem claro ao senhor Kadhafi que é hora do homem deixar o poder, como se ele fosse mudo, surdo, cego e doido. Dizem que essas bombinhas já estão em bases italianas de onde partirão nos aviões britânicos rumo ao norte africano.
          Como os festejos juninos aproximam-se, no Brasil, talvez a ONU queira comemorar soltando essas bombas às costas de Kadhafi, homem difícil de morrer. O Reino Unido e outros países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) querem intensificar o negócio para encerrar de vez o assunto desgastante. E enquanto não descem a terra para pegar o sujeito na marra, nós aqui no Brasil vamos só apreciando o desenrolar do conflito pela televisão. Algumas pessoas acham, porém, que será um desperdício jogar bomba “bunker-busting” na cabeça de Kadhafi, pois em antros de tantos safados que fazem miséria com o povo brasileiro, ela poderia dar conta sem culpa da consciência. Lógico que isso é apenas uma metáfora, mas tem muito escravocrata moderno que só abandonaria o relho de couro cru, se fosse tratado à base de UMA TONELADA.



OS TRÊS POTES DE LABAREDA Clerisvaldo B. Chagas, 27 de maio de 2011 .           Dia e noite trabalhando sobre o cangaço, ordenando uma peq...

OS TRÊS POTES DE LABAREDA

OS TRÊS POTES DE LABAREDA
Clerisvaldo B. Chagas, 27 de maio de 2011.

          Dia e noite trabalhando sobre o cangaço, ordenando uma pequena e grande enciclopédia, temos a impressão de que em um mês e meio, aproximadamente, daremos por concluído o trabalho. Estamos na ordem inédita do assunto, ano a ano, mês a mês e quando possível dia a dia, desde o nascimento de Virgulino até o destino dos dois últimos cangaceiros, em 1941, Moreno e sua mulher Durvalina. Vamos selecionando os grandes momentos filosóficos, aliás, essas tiradas, quando da parte de Lampião, estão em nossa peça teatral para adultos, nunca publicada, “Sebo nas canelas, Lampião vem aí”. Falemos hoje sobre falta de respeito.
          Na época em que Virgulino perambulava entre Bahia e Sergipe, a partir de agosto de 1928, aconteceu um dos casos interessantes. O bando estava reunido no terreiro de uma casa, onde foi promovido um improvisado arrasta-pé. Em uma sombra de árvore, próximo ao forrobodó, descansavam três potes com água fria para quem quisesse beber. O baile estava animado, quando Lampião resolveu amarrar com um pano as bocas dos três depósitos de barro, por causa da poeira que levantava das alpercatas. Ordenou aos cabras que sempre cobrissem os potes após beber água. O cangaceiro Ângelo Roque, um dos grandes do bando, não participava dessa dança, tendo ficado deitado perto dos potes com sua mulher. Como acontece com uma porta fechada que muitos passam e não deixam como estava antes, assim os que bebiam água deixavam os potes descobertos. Lampião, vendo desfeito seu trabalho, gritou para todo mundo ouvir que não estavam fazendo como ele mandara. E advertiu asperamente a Ângelo Roque que estava perto, deitado, descansando com a mulher e “não estava vendo aquilo?”. Labareda não respondeu. Momentos depois se levantou e, com o coice da arma longa, destruiu os três potes, voltando ao colo da mulher. Daí a pouco chega Zé Baiano para beber água e vê a bagaceira. Pergunta quem fez aquilo. O autor responde que foi ele “por quê?” Zé Baiano não responde e vai dizer ao chefe. Lampião se desloca com muita raiva até Ângelo Roque. O cabra levante-se e aguarda. O chefe diz: “Então você não me respeita mais?” Labareda, homem de personalidade firme, diferente de todos os outros do bando, responde: “Por que você também não me respeita”. Lampião mira o cabra por um momento e arma o fuzil contra ele, recebendo resposta semelhante. Ficam assim tentando atirar um no outro, até que chega Virgínio, cunhado de Lampião, apelidado Moderno, e pede para acabar com aquilo, pois já basta os “macacos” (soldados) por todos os lugares. Ambos se acalmam e o impasse tem fim.
          Digitando, ordenando, conferindo, armazenando dados, aos poucos vamos livrando o rosto da pilha de papéis velhos. Não deixamos de encontrar situações atualizadíssimas do cotidiano. Quer ser respeitado? Respeite primeiro. Então surge a situação do funcionalismo público de Alagoas mantido em cativeiro moral e econômico, ridicularizado pela gargalhada do senhor de engenho Teotônio Vilela Filho. Como um governador pode ser respeitado se primeiro não respeita? O confronto entre servidores e governo representa nitidamente o passado cangaceiro dos TRÊS POTES DE LABAREDA.

SÓCIO DO DIABO Clerisvaldo B. Chagas, 26 de maio de 2011.           Com a nossa incursão por muito tempo pelo mundo dos cantadores nordest...

SÓCIO DO DIABO

SÓCIO DO DIABO
Clerisvaldo B. Chagas, 26 de maio de 2011.

          Com a nossa incursão por muito tempo pelo mundo dos cantadores nordestinos, depositamos inúmeras pequenas histórias que se tornaram imortais. Como iniciante na arte ou como apologista, ficamos impregnados do mundo mágico da criatividade, sensibilidade e beleza da poesia fabricada na hora, da melhor qualidade e aos borbotões. Muitos anos antes de penetrar nesse mundo maravilhoso do repente, conhecemos um apegado apologista, já tocado por nossos trabalhos anteriores. Antes, vivíamos às voltas com Bilac, Pederneiras, Varela e outros da Literatura. Hermínio Tenório, o Moreninho, dono de farmácia, prático de Medicina e boêmio de farras colossais, repetia e repetia passagens marcantes das grandes cantorias. Gostava também de recitar Catulo, Zé da Luz e Castro Alves. Moreninho tinha predileção pelo famoso encontro em Alagoas de Manoel Neném com Joaquim Vitorino. Manoel Neném era, então, o predileto dos grandes de Viçosa, onde residia. Joaquim, de solo pernambucano. A abertura do encontro ansiosamente esperado foi assim:

“Sou Joaquim Vitorino
Filho do velho Ferreira
Natural de Pernambuco
De Afogados da Ingazeira
Sou o maior cantador
Dessa terra brasileira”

          O representante alagoano de origem pernambucana, respondeu:

“Eu sou Manoel Neném
Cantador que não se braia
Sou vento rumorejante
Nos coqueirais de uma praia
Sou maior que Rui Barbosa
Na Conferência de Haia”

          O salão foi abaixo com o início e o desenrolar da cantoria. Vitorino foi muito aplaudido, gerando ciúmes e terrível inveja naquele que ainda não enfrentara um gigante igual a Joaquim. No final, lá nos escuros do terreiro, Manoel Neném partiu para apunhalar o adversário, mas foi seguro por um dos figurões que disse: ”Um canário desse não se mata em Alagoas”.
          Vimos assim que a inveja está em todos os lugares, desde o mundo encantado da poesia aos salões de velhos gabinetes. O invejoso é um frustrado tão profundo que mata com o olhar, com bruxaria, colocando pedras nos caminhos, anonimamente desvalorizando. Julga-se invisível nas suas nuances maquiavélicas, mas são facilmente detectados pelos galos de calejados esporões. O prezado leitor já foi vítima da inveja? Não acredita? Rezemos, então, ao anjo de guarda do (a) seca-pimenteira porque ser invejoso é ser SÓCIO DO DIABO.




CABEÇAS DURAS Clerisvaldo B. Chagas, 25 de maio de 2011. Até quando teremos que ouvir e vê espetáculos degradantes de famílias soterradas ...

CABEÇAS DURAS

CABEÇAS DURAS
Clerisvaldo B. Chagas, 25 de maio de 2011.

Até quando teremos que ouvir e vê espetáculos degradantes de famílias soterradas ou desabrigadas em Maceió? Nós alagoanos conhecemos de sobra à certeza anual das tragédias de inverno. É o tal entra prefeito e sai prefeito, mas ninguém ousa assumir a função social de contenção de catástrofes ocasionadas pelas chuvas de outono-inverno. Antes eram as ocorrências absurdas e desumanas das cheias lagunares que deixavam os alagoanos estressados de tanta repetência da verdade e das manchetes nacionais. Color, bom ou mau administrador como prefeito ou nos Martírios, construiu com mérito o dique-estrada que, além de conter as águas de inverno, desafogou o trânsito pelo centro, criando um novo complexo de vias na região dos Bairros Bebedouro e Vergel. Nunca mais se ouviu nacionalmente o que ali ocorria. Acontece, porém, que famílias invadiram o além-dique por falta de pulso das sucessivas administrações, permitindo até construções de casas comerciais e residências com primeiro andar. Se os gestores forem permitir que o povo faça como quer, ou por falta de determinação ou conivência política, tipo não perder voto, nunca teremos uma solução definitiva para esses problemas que constrangem o cidadão e tocam fundo nas pessoas. Além das invasões pela água nos terrenos planos, temos os eternos problemas nas encostas, principalmente entre a região de baixo e da Maceió de cima.
Quem passa durante o período de estiagem, pelas periferias das barreiras, fica até com mal-estar ao prolongar a vista para as casas à beira dos abismos, barreiras já comidas, sem a mínima proteção, nem mesmo com uma pequena cerca que evitaria no momento, quedas de crianças. São os fundos das residências diretamente ligados para as ravinas, em cerca de dois ou três metros. É tanto dinheiro que entra nos cofres públicos, mas os gestores não escutam o canto dos pardais, anunciando mudança de tempo. Onde estão os engenheiros do nosso estado? Onde se escondeu a engenharia alagoana que poderia fazer um serviço continuado de contenção de encostas, até o último perigo das barreiras e grotas de Maceió. Um serviço grandioso, decente, humanitário que depois de concluído, servisse de exemplo para o Brasil e boa parte do mundo onde as tragédias se repetem pelo mesmo motivo.
Mais uma vez estamos diante de imagens e notícias degradantes que nos deixam frustrados como ser humano que vale alguma coisa. Estão aqui, frente a nós, paisagens humilhantes coloridas, nítidas, arrasantes e evitáveis. Os que respondem pela segurança pública, continuam preocupados em encher os cofres particulares, sem temor algum quanto a justiça dos homens que anda comprometida até o pescoço, usando a velha filosofia do “quem for podre que se quebre”. No final das pequenas ou grandes tragédias eles sabem que não haverá punição para ninguém e o povo será acusado de cabeça dura, até que os primeiros momentos do impacto sejam cobertos por outras novidades.
Não creio que você que está lendo esta crônica, esteja com a casa em risco. Mas se tiver ouça o canto dos pardais, porque em breve (com os grandalhões nada acontecerá) você, juntamente com outras centenas de vítimas, também será incluído no rol dos CABEÇAS DURAS.

FEIRA DO RATO Clerisvaldo B. Chagas, 24 de maio de 2011. Ao vermos estampada a imagem nos jornais do trem de superfície ganho por Maceió, ...

FEIRA DO RATO

FEIRA DO RATO
Clerisvaldo B. Chagas, 24 de maio de 2011.

Ao vermos estampada a imagem nos jornais do trem de superfície ganho por Maceió, ficamos satisfeitos com sua beleza e modernidade. Quem conhece os vagões utilizados em Alagoas, não deixa de compará-los aos velhos trens americanos do tempo de índios e caubóis. Mas não se deve olvidar a grandeza da prestação de serviço desses possantes transportes feitos de ferro, as lutas do povo do estado pera tornar realidade o progresso através das composições. Quando a época só oferecia cavalo, burro, carro de boi e mais tarde o caminhão, o empenho popular tinha razão em querer o conforto do trem de passageiros. Eles permitiam longas viagens, bem como a possibilidade de escoar os produtos agropecuários, centradas nas péssimas estradas de problemas permanentes. Os ramais de Maceió, Viçosa, Quebrangulo e Palmeira dos Índios, foram comemorados com muita euforia porque representava o novo, o progresso estadual, ainda que demorasse tanto a chegar ao Agreste. Tudo foi polêmico como ainda hoje. Interesses diversos, descasos, lutas, projetos não cumpridos, irritações permanentes e promessas políticas, foram sendo escritos na história alagoana do final do século XIX e primeiro terço do século XX. O trem de Piranhas, mesmo de ramal isolado, prestou relevante serviço naquele trecho do Rio da Unidade Nacional, em consonância com burros de carga, carros de boi e navios. Os trens entram em romances de Graciliano Ramos, Clerisvaldo B. Chagas e livro de Floro de Araújo Melo, como complementação indispensável à história do período. 
Não deixa de ser, portanto, motivo de grande satisfação contemplar a nova imagem do trem que chega para servir a região da Grande Maceió.  O danado é muito bonito, confortável e igual ao de qualquer outro lugar civilizado do mundo. Segundo a CBTU ─ Composição Brasileira de Trens Urbanos ─ serão oito composições com três vagões cada, e que estarão em pleno funcionamento ainda no primeiro semestre. Esse meio de transporte recebeu a denominação de VLT que significa Veículo Leve sobre Trilhos. O amigo quer experimentar uma voltinha no VLT? Pois nós também. Como quem escreve, Zé, pode ficar de fora de maravilha igual a essa? Quem perde é somente a tradicional imundície da Feira do Passarinho ou a antiga enrolada da Feira do Rato, que terão de ceder espaço para o bichão bonito que já chegou.
As opiniões vão-se dividindo e já existem os eternos pessimistas que estão profetizando o sucateamento dos novos veículos, antes mesmo do início dos serviços. São os que carregam energia negativa às costas, um perigo constante para o ânimo e êxito de amigos, vizinhos e colegas de trabalho. O velho e exaurido transporte à base de ônibus, teima em não se modernizar fisicamente nem em número de passageiros e cumprimento de horários. Coisa mesmo de província. Esperamos que o VLT traga com ele uma mentalidade atualizada e futurista para romper o gargalo do transporte urbano de Maceió. Fora todos os hábitos nocivos da FEIRA DO RATO.

CABEÇAS DECEPADAS (Clerisvaldo B. Chagas, 23 de maio de 2011).           Tocamos aqui outra vez sobre alguns momentos tristes da História ...

CABEÇAS DECEPADAS

CABEÇAS DECEPADAS
(Clerisvaldo B. Chagas, 23 de maio de 2011).

          Tocamos aqui outra vez sobre alguns momentos tristes da História de Alagoas. Um episódio difícil para a sensibilidade alagoana foram os excessos monstruosos praticados pelos irmãos Moraes. Após as lutas entre lisos e cabeludos, os filhos do vigário de Palmeira dos Índios, padre José Caetano de Moraes ─ assassinado por pertencer à facção dos lisos ─ foram à vingança. Àquele sacerdote fora morto pela força governamental comandada pelo major Cobra que estava incumbido de prendê-lo e enviá-lo a Maceió. Não houve justiça. Reunindo numeroso bando, 40 ou 50 homens afeitos à desordem, os irmãos Moraes praticaram absurdos em várias partes do estado, não poupando nem as criancinhas. Foi inútil a perseguição de força contra eles, comandada por Pedro Ivo Veloso da Silveira, com 100 homens. Os irmãos Manoel de Araújo Moraes e José de Araújo Moraes estavam dispostos a matar a qualquer pessoa que pertencesse ao partido dos adversários. Um dia, o bando cruzou o Ipanema e foi esbarrar em Águas Belas, Pernambuco, à casa do pai do Barão de Atalaia, membro da família Sinimbu, partidário dos cabeludos. Entre Santana do Ipanema e a cidade pernambucana, o povoado Poço preveniu-se contra uma possível invasão, fazendo uma trincheira contra os irmãos Moraes no lugar onde havia um poço. O bando passou ao largo até cruzar a fronteira estadual. O barão havia partido para Maceió, mas tendo a casa cercada, o seu pai conseguiu escapar miraculosamente. Com a demora proposital do retorno do bando, a população do Poço desmobilizou-se, permitindo a entrada dos bandidos que fizeram misérias no povoado. Daquele dia em diante, o lugar que já era Poço, passou a ser chamado de Poço das Trincheiras até hoje.
         O próprio povo alagoano, revoltado com o terrorismo implantado pelos filhos do padre, empreendeu caça aos dois irmãos aonde quer que eles se encontrassem. Manoel Moraes foi logo assassinado nas matas de Vicente de Paula, por um homem mameluco. José, entretanto, continuou com seus atropelos de horror à população, mas também gerando anedotas no imaginário popular. Transpondo o rio São Francisco, caçado incessantemente, internou-se na caatinga do município de Porto da Folha, solo sergipano. Seu bando havia se esfacelado, ele se achava só, perseguido sem trégua por uma expedição chefiada por José Afro Cavalcante Pimentel, Vitorino e Apolinaro mais o rastejador Izidro da Hora. José foi encontrado no lugar denominado Cipó de Leite, às faldas da serra da Vaca. Faminto e cansado, o bandido procurava assar uma cobra para comer. Entregou-se sem resistência. Foi preso e degolado na hora. A cabeça foi colocada em sacola de couro cru usada para transportar água. O grupo perseguidor seguiu, então, para Canindé, numa canoinha que ficou conhecida como “Cabeça do Moraes”.

***

          Atualmente existem secretários de prefeituras que querem mandar mais que o prefeito, mestres em decapitar quem nunca lhes fez mal. Pagam o bem recebido antes com ciúme e guilhotina afiada. Para os que não aprendem, chegará o dia em que, como fazem com outrem, terão suas próprias CABEÇAS DECEPADAS.


OS MESMOS CANTARES (Clerisvaldo B. Chagas, 20 de maio de 2011)           A crescente onda pela democracia no Oriente Médio e norte da Áfric...

OS MESMOS CANTARES

OS MESMOS CANTARES
(Clerisvaldo B. Chagas, 20 de maio de 2011)
          A crescente onda pela democracia no Oriente Médio e norte da África, sem dúvida é um dos marcos importantíssimo da história contemporânea. As ditaduras civis que fazem parte da tradição daqueles povos pareciam consolidadas para sempre. Foi o progresso das comunicações internacionais que fizeram as revoltas dos povos que se sentiram injustiçados. Com a velocidade e a expansão de informações em todos os países, acompanhadas de imagens multicores e nitidez impressionante, as populações vão percebendo as diferenças sociais entre os lugares. Com o progresso da Educação, juntam-se ambas as coisas e o questionamento passa a ser inevitável. A velha nobreza europeia ou a teocracia religiosa com hegemonia familiar do poder vão ficando desnudas diante das imagens de televisão liberal e da Web sem fronteiras. São ferramentas que nesse primeiro momento fazem um efeito devastador como ora acontece. Antes, o mundo era desconhecido. Pouco se sabia dos acontecimentos atualizados por aí, épocas favoráveis para os donos do poder.
          Interessante é a pele de camaleão dos Estados Unidos. Enquanto os ditadores serviam as suas estratégias, bases de domínio militar e psicológico ao mundo eram excelentes colaboradores e podiam oprimir à vontade os governados. Assim aconteceu na América do Sul e Central, onde houve incentivo e até participação americana em favor de famosos caudilhos, inclusive no Brasil com Getúlio Vargas e na fase chamada de “período de chumbo”. Também na África, no Oriente Médio e na Ásia, onde os nocivos para o povo são acalmados e tornam-se dóceis à custa de milhões e bilhões em cédulas verdinhas.
          Como os ventos da liberdade começam a soprar nas regiões citadas, o governo americano veste a pele de camaleão, dá às costas aos antigos aliados e procura acabar de demolir seus antigos regimes, pulando de galho em galho igual a macaco. Dão, como fala o provérbio, “uma no cravo, outra na ferradura”. Procurando sempre não perder as posições estratégicas, os americanos acenam para os possíveis novos governantes com milhões de dólares, apesar da crise. Exercitar a democracia em países de tradição ditatorial, não vai ser fácil, assim como também não será fácil, inicialmente, o novo estado palestino a ser reconhecido. Os desentendimentos entre israelenses e seus vizinhos árabes, vêm de muitos séculos, desde os combates sem fins nas terras de Sansão e Dalila.
          Após essa onda democrática, com certeza virá o acomodamento da nova situação que poderá ser breve ou demorar bastante. Somente depois poderá ser feita uma avaliação segura de como ficará o regionalismo asiático e africano. Aí virão questões como o relacionamento Israel/Palestina, regimes democráticos e seus respectivos povos e, as modalidades políticas para o exterior, principalmente com os americanos. Aliados a isso, o crescente momento dos BRICS, vão deixar uma nova ordem mundial que o tempo dirá como. Nada definido, ainda.
          Assim como os americanos, muitos da classe política brasileira aprenderam com mestria a mudar a cor da pele... Ou penas, como os canários fofos que povoam o meu Sertão. Mudam as penas, mas permanecem OS MESMOS CANTARES.

ONDA COROADA (Clerisvaldo B. Chagas, 19 de maio de 2011).           Entre tantas notícias pessimistas, é fonte diferente de satisfação qua...

ONDA COROADA

ONDA COROADA
(Clerisvaldo B. Chagas, 19 de maio de 2011).

          Entre tantas notícias pessimistas, é fonte diferente de satisfação quando se publicam boas novas. E quando as boas novas sobre o nosso país são veiculadas por órgãos estrangeiros, é de se sentir contentamento. Isso porque há tempo, ficávamos bisonhos com as fugas constantes dos nossos trabalhadores comuns para o exterior. Era a busca de oportunidades lá fora na tentativa por melhores dias, tendo como base o convívio familiar. Isso também acarretava o trauma da separação, o enfrentamento de novos hábitos, costumes, línguas, climas e o geral complexo de sociedades diferentes. Quando esses trabalhadores davam-se bem, apesar da imensa saudade da terra e dos que ficavam, podiam ajudar com algum dinheiro à parte que ficava no Brasil. Bons exemplos dessa realidade aconteciam em alguns municípios de Minas Gerais, estado notável por receber dinheiro das inúmeras famílias que estavam fora. Ali investiam e progrediam fazendo crescer junto o município, como em Teófilo Otoni. Para os que não conseguiam progredir, a amargura da frustração tornava-se um pesadelo.
          Felizmente a realidade brasileira agora é outra. Hoje o Brasil supera importantes países da economia e da ciência tradicionais como a Rússia e a Holanda, chegando ao 13º lugar do mundo em produção científica. Atrai cada vez mais estrangeiro para trabalhar e investir no Brasil, diz reportagem da revista britânica “The Economist”, em janeiro. Segundo a revista, os aumentos de investimentos na ciência nacional nos últimos anos, fazem do Brasil um dos principais polos de atração científica internacional. Diz à publicação que as universidades brasileiras buscam atrair cientistas mais velhos de outros países para que possam administrar alguns de seus laboratórios e se estabelecerem em definitivo no país.
          Não cabe apenas numa crônica a análise sobre a excelente reportagem publicada sobre esse enfoque. (VIVES, Fernando. Dinheiro, enfim, na academia. Carta na Escola. (54): 52-55, mar. 2011.). O autor faz referência a algumas instituições brasileiras classificando a EMBRAPA como a mais respeitada no mundo em relação às suas pesquisas. Embora muita coisa ainda tenha que ser feita esse retorno de trabalhadores e cientistas ao nosso país, é de fato uma coisa extraordinária para quem passou a vida inteira ouvindo que o Brasil era o país do futuro. A nossa mão de obra especializada já começou a faltar porque o Brasil partiu na frente de diversas profissões. Mas o melhor de tudo é que esse crescimento fantástico é completamente irreversível. Se não foi totalmente para nós, será pleno para os que nos sucederão, pois também ouvimos dizer que Deus é Brasileiro, muito embora Satanás também queira assumir. Se houver uma quase cruzada, pelo governo federal e pelo povo, sistematicamente, noite dia, contra a corrupção em todas as esferas, poderíamos, sem dúvidas chegarmos ao topo do desenvolvimento. E se o mundo inteiro reconhece a atual posição do Brasil, vamos com eles nessa ONDA COROADA.

AVE CÉSAR (Clerisvaldo B. Chagas, 18 de maio de 2011).            Maracanã é termo relativo a várias aves psitaciformes que habitam desde ...

AVE CÉSAR

AVE CÉSAR
(Clerisvaldo B. Chagas, 18 de maio de 2011).

          Maracanã é termo relativo a várias aves psitaciformes que habitam desde o Maranhão ao sul do Brasil. Entre essas aves que chamam atenção pelo verde intenso da sua plumagem, está a Propyrrhura maracana, cuja beleza é muita apreciada e vive entre trinta e quarenta anos. Como outras aves brasileiras, vai mudando o nome conforme as regiões desse imenso país. O tipo de periquito é um dos mais atraentes também para contrabandistas que tentam levá-lo para Europa nas piores condições possíveis. Como o verde tem destaque especial em nossa bandeira, a Propyrrhura parece representar bem o Brasil, sendo ligada imediatamente a nossa flâmula. Assim, a designação do maior estádio do mundo, situado na área da ave apresentada, parece não causar nenhuma surpresa na importante justiça da homenagem.
          A velha praça de esportes do Rio de Janeiro, desgastada pelo tempo, sempre representou o futebol mundial como símbolo físico maior. Levado àquele estádio na década de setenta, pelo primo santanense médico Stênio Chagas Duarte, irmão do também saudoso vereador Tácio Chagas Duarte, pudemos contemplar a grandeza que representa o Maracanã, tanto na parte física quanto na sua simbologia. Aquela noite onde milhares de pontos luminosos (cigarros) ornavam as arquibancadas, o empate em 2 X 2 entre Brasil e Alemanha, os urros da torcida brasileira, deixaram a impressão de um mundo surrealista na apreciação do colosso carioca. Só quem conhece de perto o poderoso estádio sabe quanto é forte o nome do pequeno papagaio maracanã.
          Recentemente, após uma polêmica enorme em torno do seu nome, da sua velhice, da sua demência, houve até quem propusesse a sua demolição simples e radical. Outra ideia um pouco mais nobre propunha transformar o gigante em museu para funcionar como atração turística. Todas as saídas apresentadas sempre esbarravam na parte financeira para qualquer projeto que visasse alimentar o titã de concreto. Finalmente, para a nossa satisfação e orgulho nacional, é mostrada ao público a maqueta e escrito todos os detalhes de revigoramento do pai de todos os estádios do planeta. É impressionante como o velhinho está no forno para sair novinho, novinho que só cédulas de cem. Será novamente, comadre, o mais moderno do mundo e com capacidade para oitenta mil torcedores. Estou com tudo aqui, virtualmente diante de mim. Bonito que só uma noiva na igreja! Impressionam também os detalhes da obra orçada em menos de um bilhão e que por certo contam pontos importantes para a engenharia brasileira.
          Agora a velha ave maracana vai poder fazer zoada à vontade. Uma verdadeira ressurreição em vida. Quando a ciência fará assim também conosco, os idosos do país? AVE CÉSAR.

ASSIM É COVARDIA Clerisvaldo B. Chagas, 17 de maio de 2011).           O Quênia, simpático país africano tem dado ao mundo uma paisagem de...

ASSIM É COVARDIA

ASSIM É COVARDIA
Clerisvaldo B. Chagas, 17 de maio de 2011).

          O Quênia, simpático país africano tem dado ao mundo uma paisagem deslumbrante na parte física do país. Uma nação que luta constantemente para matar a fome do seu povo, atrai turistas de todos os recantos para mostrar as suas belezas naturais. Mas, assim como o Brasil passou o ser o planeta Bola, o Quênia também chegou a ser o reino Corrida. Essa nação africana adquiriu bastante respeito quando começou e continuou a ganhar inúmeras corridas de rua em todos os recantos do globo. Seus simpáticos atletas compridos, magros e negros, desafiam todas as cores com suas pernas compridas e velozes. Basta haver um maratonista queniano, masculino ou feminino, em competições internacionais para que o brilho do atletismo garanta sucesso absoluto. Muitas vezes eles nos humilham no Brasil, mas a simplicidade e simpatia dessas pessoas maravilhosas, mesmo assim, são motivos de nosso respeito e admiração.
          Samuel Wanjiru, maratonista queniano, ouro em Pequim, acaba de falecer. Morreu ao cair do ultimo andar da sua casa, diz a polícia. Como todo ser humano, desconhecido ou famoso, está sempre entre o amor e o ódio, Wanjiru não ficou indiferente a esses sentimentos. Aos 24 anos, Samuel discutia com sua esposa Triza Njeri em sua casa, na localidade Nyahururu, no centro do Quênia, quando caiu da varanda e morreu. Jasper Ombati, chefe de polícia local, disse que foi aberta uma investigação para apurar o caso. Wanjiru após chegar a casa com uma amiga após reunião social chegou a sua esposa e começou o desentendimento. Vale salientar, porém, que o atleta já vinha há muito com problema entre a mulher e a Justiça. Ninguém acredita de primeira em acidente tão ingênuo. Muita coisa ainda vai ser espremida nessa investigação. O amor e o ódio continuam fazendo vítima pelo mundo inteiro, pois são sentimentos arraigados na constituição do homem e da mulher; quando termina um geralmente inicia o outro. Só os santos verdadeiros talvez tenham encontrado o equilíbrio perfeito, coroa dos pensantes.
          Todo famoso tem o direito de escândalos e mais escândalos que se vão compartimentando em coleções. Samuel, nosso espetacular maratonista não teve a sorte de escandalizar mais, como os que sobem apoiados em pedestais de barro. Glorificando o seu país, foi embora um precioso atleta. E Triza? O que será de Triza Njeri?
          Quantos desses “acidentes” já aconteceram no Brasil? E em Alagoas? Lembram-se das coisas de São José da Tapera, de Olho d’Água das Flores e gente de Santana do Ipanema mesmo, lá nos apartamentos de Maceió? Pesquisem os arquivos se assim quiserem saber mais. Dizem que nós somos bichos brutos melhorados em busca do aperfeiçoamento. Sei não. Para quem acredita em bruxa, ela deve estar solta mesmo. E a danada parece que substituiu a velha vassoura de cipó, pelas vibrações da robótica japonesa. ASSIM É COVARDIA.




DOIS PARTIDOS (Clerisvaldo B. Chaga, 16 de maio de 2011). Memorial Vivo (19) Pags. 180-81   “O Boi, a bota e a batina, história completa de ...

DOIS PARTIDOS

DOIS PARTIDOS
(Clerisvaldo B. Chaga, 16 de maio de 2011).
Memorial Vivo (19) Pags. 180-81 
“O Boi, a bota e a batina, história completa de Santana do Ipanema”

           Após a inauguração do elevado do Pinguim ─ palanque oficial de concreto construído pelo, então, prefeito Hélio Cabral sobre a sorveteria de igual nome, de Firmino Falcão Filho ─ muitos homens sérios e demagogos usaram-no para seus empolgados discursos eleitoreiros. Ali, defronte a igrejinha de Nossa Senhora da Assunção, o povo, através do tempo, iria escutar de perto as lorotas dos políticos.
          Mais ou menos com dezessete anos de idade, decorei duas coisas: uma delas foi o discurso do governador Luiz Cavalcante durante a inauguração da luz, ou seja, da chegada de energia elétrica de Paulo Afonso em nossa cidade. Era natural que após quatro anos de luta para sair das trevas, o santanense estivesse naquela noite no Pinguim. O governador, muito espirituoso, popular e populista. Gostava de andar só, chupar roletes de cana nas bancas dos ambulantes e entrar de supetão nas repartições públicas como andarilho. De cima do palanque, o chefe dizia uma frase, o santanense aplaudia; dizia outra, novos aplausos. Até que o homem encerrou dizendo: “Hoje só não bebe o ovo e o sino. O ovo porque já está cheio e o sino porque tem a boca para baixo”. O povo riu à toa. Uma nova era surgiu em Santana do Ipanema com a força da cachoeira e o ditado batido do governador.
          A outra coisa foi o discurso de um político da Zona da Mata. De cima do mesmo Pinguim ele falava sobre reforma agrária e prometia várias coisas. Nós, estudantes do Ginásio Santana, deixamos as aulas, suspensas naquela noite, para ouvirmos juntos com a multidão. Lá para as tantas, o político, criticando as diversas agremiações partidárias, disse: “Minha gente, neste País só existem dois partidos: os que comem e os que querem comer”.
          Como nós, estudantes, acabávamos de sair das salas de aula, aprendíamos agora a verdadeira lição na sala de aula da rua. Que “bela” esperança para os jovens estudantes brasileiros era apresentada por aquele candidato a deputado!
          Saí para casa, acabado o comício. A lição do Ginásio eu já havia esquecido. Ficara apenas a orientação da rua: “No país só existem dois partidos: os que comem e os que querem comer”.