CHEGOU! CHEGOU! Clerisvaldo B. Chagas, 24 de junho de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.559 O governador promete...

 

CHEGOU! CHEGOU!

Clerisvaldo B. Chagas, 24 de junho de 2021

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.559



O governador prometeu e agiu com rapidez. Tanto é que para muitos foi uma surpresa e tanta, uma vez que já estávamos, semana passada, sendo informados de que a sinalização da via asfáltica Carneiros – Santana do Ipanema, estava sendo providenciada. Os sites noticiosos calaram o andamento da obra e, de repente a surpreendente notícia: o homem já havia concluído o trabalho, enquanto muitos jornais cochilavam. O município de Carneiros, satélite de Santana do Ipanema e desta desmembrado, há muito aguardava o asfalto para sua antiga sede, pelo menos até a AL-120, bem perto de Santana. A falta do asfalto dificultava a integração entre ambos os municípios, até que o que parecia impossível aconteceu. Agora totalmente integrados Santana e Carneiros, ligados sem rodeio, diretamente, irão ganhar um intercâmbio nunca visto antes, sendo muito mais comércio para Santana e um sem número de prestação de serviços para Carneiros.

A rodovia dessa integração, beneficia inúmeros sítios rurais como Olho d’Água da Cruz, Divisão e Alto d’Ema. O primeiro em Carneiros, o segundo na divisa entre os municípios – daí o nome Divisão, terra do saudoso e famoso repentista, Zezinho da Divisão – e o Alto d’Ema, já em território santanense, é área de terras das nossas origens, dos Chagas. O asfalto cobre a rodagem antiga entre os dois municípios e, vindo de Carneiros, sai na AL-120, ao lado do conhecido “Fazendas Bar”, bem perto do acesso a Olivença. Uma grandiosa vitória sertaneja, sem nenhuma sombra de dúvidas. E, melhor ainda, Carneiros também será ligado por asfalto a Senador Rui Palmeira pelo mesmo roteiro. Santana, então ganhará outro município para seus inúmeros relacionamentos, uma vez que para ali chegar tem que ser através de grande arrodeio ou por estrada de terra. Alcançando ambos os municípios como se diz por aqui: por dentro, será novo porvir. Portanto, para ir a Carneiros e Senador, será apenas um pulo e pela mesma estrada.

Os produtos do campo chegarão rapidamente às cidades, aos povoados, mercados, feiras e mercadinhos como o leite, o queijo, os cereais e as hortaliças. Hospitais, escolas, bancos, todos receberão pessoas com mais rapidez, assim como o comércio e serviços em geral. E finalmente, lá onde o novo asfalto desemboca na AL-120, provavelmente triplicará os encontros domingueiros nos bares e restaurantes rurais, típicos e convidativos do Alto d’Ema, Barriguda, São Bartolomeu e Moita dos Nobres.

Haja cerveja gelada e galinha de capoeira, comadre!...

CARNEIROS (FOTO: carneiros.al.leg.br).

 

 

 

 

 

  SÃO JOÃO Clerisvaldo B. Chagas, 23 de junho de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.560   O melhor São João de Sant...

 

SÃO JOÃO

Clerisvaldo B. Chagas, 23 de junho de 2021

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.560

 

O melhor São João de Santana do Ipanema era na Rua Antônio Tavares. Desde à Cadeia Velha até encostar na Rua São Pedro era um corredor de fogo só. Seu Manezinho Chagas, sempre foi o primeiro da rua a tocar fogo na fogueira. O senhor José Urbano, o último a acender e deixá-la cerca de três dias fumaceando com um toco gigante. Dona Florzinha, sua esposa, entre outras coisas, fazia o quentão, bebida tradicional dos nosso ancestrais. À noite inteira na rua, bombas, chuvinhas, peido de véia, traques, peito de moça, diabinhos, rojões, busca-pés, foguetes e, de vez em quando, um balão cortava o espaço. Nós, os adolescentes, lançávamos, escondidos dos nossos pais, bombas de parede que explodiam na chapada de calçada alta da casa do então, padre Alberto Pereira, defronte a nossa.

A partir da meia-noite, ouvíamos estrondos terríveis; pareciam “bombas atômicas”, soltadas somente no leito seco do rio Ipanema, lá longe. No extremo da rua, imediações da casa da professora Adercina Limeira, mestre Eloy foi a grande atração da quadrilha, era ele quem gritava à dança. Após sua passagem, foi substituído pelo filho Walter, conhecido como Walter da Geladeira, devido seus consertos. Forrós de verdade não os conheci nessa rua. A véspera do São João era marcada por adivinhações, rosto d’água na bacia, faca na bananeira e ensaio para comadre e compadre de São João. Esfriada as cinzas das fogueiras, estas eram esfregadas nas pernas de crianças novas para andarem logo e reforço para a saúde das pernas de crianças já grandinhas e adolescentes. Bonito também e nostálgico era quando as fogueiras quase todas apagavam as chamas deixando apenas tufos de fumaça nos montículos de brasas.

O asfalto não suporta fogo e acabou a tradição da fogueira, juntamente com novas exigências ambientais. Quanto às quadrilhas juninas, o forró pé de serra, o coco-de-roda... Levaram uma carreira grande da COVID 19, este ano. Fazer o quê? Vamos ficar somente com a lembrança da voz poderosa de Gonzaga: “O fole roncou...”.

Melhor São João de faz de conta de que morte no São João.

Saudade...

Fui.

RUA ANTÕNIO TAVARES MODERNIZADA (B. CHAGAS/LIVRO 230).

 

  RIBEIRA DO PANEMA Clerisvaldo B. Chagas, 22 de junho de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.559   Hoje tem início ...

 

RIBEIRA DO PANEMA

Clerisvaldo B. Chagas, 22 de junho de 2021

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.559

 

Hoje tem início o inverno na região alagoana. Olho o tempo nublado e faço as minhas contas. Estamos dentro dos quarenta anos da publicação do meu primeiro livro e romance Ribeira do Panema. Não tínhamos gráfica e nem editora e o livro foi impresso pela Tipografia Nordeste, pertencente ao Senhor Cajueiro, à Rua Antônio Tavares. Dei o motivo da capa ao amigo radialista e desenhista Adeilson Dantas. Quanto à capa em si, não houve verniz, não houve brilho e, a tinta preta, representando a noite com a silhueta de um vaqueiro à luz da lua, teve alguma dificuldade com o tempo. A mesma tipografia imprimia após, o nosso conto: Carnaval do Lobisomem. A apresentação do romance ficou a cargo do escritor palmeirense, saudoso Luiz B. Torres. E o Carnaval do Lobisomem, teve a apresentação do meu diretor do Ginásio Santana Adelson Isaac de Miranda. A apresentação tem o nome de Ladainha e dizia:

Santana está fincada no Sertão. É amiga íntima do rio Ipanema. Rio das venetas. Manhoso. Tão manhoso quanto burro de cachaceiro. Nunca deixou, no entanto, ninguém morrer de sede. Isso não. Permite que lhes rasguem o estômago para sugarem o precioso líquido. Dar muita liberdade. Quem conheceu esse coiteiro do São Francisco, é testemunha. Nas suas imediações, urrava a onça-de-bode. Ainda hoje as rolas-brancas dormem nas suas margens.  A acauã continua chamando a seca na serra do Cruzeiro. Algumas velhas, de cachimbo nos beiços, ainda fazem renda e contemplam o seu corpo cinza. Ali perto, na Rua do Sebo, os meninos ainda brin- cam de pinhão e ximbra. As mesmas estórias do papa-figo são recontadas de avós a netos. Cancão de fogo e João Grilo ainda são heróis. Mesmo o famoso, adorado e assassino poço dos Homens, continua ali comendo gente. O Panema tem imã.  Chama o carreiro, o botador d’água, o tangerino, o almocreve, o vaqueiro, o retirante, o boiadeiro... Conquista a todos com sua água grossa. Mas, às vezes fazem raiva ao Panema. Ele se dana, empesta-se. Aí é quando se faz de macho. Bebe ódio em Pesqueira e se vinga das afrontas. Negro come o diabo! Panema dá cabeçadas, rabos-de arraia, soquetes, leva tudo no peito. Na raça. Baraúnas são arrancadas, cercas são destruídas, casebres são diluídos. E o rio velho de guerra, arrotando valentia, tórax estufado, convida os riachos para o seu cordão. Só depois de saciada a vingança volta ao normal. Peito lavado. Começa a minguar. Fica manso de novo. Entrega o pescoço à canga.

Quem vê “a lua se banhando nas águas sujas do Poço dos Homens”, começa a recordar... Recordar... Também nasci na Rua do Sebo. Também sei contar histórias do meu povo. Por favor, cruze as pernas nessa esteira-de-caboclo.   O Autor.

PRIMEIRO LIVRO E ROMANCE (AUTOR)