ALTO DOS NEGROS Clerisvaldo B. Chagas, 24 de junho de 2026 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3.435   Benditos são os ...

 

ALTO DOS NEGROS

Clerisvaldo B. Chagas, 24 de junho de 2026

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.435



 

Benditos são os lugares denominados pelo povo. Eles são autênticos, feios ou bonitos mais refletem as verdadeiras origens.  Os gestores políticos, as câmaras municipais, vão varrendo os nomes  de tradição e inventam nomes de pessoas cujas famílias possam lhes dar votos. Alguns casos podem não ser assim, mas no geral os sãos. E foi pelo povo que surgiu o termo naquela colina do antigo Bairro Floresta, de ALTO DOS NEGROS. A princípio, eram três ou quatro casinhas de taipa, à beira da estrada  em chão de barro vermelho. Não era uma aldeia quilombola, mas os poucos habitantes daquelas casinhas talvez tenham vindo do núcleo quilombola de Tapera do Jorge, na margem do Ipanema, povoado de Poço das Trincheiras. Era algumas mulheres e o preto Zacarias, carregador de malas, em Santana do Ipanema.

Não havia oficialmente a profissão de carregador de malas, mas era uma atividade bem exercida por algumas pessoas de Santana. No século passado, como havia muitos caixeiros-viajantes. Permanecia a atividade. Consistia em o  carregador de malas, levar as malas dos caixeiros dos hotéis onde estes se hospedavam até à loja e depois das vendas, levarem as malas de coro fornido de volta ao hotel. E Zacarias, calado e muito esperto farejava de longe a chegada de caixeiro-viajante. Dizia que era o carregador número 1, bem interessado numa boa gorjeta conforme a generosidade de cada viajante. Pois, aquele pedaço de chão com algumas mulheres e poucos homens, no comando de Zacarias, foi resgatado por nós no livro em parceria NEGROS EM SANTANA  e que, por sinal, virou TCC em curso de Geo-História.

O lugar nunca deixou de ser chamado ALTO DOS NEGROS, embora já tenha evoluído no seu formato. Fica um pouco abaixo do Hospital Regional Dr. Clodolfo Rodrigues, no alto da colina. E assim como o lugar Alto dos Negros, muitos outros lugares de Santana do Ipanema, foram resgatados por nós e que hoje, inúmeros deles, só se conhece a sua existência por causa da única fonte: os nossos resgates. Tirando a distância ao Centro da cidade e algumas malandragens que pululam nas periferias, o lugar é bom para se viver  e possui paisagens privilegiadas  em todas as direções. Ali tem hospital, tem faculdades e tem futuro. Sempre que passo por ali, procuro as casinhas que deram nome ao lugar.

ALTO DOS NEGROS (FOTO: B. CHAGAS).

  EL NIÑO Clerisvaldo B. Chagas, 23 de junho de 2026 Escrito Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3434   Começou oficialmente o inv...

 

EL NIÑO

Clerisvaldo B. Chagas, 23 de junho de 2026

Escrito Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3434

 



Começou oficialmente o inverno em nosso hemisfério, dia 21 (domingo).  E o inverno do povo alagoano que tem início em maio, vem naquele ritmo de caminhada constante  e não ligeira. Nenhuma mudança ainda notada  na metodologia do tempo. Sol e chuvas finas, mansas e curtas se intercalando e a friezinha que aperta no mês de Julho. O ritmo do tempo é semelhante ao do ano passado. intercalado e rico para plantas e animais. O mundo sertanejo está verde que só asa de papagaio, embora o preço do milho ainda esteja na casa do absurdo. Mas que dá gosto, dá, ao se vê os montes de milho verde, cheirando  no chão da feiras ou por cima dos gradeados das bancas de madeira. E vem milho de lugares comuns, chegam ,bolosmilho da irrigação.

As guloseimas típicas do meio do ano, já assanham o apetite dos feirantes nas feiras camponesas e nas feires livres semanais. Não temos centrais de abastecimento, os caminhões lotados de mercadorias vão chegando pelas cabeças das feiras onde os costumeiros feirantes negociam para revender. A economia do milho no Nordeste é uma coisa fantástica  onde milhões e milhões de reais percorrem rapidamente  campos, cidades, capitais. E se El Niño vai fazer estragos nos sertões, pelo menos até agora deve ter passado ao largo. E o tempo intercalado vai permitindo se andar pelas farturas das roças e pela esperança, mesmo remota, de que o Brasil faça alguma coisa, porque o tempo bom tem que ser bom em tudo. São João com canjicas, pamonha, bolos, bebidas e gols.

Entretanto, ficamos na dúvida da nossa produção de milho e de feijão. Nem sabemos ainda sobre a nossa maior obra hídrica porque o pouco que se divulga é de forma esporádico e não sabemos como está de fato funcionando o Canal do Sertão. Tanto é, que quando se dizia por aqui que os amontoados de milho que chegavam eram da irrigação, mas da irrigação que se entendia ser do estado de Sergipe, irrigação de Canindé. E quando se fala agora que o milho vem da irrigação, deixa-se a dúvida no meio. Irrigação de onde? De Pernambuco (Petrolina), do Canindé ou de Alagoas, do Canal do Sertão? Deixe isso para lá...

O que importa é milho assado e forró até uma horas...

  AS DUAS PORTAS Clerisvaldo B. Chagas, 22 de junho de 2026. Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3433   Ambas as coisa me...

 

AS DUAS PORTAS

Clerisvaldo B. Chagas, 22 de junho de 2026.

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3433

 



Ambas as coisa me chamavam atenção e eu não cansava de apreciar quando passava pelas duas farmácias. O busto do negro forte envergando uma barra de ferro, propagando do Fhimatosan ou do Biotônico Fontoura – nisso não tenho certeza – no centro   da farmácia do Seu Carola (^) no  antigo prédio do “meio da rua”. Outra, era a figura da porta larga e da porta estreita acima do balcão da primeira prateleira, exposta para os clientes, na Farmácia “Vera Cruz”, do senhor Alberto Nepomuceno Agra. Estava escrito: “Entrai pela porta estreita, pois a porta larga é a porta da perdição”. E como acabo de ler trecho aleatório do “Evangelho segundo o Espiritismo”, não pude deixar de lembrar esse período de adolescência. Confirmo no Evangelho o que estava escrito na farmácia Vera Cruz:

Larga é a porta de perdição, porque são numerosas as paixões más e porque o maior número envereda pelo caminho do mal. É estreita a da salvação, porque  é obrigado o homem que a queira a transpor, para vencer suas más tendências, coisa a que pouco se resignam. É o complemento da máxima: “ Muitos são chamados os chamados e poucos os escolhidos.

Tal o estado da humanidade terrena, a, porque, sendo a Terra mundo de expiação, nela predomina o mal. Quando se achar transformada, a estrada do bem será mais frequentada. Aquelas palavras, devem, pois, entender-se em sentido relativo e não em sentido absoluto. Se houvesse que ser este o estado normal da humanidade, teria Deus condenado à perdição a imensa maioria das criaturas, suposição inadmissível, desde que se reconheça que Deus é todo justiça e bondade.

Mas, de que delito esta humanidade se houvera feito culpada para merecer tão triste sorte, no presente e no futuro, se toda ela se achasse degredada na Terra e se a alma não tivesse tido outras existências? Por que tantos entraves postos diante  dos seus passos? Por que essa porta tão estreita que só a muito poucos é dada transpor, se a sorte da alma é determinada para sempre, logo após a morte? Assim é que, com a unicidade da existência o homem está sempre em contradição consigo mesmo e com a justiça de Deus. Com a anterioridade da alma e a pluralidade dos mundos, o horizonte se alarga, faz-se lua sobre os pontos mais obscuros da fé; o presente e o futuro tornam-se solidários com o passado e só então se pode  compreender toda a profundeza, toda a verdade e toda a sabedoria das máximas do Cristo.

Págs. 290-291.