O JUIZ E O MARMELEIRO Clerisvaldo B. Chagas, 6 de agosto de 2026 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica : 3456   O Dr. João...

 

O JUIZ E O MARMELEIRO

Clerisvaldo B. Chagas, 6 de agosto de 2026

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3456

 



O Dr. João Yoyô, comerciante com loja de tecidos, em  Santana do Ipanema, chegou a ser juiz já em idade avançada. Era homem de bem, foi um dos fundadores da Escola Cenecista Ginásio Santana, tinha a fala mansa, era muito alto e corrigia aos que se dirigiam a ele, sem o “Doutor” à frente. Foi também diretor do Ginásio e atuou como advogado. Era casado com a professora Leopoldina e gostava de   pedir cigarro, motivo de algumas brincadeiras. Família originária do antigo Capim (Olivença, depois), Certa feita, como advogado defendia um réu que matara sua vítima com uma pisa. O debate forense ainda era no chamado “sobrado do meio da rua”. Primeiro andar,  escadaria de madeira e pouco espaço para os espectadores.

 O marmeleiro da caatinga é um arbusto que dizem que pode atingir até 4 metros de altura. Só o conheci até, no máximo 3.  Seus galhos são muito usados como cipós para tanger animais, fazer vara de pesca e uma série de coisas simples no Sertão. Dizem que melhora as pastagens, bovinos e caprinos comem suas folhas e fornece bom material para as abelhas. (Croton sonderianus e Croton blanchtianus) proliferam com ótima desenvoltura no semiárido. Pois bem, na sua vez de falar, o doutor João Yoyô, lá para as tantas, dissera que o réu não matara a vítima de uma pisa. Dera  apenas algumas poucas cipoadas com cipó de catingueira, também planta nativa do Sertão. Estávamos de pé, imprensado pelo povo assistindo o embate.

Estava  ao meu lado, o contínuo do Banco do Brasil, João Farias que ao ouvir o advogado dizer que o réu usara para bater na vítima apenas um “simples cipozinho de catingueira”, falou para os vizinho com ironia: “Já viu catingueira com cipó, seu fio da peste! Todos nós rimos. Carreguei por muito tempo essa dúvida. O doutor João era homem de origem rural, mas, talvez movido pela emoção foi buscar um cipó na árvore que não produz cipó. Só depois cheguei a conclusão de  que o doutor trocou o nome catingueira por marmeleiro. Um lapso grande para quem entendia de caatinga, porém, não temos lembrança do veredito. Entretanto,  a distância da morte de um homem fora medida entre um cipó de marmeleiro e um robusto galho de catingueira.    

  BICAS Clerisvaldo B. Chagas, 5 de agosto de 2026 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3455   Em tempo de inverno, ainda ...

 

BICAS

Clerisvaldo B. Chagas, 5 de agosto de 2026

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3455



 

Em tempo de inverno, ainda hoje, onde tiver casas cobertas com telhas, fala-se e se precisa de bicas. Mas, o que é bica na linguagem sertaneja se não estamos falando do verbo Bicar?  Bem, bica é uma calha artificial , geralmente confeccionada em zinco, para direcionar as águas da chuva  no telhado, para algum lugar previsto.  A bica, também é chamada de biqueira. E para se fazer bicas bem-feitas era preciso um bom artesão. Na segunda metade do século XX, em Santana do Ipanema, havia artesãos para tudo.  E na Rua mais antiga de Santana, a Antônio Tavares, entre diversos artesãos, havia dois fabricante de bicas, um apelidado Zé  Gancho, outro Manezinho Quiliu. E quem fazia bica poderia também fazer vaso vertical de guardar feijão.

Havia também um excelente artesão, no, hoje, Bairro Santa Quitéria, cujo trabalho era muito elogiado pelo seus clientes. E, na Rua Santa Sofia, também havia um artesão de bicas. Na Rua Antônio Tavares ainda havia uma exímia artesão que era avó do futuro escritor Oscar Silva, porém, sua especialidade era confeccionar candeeiro de flandre, de lata, e por isso mesmo chamada pelo povo de Josefina Flandreleira. Visto isso batemos mais uma vez sobre a primeira travessa da Rua Antônio Tavares, mais chamada de “Beco”. O Beco liga  a Rua Nova à Rua Antônio Tavares uma ladeira de mais ou menos 200 metros de extensão. Santana está completamente asfaltada, porém, o Beco ainda é calçado com pedras brutas dos tempos de vila. O mato prolifera nas juntas do início ao fim da travessa.

As casas ocupadas de antes, parecem abandonadas, faltando pouco para virarem ruínas. Tudo a apenas 100 metros do Centro Comercial. Nossa  sugestão é que a prefeitura asfalte o beco e, em acordo, transforme e decadência em salões que seriam ocupados pelos diversos artesãos da terra. Artesãos dos couros, do pano, da madeira, de ferro... facilitando a vida desses profissionais, criando o Beco ou Travessa dos Artesãos e fomentando o turismo regional. Ou isso ou daqui a pouco, ruínas e beco assombrado cheio de fantasmas, marginais e perigos real.

SELEIRO (GETTY).

 

 

 

  VELAME Clerisvaldo B. Chagas, 4 de agosto de 2026 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3454   Durante décadas, andamos n...

 

VELAME

Clerisvaldo B. Chagas, 4 de agosto de 2026

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3454



 

Durante décadas, andamos na caatinga, caçando, passeando, visitando, pesquisando, descobrindo.  Mas havia uma coisa que sempre nos chamava atenção, principalmente quando caíam as primeiras chuvas: O perfume educado e gostoso que tomava conta de toda a vegetação. Foi preciso décadas para entender que havia um carro chefe daquela gostosura toda. Posso até não está certo, mas cheguei à conclusão de que o grosso da imensa perfumaria do mato era proveniente de uma arbusto de folhas sedosas, pequenas e de aspectos desbotados;  o velame que sempre está presente ladeando trilhas  acompanhando riachos, rodeando lajeiros. Mesmo assim é um tipo de mato discreto e só chama atenção para quem o conhece.

O velame é popularmente conhecido por suas propriedades medicinais, sendo utilizado na dor de estômago, mal estar gástrico, vômitosdiarréia com sangue e para baixar a febre. Além das propriedades farmacológicas, seu óleo essencial apresenta atividade larvicida contra Aedes aegypti, antibacteriana e cicatrizante. O seu inebriante perfume é muito usado pelas abelhas  da caatinga atraídas por eles e produzem um mel gostoso, aromático e delicado. No verão, o velame fica um pouco emurchecido e de aspecto feio. No inverno, enche muito, fica encorpado, viçoso e mais atraente. Uma antiga diretora de escola me dizia que o seus pai, mandava todos os dias que ela arranjasse os “olhos” dessa planta para fazer chá para afinar o sangue.

Em referência ao poderoso arbusto, existem lugares que levam o seu nome. Inúmeras vezes passei beirando a “Fazenda Velame”, de senhor de muitas terras, em Poço das Trincheiras. Ali estava honageado o vegetal que bem sabe como perfumar o Sertão. Mas, aquela planta nativa de folhas desbotadas, aveludadas e pilosas, não proliferam somente nas ricas propriedades rurais. Surge nas terras do ricos, nas terras dos remediados, nas terras do pobres. Estar à disposição de todos para servir, assim como o homem de boa vontade. Assim, o arbusto VELAME, feio no verão, bonito no inverno, é médico e amigo no Sertão.

VELAME (AUTOR NÃO IDENTIFICADO).

 

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