domingo, 14 de abril de 2024

 

O PEIXÃO

Clerisvaldo B. Chagas, 15 de abril de 2024

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.034

 



Não, não é uma mulher boa. Trata-se de um peixão verdadeiro capturado por pescadores santanenses. Isso Aconteceu no riacho periódico, afluente do rio Ipanema, João Gomes.  Desconhecido fora do território da “Rainha do Sertão”, o riacho João Gomes, ganhou recentemente uma barragem, no trecho alto João Gomes, cujas pessoas  denominarem a barragem ou açude de REPRESA, talvez porque o nome repercute com mais ênfase nos ouvidos alagoanos. Não se podem negar os benefícios da Represa para o meio ambiente, para a agropecuária local, para os gastos domésticos e também para os pescadores da área que estão se juntando para uma associação.

Além disso, o benefício da ponte é inconteste tanto para zona rural quanto para a sede do município, inclusive, para a cidade de Senador Rui Palmeira, que também tem trânsito de atalho por ali na grande região rural de Olho d’Água do Amaro.

Voltando, porém ao peixão, os pescadores capturaram, fotografaram e publicaram a foto de um Pirarucu da Represa do riacho João Gomes. A espécie originária do rio Amazonas pesou 50 quilos, segundo os pescadores e tinha em torno de dois metros de comprimento. Foi manchete nos sites de Santana e em outros do estado. O Pirarucu é o maior peixe de água doce do Brasil, mas que terá colocado um simples filhote em águas nordestinas tão longínquas do seu habitat? Não sabemos. Mas a prova de que tendo os cuidados técnicos guiados pelos especialistas, podem resultar num povoamento profícuo para qualquer espécie aquática que se queira produzir nas águas sertanejas da Represa santanense.

Para se chegar a Represa, sando da cidade de Santana do Ipanema, o caminho é pelo Bairro Domingos Acácio, Bairro antigo Floresta cruzando toda a extensão da Rua Joel Marque e entrando para a direita no final da rua. Segue pelas fraldas da serra Aguda até encontrar o que procura. Assim foi lembrado na história o riacho da infância do saudoso escritor Oscar Silva, que dizia que “o riacho estava esquecido de todos os geógrafos do Brasil”.

Os banhistas que se cuidem para não baterem de frente com o pai do Pirarucu nas águas da Represa.

 


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quarta-feira, 10 de abril de 2024

 

MERCÚRIO OU MINERVA?

Clerisvaldo B. Chagas, 10 de abril de 2024

Escritor símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.033

 



No tempo em que tudo de luxo e cultura vinha da França, para Santana do Ipanema, por aqui chegou uma escultura com destino ao frontispício da residência do Coronel Manoel Rodrigues da Rocha. Lendo os escritores antigos, um deles (não dá mais lembrar quem com exatidão) tudo indica que foi Tadeu Rocha, filho do coronel acima, amante da geografia e emérito pesquisador, falava da citada escultura vinda da França, que era a estátua do deus Mercúrio. A esse deus mitológico também era atribuída à proteção ao comércio. Inúmeras vezes falamos aqui dessa escultura que ainda hoje permanece no mesmo lugar de quando veio da França no tempo de Santana vila.

Residência/comércio passando de donos, a estátua ornou a biblioteca Pública de Santana e Loja de tecidos de Benedito V. Nepomuceno. Continua ali como uma das maiores relíquias de Santana do Ipanema com grande possibilidade de levar sumiço como tantas outras ao longo da nossa história. Mas agora, jovens pesquisadores da terra descobriram, segundo eles, que na verdade, a estátua não é do deus Mercúrio e sim da deusa Minerva. Sai o macho e entra a fêmea. E agora Zé? Se for verdade, como justificar os escritos de quem viveu de perto o movimento histórico e cultural da época? Em que momento da história houve o escorrego que “perpetuou” o deus Mercúrio até o nossos dias?

A musa Minerva tão evocada pelos poetas cordelistas, devido a esses movimentos atuais de valorização da mulher, talvez tenha feito descobrir-se a feminilidade da estátua francesa. pelo menos esculpida e vendida na França. Mas como tudo sério tem o toque de humor do brasileiro, a estátua do jumento de Santana do Ipanema que não veio da França e sim de Pão de Açúcar está com as orelhas de molho. A qualquer momento surge um pesquisador moderno para examinar de perto se a estátua é de fato a de um jumento inteiro, capado ou de uma jumenta empoderada.

É Camonge morrendo, Camonge aprendendo, diz o povo do Sertão.

JUMENTO OU JUMENTA NO RIO IPANEMA SECO (FOTO B. CHAGAS);


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quinta-feira, 4 de abril de 2024

 

O SALÃO DO POVO – HISTÓRIA PURA

Clerisvaldo B. Chagas, 5 de abril de 2024

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.031



 

Estava ali o casarão de esquina com a Igreja Matriz de Senhora Santana (motivo da capa do livro O BOI, A BOTA E A BATINA; HSTÓRIA COMPLETA DE SANTANA DO IPANEMA). Pertencera o casarão, ao coletor federal, maestro da primeira banda de música da vila de Santana e fundador do primeiro teatro, Manoel Queirós, simplesmente “Seu Queirós”.  Mas na minha infância, estava sendo habitado por uma das suas filhas, Antéa. Dona Antéa, florista, zeladora da igreja, solteira, intelectual, branca e alta, cedeu parte do seu quintal ajardinado repleto de jasmins, à Paróquia, para que o padre Luís Cirilo Silva, construísse o Salão Paroquial. Também deixou que mais tarde, o seu casarão se transformasse em Museu pela prefeitura do município, onde ela própria tomava conta, com muito amor, educação e competência.

Foi um grande feito para a época de dificuldades, a construção do citado edifício. O Salão Paroquial, imponente, bem feito, fazia jus às grandes construções da vizinhança da Igreja Matriz. Além de aliviar os serviços eclesiásticos cotidianos, o Salão muito serviu à sociedade santanense. Era cedido para eventos de reuniões diversas, recepção à autoridades, cantoria de viola... Sem nenhuma cobrança monetária. apenas para servir. Como a frente ficou alta com acesso de degraus, o padre construiu na parte inferior da varanda da frente, uma gruta dedicada a Nossa Senhora. Possuía um gradeado e um recipiente para se colocar donativos, passando o braço por entre as grades.

A frente do edifício com sua varanda oferecia uma paisagem privilegiada de parte ampla do Comércio com praça principal, cinema, começo e fim da Rua Barão do Rio Branco, que se iniciava ao seu lado e se prolongava até o rio Ipanema.  Uma paisagem altamente atrativa para visitantes, embora Santana do Ipanema não constasse no mapa turístico do estado, assim como nos dias atuais.

O zelador da Igreja, negro velho de cerca de oitenta anos, originário do povoado Tapera do Jorge (Poço das Trincheiras) denominado “Major”, guardava no salão as charolas após as procissões de Semana Santa.

Preito de saudade a dona Antéa e ao padre Luís Cirilo Silva.

AUTOR EM LANÇAMENTO NO RESTAURANTE SANTO SUSHI


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terça-feira, 2 de abril de 2024

 

A TARDE É QUENTE

Clerisvaldo B. Chagas, 3 de abril de 2024

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3030



 

Os trovões passaram hoje à tardinha por Santana do Ipanema.  Negócio invocado. Às três e meia eu havia tirado uma foto do céu muito bonito: fundo azul e mancha branca soberba, completando o desenho Divino. Acabara de sair do Posto de Saúde São José, onde fora tomar vacina contra a Influenza. Mas ao chegar a casa, o céu transmudou-se para desmentir a foto (abaixo). Formaram-se, então, nuvens de chuvas escuras, mas não tão escuras assim. E eu, naquele velho costume sertanejo de interpretar os céus: afirmei que ela não viria para a cidade e, se viesse seria para trazer apenas um sereno. Sim, o tempo escureceu, o calor se acentuou, o vento foi modesto e os trovões ensaiaram seus arroubos. Desliguei tomadas, fiquei sem Internet, mas não passou disse, como eu previra.

Um sereno mesmo, apenas.  A água foi despejar em lugar mais distante, enquanto os trovões ameaçavam como quem dizia: “Não foi agora, mas logo voltaremos”. E cadê a Internet querer retornar! Melhor mexer nos meus romances inéditos do “Ciclo do Cangaço” e deixá-los no ponto de publicação quando chegar a hora. E novamente fui consultar o calendário que nos mostra ainda no início do outono. E de fato, pode começar o período chuvoso tradicional que para nós é de outono/inverno. Assim a fotografia de estio não saiu por mentirosa. E agora, minhas amigas e amigos, vamos  vivendo esses tempos esquisitos que começaram com a epidemia e não mais ousam retornar ao que era. E para que aguardar a gripe que já matou milhões por esse mundo velho de meu Deus!

Mostrei a marco do braço da vacina da infância na época do Grupo Escolar Padre Francisco Correia. A mesmo vacina contra a gripe espanhola que na época era aplicada com bico de pena de escrever arranhando a pele, deixando a marca para contarmos a história cerca de setenta anos depois. Continuamos, desde os tempos do grupo, acreditando na Ciência, na inteligência humana e usufruindo da evolução científica. Uma vacina de pena de escrever, de pistola, de agulha... E brevemente não invasiva. Mas a expiação na terra não terminará tão cedo.

Só resta ver o tempo e acreditar.

ANTES DOS TROVÕES (FOTO: B. CHAGAS).

 


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domingo, 31 de março de 2024

 

O BOI NA UNEAL

Clerisvaldo B. Chagas, 1 de abril de 2024

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3. 029

 



 Após sucessos de lançamentos do livro “O Boi, A Bota e a Batina; História Completa de Santana do Ipanema”, o BOI será lançado também na Universidade Alagoana, no Campus da UNEAL, em Santana do Ipanema. Sob a égide do confrade e professor Carlindo Lira – que também esteve no lançamento no Restaurante Sushi – o BOI promete berrar com fartura para os acadêmicos que querem mergulhar na história completa da “Rainha do Sertão” e consequentemente na história de todo o semiárido alagoano.  Santana do Ipanema é a mãe de oito municípios que a ela pertenciam. Portanto, a curiosidade acadêmica é fundamental para debates, pesquisas e surgimento de novas janelas enriquecedoras do nosso acervo santanense e sertanejo.

Recebemos inúmeras felicitações pela qualidade da Obra trazida a lume à sociedade nordestina e brasileira. Agradecemos as diversas manifestações de carinho do povo alagoano e de outros estados para onde o BOI foi exportado, tendo como exemplo, Paraíba e Rio Grande do Norte. Pena que algumas pessoas do grupo fechado dos 100, tenham se distraído e faltado ao compromisso assumido com o grupo e com a gráfica. Mas o Boi, a Bota e a Batina, com os poucos livros que restam, procuram sair de águas escassas para águas mais profundas. Assim, no próximo dia 17 de abril, se assim o bom Deus nos permitir, estaremos no Bairro Lagoa do Junco, onde se encontra o majestoso edifício da UNEAL à margem da BR-316, saída para Maceió.

Aliás, o Bairro Lagoa do Junco que abriga inúmeras repartições públicas importantes, é descrito no livro acima sobre seu surgimento e expansão. Cada página da História de Santana é uma novidade, uma surpresa, mina de diamantes para os amigos do conhecimento e da cultura geral. Desde quando o rei de Portugal proibiu a criação de bovinos na zona da Mata canavieira, que o boi vagueia pelos sertões nordestinos e que nós continuamos a agradecer a Providência divina em virarmos todos vaqueiros diretos ou indiretos desse animal sagrado que tanto impulsionou a nossa Economia.

Boi Bumbá, Boi Mamão, Bumba Meu Boi...  BOI NA UNEAL.

Viva o novo lançamento do Boi, a Bota e a Batina...

LANÇAMENTO NO RESTAURANTE SUSHI.


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terça-feira, 26 de março de 2024

 

A GALINHA E O OVO

Clerisvaldo B. Chagas, 26 de março de 2024

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.028

 



Já se foi o tempo em que o criatório de aves nos terreiros de sítios e fazendas saltava aos olhos. Galinhas, pintos, galos, pavões, perus, frangos, guinés, patos e até marrecas obstruíam o caminho dos passantes. Eram as chamadas galinhas de capoeira. Um misto de inúmeras espécies, que ornamentavam a zona rural. Após esse desaparecimento, o vazio e, depois do vazio uma nova tentativa de criar galinha para produção de ovos em quantidade no Sertão e Agreste de Alagoas. Não é fácil transformar qualquer região sertaneja alagoana num São Bento do Una e imediações, onde as granjas estão consolidadas.

Mas já aparecem na região, ovos de galinhas caipiras vindo de cooperativas de Santana do Ipanema, Olivença e de formação em São José da Tapera, além de ovos de granja (o branco) do povoado Laranjal de Arapiraca. Esses ovos vêm em embalagens belas, modernas e higiênicas que parecem que estão desbancando os ovos que chegam de Pernambuco com suas embalagens de papelão rude e anti-higiênicas. Que bom que está sendo diversificada a economia regional no império do boi. Pelo visto o homem sertanejo alagoano também quer criar o Poder Granjeiro como o do estado vizinho. É preciso muita persistência, assistência técnica, capital e muita tecnologia de ponta. Será que conseguiremos?

A galinha branca de granja, todos conhecem. A galinha de capoeira é aquela de qualquer raça criada nos quintais e nos terreiros de sítios e fazendas. Possui ovo branco igual ao da galinha de granja. E a galinha caipira é aquela marrom, cujo ovo também é marrom claro ou escuro. Mas o miolo do assunto é mesmo a Economia. Já pensou em várias granjas no seu município, produzindo 30.000 ovos/dia, vendendo e exportando através de cooperativas? Quanto dinheiro não entra! Quanto em dinheiro circula... E o número de empregos nas granjas e na cadeia produtiva?  Pois chegou a hora de tornar o Sertão independente de ovos, um dos alimentos mais ricos do mundo.

Viva as cooperativas que representam a força de vontade do produtor guerreiro do sertão. Vamos dar preferência aos nossos produtos. Viva a galinha e viva o ovo!!!

GALINHAS CAPIRAS

 


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domingo, 24 de março de 2024

 

O CANGACEIRO MOCIDADE

Clerisvaldo B. Chagas, 25 de março de 2024

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3. 027

 



Para quem gosta dessas ladainhas de cangaceiros, cumpre-me trazer a lume um cabra dos anônimos do bando de Virgolino Ferreira, o Lampião. Neste espaço, tenho me referido ao Filemon, homem do povo, simples, educado e muito calmo, devagar. Não sabemos se era de Santana ou chegara a Santana. Quando conheci o casal, Filemon e Júlia foi em torno dos anos 60. Ela possuía banca na feira, onde vendia comida caseira. Muita desbocada, dona Júlia. Ele, Filemon, era alto, escuro igual à mulher e poderia ser localizado na casa dos 60 anos de idade ou mais.  Sobre sua atividade, só conhecemos o ato de fazer saborosas comidas para festas, para clubes, sendo mestre na feijoada, no abate e preparo de cágados (jabutis), muito apreciados na época.

Ele nos contava: era padeiro em vila Mariana, Pernambuco. Certa feita, Lampião passou por ali com o bando, convido-o.  Convite aceito partiu com o bandido sertão afora. Recebeu todos os equipamentos de guerra e passou a ser conhecido por  MOCIDADE. Passou a cozinhar para o bando e participou do sequestro de coronel famoso em Águas Belas. Explicou por que Lampião não matou o coronel e toda a sua explicação coincide com livros que falam do assunto. Seis meses do seu ingresso no bando, fugiu, afirmando a si próprio que não nascera para aquela vida. Por ser calmo e paciente, servia às vezes de chacota para o amigo Zé Chagas, homem piadista nato, em Santana do Ipanema. A vida do primo Zé Chagas, daria um livro completo, por sinal, rimos muito no lançamento do livro em Maceió, lembrando suas brincadeiras inusitadas. Fo ali que descobri o nome do CANGACEIRO, através de outro primo, Zé Ormindo.

Pois, estão aí agora, os dois únicos cangaceiros santanenses que se tem notícia. Gato Bravo e Mocidade. Com estilos completamente diferentes, possuem a coincidência de fuga de cangaço. Entretanto, a nossa cidade nunca alimentou histórias de  cangaceiros. Sempre foi um limbo total na tradição do município desde a grande festa de cabeças de 1938. O nome descoberto e apresentado à sociedade e aos estudiosos foi apenas um desencargo da consciência de quem teve acesso.

Estamos indo, fui.

CAPA DE LIVRO (FOTO: B. CHAGAS).


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quinta-feira, 21 de março de 2024

 

AFOGADOS

Clerisvaldo B. Chagas,  21 de março de 2024

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3. 025

 



Pequei uma quadra e fui  a uma tardinha conhecer a barragem do riacho João Gomes.  O riacho é um afluente do rio Ipanema e contorna Santana pela margem direita numa distância entre dois e três quilômetros. As nascentes do riacho, duas, estão situadas no município de Carneiros, imediações do sítio Serrote da Furna. O seu nome tudo indica, deriva da planta denominada beldroega, também antigamente chamada João Gomes. As águas ficaram represadas no Alto Riacho que conta também com uma bela ponte asfaltada e toda a estrutura para um balneário.  O Médio Riacho, muito abaixo da represa, corta a AL-120 e desce para o Baixo Riacho em busca da sua foz no sítio Barra do Panema. Era nessas imediações do Baixo João Gomes, que morava a família PIO, lugar de origem do grande escritor Oscar Silva. (“Água do Panema”, romance, “Fruta de Palma”, crônicas e outros mais).

Parece-me que já houve na Represa um afogamento, lembrando a mais famosa fonte de lazer de Santana, o Poço dos Homens.  Contamos desde a nossa infância até o abandono do poço em 1969, cerca de 20 afogamentos, citados pelos mais velhos e os da nossa geração. Entre os afogados, o mais falado era de um cidadão apelidado “Tinteiro”, que se não nos enganam, morava nas imediações do poço. Falava-se muito também de tal Zé Belebebeu ou Jabobeu, que teria sido o primeiro afogado e que de vez em quando puxava na perna de um bahista para o mesmo destino.

Mas voltando ao riacho João Gomes, o espelho d’água da Represa, visto de pontos mais elevados, estende-se riacho acima por vários sítios, beneficiando tanto a montante quanto a jusante os inúmeros deles que ficam diretamente às margens ou nas suas imediações. Além do banho domingueiro dos seus frequentadores, o pôr-do-sol é uma atração à parte que permite concorrência entre fotógrafos amadores e profissionais. Isso reduziu muito as viagens de santanenses em busca do rio São Francisco em fins de semana, tanto em Pão de Açúcar quanto em Piranhas.

Vamos ao banho!

ENTARDECER NA REPRESA (FOTO: BIANCA CHAGAS)

 

 


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sexta-feira, 15 de março de 2024

 

A EXUBERANTE FESTA DO BOI

Clerisvaldo B. Chagas, 15 de março de 2023

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3024



 

 Êxito retumbante do lançamento do livro “O Boi, a Bota e a Batina, História Completa de Santana do Ipanema”, em Maceió.  A Estaiada Choperia e Drinkeria, do meu sobrinho Felipe, ficou lotada de tantos santanenses e de pessoas dos mais diversos lugares. Pareceu mesmo uma festa de confraria, sem rigidez de formalidades. O riso frouxo no salão; a presença de quatro escritores, dois de Maceió, um de Santana e outro da região de Olho d’Água das Flores/Santana; vários ex-alunos do Ginásio e do Colégio Estadual Mileno Ferreira; amigos de longas datas; familiares e pessoas do grupo dos 100 e outros de fora atraídos pela noite de Cultura, abrilhantaram a festa numa verdadeira apoteose.  

 Foi muita alegria, muito carinho e rasgados elogios, inclusive do próprio mestre-de-cerimônia, ex-aluno, intelectualizado, inspirador e aniversariante do dia. A oração oficial foi assegurada com o mestre Antônio Sobrinho (Tonho Cupim), ex-funcionário do Banco do Brasil, orador maçônico arrebatador e que muito ajudou no evento colocando a cereja no bolo. A noitada do intelecto, permitiu um êxito de venda extraordinário, com rendimento de histórias individuais narradas  que se formaram em  grupos, após, permitindo novo material para outros livros no porvir. E no meio da conversa que vem, da conversa que vai, acabei descobrindo o nome de guerra do ex-cangaceiro Filemon, coisa muito pesquisada e já considerada perdida.

Agora vamos para a segunda etapa de lançamento que será realizado no miolo de Santana do Ipanema, no Restaurante do outro Sobrinho, Cleber, no “Santo Sushi”, Bairro Domingos Acácio. “O Boi, a Bota e a Batina”, que tem início no Brasil Colônia, segue rigorosamente  por ordem  cronológica de todas as fases políticas e históricas brasileiras até desaguar no ano de 2006, quando foram encerrados esses trabalhos, com 436 páginas e mais de 360 ilustrações.

Amigo, amiga, você se comprometeu com o grupo. Pode esquecer de comparecer, mas não esqueça do compromisso do PIX. A gráfica é um contrato coletivo.

 


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quarta-feira, 6 de março de 2024

 

DIÁRIO ALAGOAS

Fernando Valões

Jornalista e sociólogo

                      05.03.2023

 



O ilustre escritor e acadêmico Clerisvaldo B. Chagas está prestes a honrar o cenário literário com o lançamento da sua mais recente obra na capital alagoana, Maceió, bem como na cidade de Santana do Ipanema. Este evento marca uma ocasião de significativa importância cultural e intelectual, notadamente após uma dedicação de 18 anos de concepção da obra.

A revelação oficial de “O Boi, a Bota e a Batina, História Completa de Santana do Ipanema” está agendada para ocorrer em primeiro momento na Estaiada Choperia e Drinkeria localizada na região de Jatíúca, Maceió no dia 13 de março. Subsequentemente o lançamento será replicado em Santana do Ipanema, especificamente no Restaurante Santo Sushi situado no Bairro Domingos Acácio, no dia 20 de março. Este livro, fervorosamente aguardado por entusiastas da história regional em todo o sertão de Alagoas, promete ser uma contribuição inestimável ao patrimônio cultural e historiográfico da região.

A fim de assegurar a inclusividade e a ampla disseminação desta obra seminal, a organização do evento providenciará em sistema de distribuição de convites e a possibilidade de transições via PIX, destinados inicialmente a um grupo seleto de 100 pessoas. Todavia esforços adicionais serão empregados para garantir que indivíduos fora deste círculo também tenham oportuninadade de adquirir a obra, reafirmando o compromisso com a acessibilidade cultural.

Esta obra monumental abrangendo 436 páginas, oferece uma narrativa abrangente e meticulosamente cronológica da história de Santana do Ipanema, desde os seus primórdios habitacionais nas margens da Ribeira do Panema até os eventos transcorridos no ano de 2006. Trata-se de um estudo abrangente que atravessa diversos períodos significativos da história-brasileira, incluindo a era colonial, do vice-reinado e imperial, fornecendo um panorama detalhado das transformações sociais, culturais e políticas da região. Diferentemente das narrativas históricas convencionais centradas nas elites governantes, esta obra destaca a confluência de diferentes estratos sociais oferecendo uma perspectiva inclusiva e multifacetada da história local.

A capa do livro, uma obra de arte meticulosamente composta, simboliza elementos culturais e históricos de Santana do Ipanema, incorporando ícones locais como o Museu Darras Noya e a Igreja Matriz, bem como figuras proeminentes da comunidade; este aspecto visual não só enriquece a apresentação da obra, mas também serve como um convite visual para os leitores mergulharem nas profundezas da história e cultura de Santana do Ipanema.

Portanto, convidamos a comunidade acadêmica, entusiasta de história e o público em geral a se unirem a nós neste evento literário de grande envergadura, que promete ser não apenas uma celebração do legado de Santana do Ipanema, mas também um marco significativo no campo da historiografia brasileira.

MACEIÓ, 5.3.2023.

 


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segunda-feira, 4 de março de 2024

 

TRADUZINDO PARA VOCÊ

Clerisvaldo B, Chagas, 5 de março de 2023

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.022

 



Até quase o final do século passado, o povo sertanejo alagoano usava bastante as palavras bogó, cabaça, aió e trempe. Você da capital sabe traduzir? Então, mãos à obra:

Bogó é uma bolsa de couro com boca estreita e dura. Serve para transportar água em viagens. Quanto mais quente é o tempo mais a água esfria. Por ser pesado estando cheio, é mais apropriado para ser transportado por animais como o cavalo, o burro, o jumento... Foi muito usado por vaqueiros e cangaceiros.

Cabaça fruto do cabaceiro, duro e cortado ao meio tem ínúmeras serventias. Inteira, tem a mesma função do bogó e que também foi muita usada pelos cangaceiros e forças volantes, na caatinga.  Também é usada em nome masculino como cabaço que se tornou pejorativo para a virgindade da mulher. O primeiro documento de Santana do Ipanema, menciona o rio dos cabaços, atualmente conhecido como Capiá, o mais importante do Alto Sertão alagoano.

Trempe é a junção de três pedras, fogo no centro, à lenha ou a carvão, geralmente no solo limpo onde será colocada a panela – a maioria de barro – para cozinhar a comida. Em algumas regiões do Nordeste a trempe também era chamada tucuruba, nome indígena, cuja diferença era que as tucurubas tinham o fogo no chão escavado, num buraco. Cangaceiros usaram muito as tucurubas.

Aió bolsa de tecido especial, entrançado, para ser pendurado na cabeça do animal cavalar, com ração, notadamente de milho. Foi muito usado por homens humildes do sertão, a tiracolo como se fosse uma bolsa de couro atual. Esses indivíduos eram discriminados e chamados com desprezo de “cabra de aió”. Isto é, sem confiança, sem caráter. Essa expressão foi muita usada pelos coronéis sertanejos – fazendeiros ricos, arrogantes e assassinos, cujos títulos vinham de patentes da Guarda Nacional, criada pelo padre Diogo Feijó. Assemelha-se às expressões: “cabra ruim”, “cabra peste”, “cabra safado” e “cabra de peia”.

Assim continua o terreno fértil sertanejo em aberto para os pesquisadores deste mundo encantado.

MUNDO ENCANTADO ENTRE JARAMATAIA E SERROTE DO JAPÃO (FOTO: B. CHAGAS)

 


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quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

 

SÃO BENEDITO

Clerisvaldo B. Chagas, 1 de março de 2023

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.019

 



Nunca faltou tinta no mundo, mas a Igreja de São Benedito, em Maceió, sempre foi escura e nem sabemos por que. Situada ali no Comércio, defronte a, então, Secretaria de Educação, imediações da Praça Deodoro, sempre teve aquele aspecto de esquecida e discreta. Ali passei inúmeras vezes nas minhas andanças pela capital. Foi onde faleceu o ex-dirigente de Santana do Ipanema, ainda no tempo de vila, padre Capitulino, filho de Piaçabuçu, pároco de Santana, depois dirigente, substituto interino do governador Fernandes Lima, por alguns meses. Na época da vila quem mandava era a família Gonzaga, quando a irmã do padre casou com um deles. Padre Capitulino, terminou substituindo os Gonzaga, na política e fazia as duas funções em Santana do Ipanema.

Dividido pela opinião pública por ser um padre politiqueiro, estava quase sempre ausente do município. Foi ele que no ano de 1900, realizou a primeira reforma da Igreja de Senhora Santana. Com o governador afastado por problemas de saúde, Capitulino assumiu o cargo e que aproveitou para elevar à condição de cidade, a vila de Santana do Ipanema. Depois se dedicou somente à carreira sacerdotal e veio a falecer na igreja de São Benedito. Fora um ataque fulminante de coração, quando se preparava para celebrar a missa. Sua visita à Santana do Ipanema, como governador, é registrada no livro de cônicas do brilhante escritor santanense, Oscar Silva, “Fruta de Palma”.

Mas voltando a igreja de São Benedito e que tem sua marca na história santanense. Quando as igrejas pararam de receber defuntos, somente foi permitido receber cadáveres naquele templo. E na observação do início, sempre nos deparamos com aquela igreja escura por fora e por dentro, apesar da sua localização privilegiada na capital.  Acho que chegamos a um ponto em que havia muitas igrejas, poucos padres e verbas escassas, problemas esses que também notamos em nossa região. Porém, a Igreja de São Benedito, ali nas proximidades da Praça Deodoro, continua resistindo. E apesar de ser uma igreja discreta, somente notada por que já a conhece, é aberta a todos os devotos do santo e a todos aqueles que dela sempre precisaram para suas orações diárias ou visitas esporádicas de robustecimento da fé.

IGREJA DE SÃO BENEDITO EM MACEIÓ (FOTO: B. CHAGAS).

 

 

 

 

 

 


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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

EU VI O POÇO

Clerisvaldo B. Chagas, 29 de fevereiro de 2024

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.019

 


Fui ao Bairro Domingos Acácio – o herói da Guerra do Paraguai – e fiz questão de dá uma espiadinha no antigo Poço dos Homens. Poço do rio Ipanema, imortalizado pelos meus escritos, especialmente no livro RG de Santana “Ipanema, Um Rio Macho”. A ponte General Batista Tubino, construída em 1969, foi o golpe final no poço da minha infância e dos meus antepassados. Todos os jovens e adultos da minha terra tomaram banho do Poço dos Homens, inclusive, até o, então, futuro governador Geraldo Bulhões. Poço dos Homens foi a página mais saudosa que escrevi na vida e que está registrada no livro acima. Mas quando espiei de cima da ponte, por estes dias, vi o mato aquático por cima do aterramento natural e do abandono. Doeu fundo ao vê a maior fonte de lazer de outrora da minha terra naquela ridícula e humilhante situação. Nem sequer, por cima das suas pedras grandes e lisas, um monumento de ferro ao banhista, como daqueles que o artesão Roninho Ribeiro sabe fazer.

Vem à memória o comerciante Júlio Silva e seu dente de ouro, o único homem que vi tomando banho de sabonete no Poço; Seu Alberto Agra, dando lição ao negro Zé Lima dizendo que o nome do que ele estava imitando na água não era microscópio e sim, periscópio; a adolescente Nicinha, nadando igual à piaba e seu irmão Gorila, dando sucessivas sapatadas na superfície, sem mostrar o rosto imerso. Os maldosos passando “tamiarana” nas costas dos companheiros. Toinho Baterista, pescando mandim; O alfaiate Seu Quinca, sem dá sorte de pesca para ninguém; As andorinhas revoando e molhando o peito nas águas, e indo à pousada na torre da Igreja; e o maior cantor da minha terra Cícero de Mariquinha mexendo na alma da gente cantando em dia frio e nublado, músicas de Cauby Peixoto:

Deu para entender agora o que senti ao olhar da Ponte General Batista Tubino, o poço sepultado a cerca de 20 metros da ponte, rio abaixo? Não tiveram piedade em deixarem pelo menos uma cruz, onde jaz o Poço dos Homens, isto é, um monumento, por mais simples que fosse! Acho que irei fazer uma campanha para tal fim, mas nem sei por onde e nem com quem contar.

POÇO DOS HOMENS NO PRIMEIRO PLANO. IMAGEM VISTA DA PONTE GENERAL BATISTA TUBINO (FOTO: B. CHAGAS).

 

 




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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

 

PRIMEIRA E SEGUNDA

Clerisvaldo B. Chagas, 27 de fevereiro de 2024

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.017

 



Bons tempos quando a marca do café alagoano estava no auge. Ao passarmos pela Praça Deodoro, o aroma intenso saía da torrefação do Café Afa, bem ali, na esquina do teatro, do outro lado da rua. E nós, estudantes, ficávamos inebriados e os comentários choviam sobre àquela indústria tão famosa e aceita plenamente em todos os extremos de Alagoas. É certo, porém, que a Praça Deodoro, passou por várias reformas nas sucessivas marchas dos prefeitos. Uns aceitavam as reformas como mais belas, outros preferiam o modelo mais antigo. O Teatro com o mesmo nome da praça, também passava por altos e baixos. E a sorveteria Gut-Gut, tão famosa em Maceió quanto café, teatro e praça, já ameaçava cerrar às portas.

E assim nós pegamos essa fase de ouro do comércio da capital, quando as quatro referências acima, reinavam absolutas no auge da fama maceioense. Em Santana do Ipanema, perguntávamos ao dono do Café do Maneca, como ele fazia para preparar um café tão gostoso... Pouco importava se era um “café pequeno, meio café, ou café grande”, conforme classificava a clientela. Maneca dizia apenas: “Misturo o Café Afa de segunda com o café de primeira”. Mas ainda tinha o segredo da quantidade, da fervura... Que o nosso bom amigo não revelava. Em Maceió, o teatro resistiu, a praça resistiu, mas a Gut-Gut com o melhor picolé do paísl, fechou. E assim o famigerado Café Afa também deu adeus ao povo do meu estado. A saudade bate quando novamente circulamos por ali, quando lembramos também da mulher vendendo Tainha e que somente gritava “inha”, ô inha! E os estudantes, das janelas dos edifícios respondiam: Ôi, ôi!

E ainda vimos, homens de branco, elegantes e de sapatos espelhosos, no capricho dos engraxates da praça. Ali à frente paravam os ônibus, momentos de observações dos conquistadores, às senhoritas que desciam no rigor da moda para o passeio habitual pelo Comércio. Ah! Pouco importava a imponente estátua de bronze do Marechal Deodoro da Fonseca. Cheiro de perfume, aroma de café, gosto de sorvete... Movimentavam a praça chique da capital.

 

Alerta contra trombadinhas....

“Ô Maceió! É três mulé pra um homem só!”

PRAÇA DEODORO (FOTO: B. CHAGAS).

 

 

 


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domingo, 18 de fevereiro de 2024

 

ÁGUA DE COCO

Clerisvaldo B. Chagas, 19 de fevereiro de 2024

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.016

 



Sempre achei aquele trabalho empolgante. Trabalhar no IBGE, eram duas bênçãos ao mesmo tempo. Lidar com Geografia e salário firme. E como se fala muito ultimamente em São Sebastião, sempre estou a recordar uma viagem de pesquisa até ali com o meu chefe, então, José Pinto Araújo, no seu fusca azul. Cito essa recordação porque fiquei impressionado com aquelas terras férteis e bonitas da região.  E foi ali nas belas grotas da zona rural onde pela primeira e única vez, flagrei uma cobra jiboia descansando após engolir um caprino. Somente as pontas do animal doméstico se mostravam no lado externo da boca do ofídio. Para mim foi mesmo uma surpresa nas terras agrestinas daquele município. Uma bica permanente às margens da rodovia São Sebastião – Penedo, também foi novidade para este matuto de Santana do Ipanema.

Mas o que mais me impressionou mesmo foi o sítio, bem perto da cidade, o nosso destino. Ali, o contato nos esperava numa bela chácara de pomar exuberante, onde a água de coco era mais doce e mais abundante. Senti-me dentro de um paraíso que nos fez esquecer a missão “ibegiana”, por algumas horas. Por isso que sempre preguei em sala de aula: “primeiro conhecer o seu estado e só depois o restante do Brasil e do mundo”. Pois, a boa impressão que a cidade do Santo Mártir me deixou, eu a carreguei durante a minha vida até o presente momento. A propósito, São Sebastião possui em torno de 34.000 habitantes, está localizada a 200 metros de altitude e tem com Economia, mandioca, milho, fumo, amendoim, feijão, banana e laranja, mas também puxa um pouco para a pecuária e o artesanato de renda de bilro.

Sua padroeira é Nossa Senhora da Penha e sua Emancipação política se deu em 31 de maio de 1960. Antes, o lugar tinha o apelido de Salomé, porque um cidadão, isoladamente, vendia para quem passava, sal e mel. São Sebastião faz parte da grande região metropolitana de Arapiraca, é saída estratégica para a região do São Francisco, como Porto Real de Colégio, Igreja Nova, Penedo e, Piaçabuçu, Porém, acreditamos no ditado que diz: “Conhecer de perto, para contar de certo”. Pois faça essa visita e depois nos conte como foi, “cabra véi”. E a senhora não quer comprar renda!? Alagoas é massa!

IGREJA EM SÃO SEBASTIÃO (FOTO DEVULGAÇÃO)

 

 

 


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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

 

O CALANGO E O DOCE

Clerisvaldo B. Chagas, 15 de fevereiro de 2024

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.015




 

          Criativas e sem sentidos eram muitas as modinhas inventadas no mundo rural do Sertão:

 

“Calango matou um boi

Retaiou botou na teia

Lagartixa foi bulir

Calango largou-lhe a peia

Lagartixa foi dar parte

Calango foi pra cadeia.

 

Quando a moça ia casar-se vinha do sítio rural para a igreja, na cidade. Além da comitiva a cavalo, vinha por último um cidadão escanchado numa égua conduzindo o baú de roupas da noiva. Era chamado de “calango”. Ao passar o calango pela praça defronte à igreja, era alvo de engraxates e desocupados que gritavam: Calango! Calango! E calango respondia às investidas, erguendo o braço e estalando bananas e mais bananas para a turba. (Fonte: Alberto Nepomuceno Agra).

Quando a comitiva retornava à casa da noiva, havia muito exibimento dos cavaleiros com seus animais baixeiros em corridas pelas estradas poeirentas. Ao chegar perto da casa da noiva, os mais afoitos corriam à frente, pegavam doce de coco na casa da noiva e traziam para ela ainda no caminho. A noiva e o noivo, felizes da vida, comiam o doce ali mesmo, cavalgando e metendo os dedos cheio de poeira nas taças abarrotadas. Era uma tradição. (Fonte: Escritor Oscar Silva).

 A pressa dos cavaleiros que iam buscar o doce, esquecia das colheres. Mesmo sem colher, o doce era doce. A figura do calango desapareceu, mas o doce de coco ainda é encontrado aqui ou ali sem a frequência do passado. Gostoso é. O “enjoativo” fica por conta de quem quer almoçar doce. E assim, os registros vão sendo feitos em livros esporádicos e ganham vida na boca dos mais velhos. Que bom, ouvir as narrativas da vovó, do vovô... E o Sertão velho de meu Deus, vai moendo, nos mitos, nas lendas, nas verdades, enriquecendo conhecimentos orais e literaturas curiosas que graças a elas seguramos a lupa preciosa de quem quer aprender. Envelheça, se puder e, conte seu mudo aos que virão.

 

 

 


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