SOBRE MIM

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.
PAPAGAIO Clerisvaldo B. Chagas, 13 de junho de 2025 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3.249 Era uma casa de taipa, ...
PAPAGAIO
Clerisvaldo B. Chagas, 13 de junho de
2025
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica:
3.249
Era
uma casa de taipa, isolada, bem no sopé do serrote do Pelado. A estrada
iniciava ali na periferia, Bairro São Vicente e levava seu usuário para o
povoado São Félix e região. Era na cumeeira, diante da porta da frente que
havia um rude cata-vento de madeira e ao lado da metade da porta, um poleiro
também de madeira, com um papagaio a tomar sol, acorrentado pela perna. Essa
paisagem simpática, modesta e atípica, sempre me chamava atenção e me deixava
pensativo, quando por ali passava em direção à serra do Gugi, quase todos os
domingos. Uma jornada de 2 léguas (12 km) a pé, para comer galinha na casa de
Jonas, no pé da serra do Gugi, beber caldo-de-cana e chupar manga Gobom no pé,
no alto da serra no sítio do senhor Olavo e dona Neném. Eu, e os saudosos
amigos Mileno Carvalho e Francisco Assis.
Toda
a região, nos últimos anos foi modificada. O casario do Bairro São Vicente, se
expandiu pelo sopé do serrote do Pelado e emendou com diversas construções do
bairro vizinho, Lagoa do Junco. Agora tem hotel de luxo, condomínios de alto
nível, conjuntos diversos, mercadinhos e inúmeras prestadoras de serviços. A
nova paisagem urbana ocupa ladeiras, grotas, planos com asfalto e planejamento.
A vizinha Lagoa do Junco tornou-se um Complexo de Justiça, muitas prestações de
serviços, faculdade, escola modelo, CISP e a transformação quase completa dos
dois barros pegados, em uma nova cidade. Nada mais de casa de taipa, cata-vento
e papagaio.
Já
faz muito tempo que me dirigi à serra do Gugi, ponto culminante de Santana do
Ipanema, mas deixei registrado uma cena fictícia do meu romance DEUSES DE
MANDACARU, lá no sítio de Olavo. Continuo admirando aquele monte situado na região
do povoado São Félix. Foi decantado por dois escritores, Oscar Silva e
Clerisvaldo B. Chagas. E para não ficar somente em nós, é por ali que o
simpático riacho Gravatá vem lamber-lhe os pés. E a região do serrote do Pelado
e adjacências vão focando noutra Santana do Ipanema, inclusive ornamentando a
entrada da cidade, para quem chega da capital. A Lagoa do Junco, mesmo já está
se estruturando para ser o futuro local da feira semanal de Santana que sairá
do Cento da cidade. Ê... Meu papagaio...
UNEAL
NA LAGOA DO JUNCO, EM 2013 (FOTO: B.CHAGAS/LIVRO 230).
BAMBÁ Clerisvaldo B. Chagas, 12 de junho de 2025 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3.248 Nome muito utilizado no ri...
BAMBÁ
Clerisvaldo B. Chagas, 12 de junho de
2025
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica:
3.248
Nome
muito utilizado no rio Ipanema, imediações e por onde se vendia peixes.
Enquanto a pobreza chiava no campo e na cidade dentro dos lares ou nas andanças
das ruas, o rio temporário do Sertão nunca abandonara a sua generosidade, ou
durante as cheias ou na sequidão com os diversos poços que restavam da fartura,
inúmeras famílias conseguiam criar os meninos com a pesca miúda oferecida. No
rio Ipanema, um peixe de três quilos já era considerado grande, enorme,
bem-criado. E todos nós que amávamos o rio sabíamos os nomes doshabitantes das
águas: Bambá, Traíra e Mandim, os maiores. Piaba, carito ou chupa-pedra, os
menores. A bambá, no rio São Francisco era chamada Xira e decantada em prosa e
verso. O carito era o mais vil. E, praticamente somente uma família muito pobre
da Rua São Pedro, pescava carito. A família Rei.
Ninguém
conhecia por ali outro tipo de peixe produzido no trecho citadino. Certo dia,
porém, surgiu no Poço dos Homens o advogado Aderval Tenório, que também era
farrista, mas que nunca aparecia no Poço dos Homens e que daquela vez apareceu
ostentando um Pitú dos grandes. Dizia haver comprado no poço do Escondidinho, coisa
que ninguém jamais pensara que existisse. Na certa subira do rio São Francisco
e fizera essa surpresa em Santana do Ipanema. Surpresa mesmo! Grande novidade
na pesca local. Este sim, era para a farra propriamente dita, todos os peixes
maiores ou menores, era, na maioria, para matar a fome e no mínimo complementar
o almoço sertanejo. Os lugares de pesca, principais eram a barragem, no bairro
do mesmo nome; o poço do Juá, no trecho do Comércio; o poço dos Homens, abaixo e
quase ligado ao de cima; e o poço do Escondidinho, muito abaixo no Bairro
Bebedouro.
Entretanto
o pessoal batia constantemente por todos os outros poços menores que ficavam das cheias. A pesca
era na base da tarrafa, do anzol, do jequi, da rede e do litro, para as piabas.
Era
o Panema romântico e caridoso
CHEIA NO PANEMA (FOTO DE ÂNGELO RODRIGUES).
CACHAÇA Clerisvaldo B. Chagas, 11 de junho de 2025 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3,247 O irmão do padre Bulhões...
CACHAÇA
Clerisvaldo B. Chagas, 11 de junho de
2025
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica:
3,247
O
irmão do padre Bulhões, Pedro Bulhões, era dono de cartório, mas o outro irmão,
Antônio Bulhões, era proprietário de fabriqueta de cachaça, em pleno comércio
de Santana do Ipanema. Ficava muito perto da esquina que desaguava para a
Avenida Barão do Rio Branco, entre a farmácia Confiança do senhor Hermínio
Tenório (Moreninho) e a alfaiataria do senhor Walter Alcântara. Mas, havia também uma fábrica de cachaça na
esquina da primeira travessa da Rua Antônio Tavares, pertencente ao senhor
Manoel Lopes. Á margem do Rio Ipanema, bem perto da Ponte Padre Bulhões, havia
uma outra fábrica de cachaça. Esta pertencia à família Lemos, porém, não temos
certeza se era a mesma em que o Sinval o rapaz recitadorl tomava conta.
A
produção dessa mercadoria era transportada em lombo de jumento: tanto surgia em
ancoretas para longas viagens, quanto nas garrafas em caçuás. Não temos
lembrança de outra bebida alcoólica fabricada na cidade. Estamos querendo dizer
que havia muitas fábricas dos mais diferentes artigos em Santana do Ipanema e
que tudo acabou, não existindo uma só fábrica de nada. Havia três fabricas de
calçados, de vinagre, de corda, oito de sola, de carne-de-sol, de doces, de
fubá, de tempero, de colchas, de mosaicos, chapas de fogões (fundição) de
selas, de arreios, de colchões. Tudo que havia foi extinto,
inexplicavelmente e a cidade passou a importar tudo o que antes produzia.
Deixou de ser uma cidade industrial para comercial. Hoje somos uma cidade
comercial.
Quanto
ao consumo de bebidas alcoólicas, não notamos nenhuma diferença da metade do
século passado para hoje. O que varia são as marcas de cachaça que aparecem,
geralmente importadas de Pernambuco. Algumas delas são mais sofisticadas, mas
outras ainda são chamadas de “rinchonas”, o que vem a ser cachaça ruim cachaça
fuleira, cachaça peba, cachaça que não vale nada. E se não há mais indústria,
não há mais empregos melhores e a juventude vai montar no seu futuro, apenas
atrás de um balcão de loja qualquer.
Nem
uma cachaça de Santana você consegue hoje tomar.
Fazer
o quê?

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.