SOBRE MIM

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.
CARREIROS, CARROS E PROCISSÃO Clerisvaldo B. Chagas, 26 de maio de 2023 Escritor Símbolo do sertão Alagoano Crônica: 2891 Era ...
CARREIROS, CARROS E PROCISSÃO
Clerisvaldo B. Chagas, 26 de maio de 2023
Escritor Símbolo do sertão Alagoano
Crônica: 2891
Era
ainda o auge dos carros de boi. Na margem
direita do rio Ipanema, só havia cercados de criação e de roças, casas pobres e
longe uma das outras entre caminhos e estradas poeirentas e carroçáveis. Muitas
vezes fui comprar o leite à casa do senhor Antônio Alcântara, compadre de meu
pai e que morava onde hoje é o supermercado Nobre, vizinho a Ponte do Padre.
Seu Antônio todos os dias atravessava o Ipanema para pegar o leite de venda no
seu criatório da margem direita. Perto
da sua propriedade ou nela mesma, nas proximidades do Poço dos Homens, morava
um carreiro gente boa, chamado Cícero. E meu pai mandou fazer um carro de boi muito
bem feito, tamanho máximo e, com quatro bois enormes, vermelhos e bem nutridos,
entregando-os ao Seu Cícero para carrear.
Santana
ainda tinha um título de “Terra dos Carros de Boi”, carros esses que lotavam o
poço do Juá, no rio Ipanema, aguardando mercadorias da feira do sábado para o
destino da zona rural. Mais progresso
chegou e o carro de boi ficou obsoleto. Nos últimos tempos desapareceu da
cidade, mas continua firme e forte na área rural que tanto precisa dos seus
serviços no dia a dia. Mas, como o destino tece à sua maneira, a Paróquia de
Senhora Santana incorporou uma procissão de carreiros e seus carros de madeira
na abertura das festas do mês de julho.
A
procissão aludida já chegou a desfilar com 1.800 carros de boi, contados pelos
participantes. Logo cedo no dia anterior à procissão, os carreiros vão chegando
e acampam no “Parque de Exposição Izaías Vieira Rego”, a 2 km da cidade, onde
se preparam para o grande dia. Os carros desfilam rumo a Santana, pela AL-130,
indo a imagem de Senhora Santana no carro de boi da frente, onde também vai
o pároco da Matriz. Após a procissão é realizada a bênção que geralmente
acontece no Largo Cônego Bulhões. E no início dessa friezinha que está
acontecendo no mês de maio, já se ouve carreiros providenciando coisas para a
grande felicidade de escoltar a santa até a casa sagrada Matriz de Senhora
Santana.
PADRE
JACIEL, PARÓQUIA D SENHORA SANTANA (FOTO: B.CHAGAS/ARQUIVO)
O CACHIMBO DA SERRA Clerisvaldo B. Chagas, 24 de maio de 2023 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2890 Terça-feira (2...
O CACHIMBO DA SERRA
Clerisvaldo B. Chagas, 24 de maio de 2023
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2890
Terça-feira
(23), mais um dia nublado frio e chuvoso. A chuva fina, insistente e molhadeira,
como se diz por aqui no sertão de Santana do Ipanema. E a temperatura de 24
graus é bastante para o escritor buscar agasalho e abrigo. Sou filho da caatinga
e bicho de 26 a 27 graus. Mesmo com essa particularidade, vejo a rua
completamente deserta e seres semelhantes devem estar na preferência da cama,
do sofá, sob a égide do cafezinho quente ou da pipoca estaladeira. E apesar do
cinza esbranquiçado que cobre a cidade, posso assegurar que é um belo dia para
um passeio de carro e apreciação do tempo. Vai continuar chovendo? Vai parar?
Uma foto do serrote Gonçalinho, que circunda a cidade, mostra o monte
cachimbando. E a serra cachimbando, por aqui é estar parcialmente coberta de
neblina quando o tempo estia; ou no pé ou no pico do monte. Se a neblina é na
base o tempo vai para o estio, se a neblina é no pico, mais chuvas chegará.
Como
já disse antes, o nosso tempo chuvoso é de outono/inverno. E como ainda estamos
no outono, as chuvadas vão iniciando suas jornadas anuais. Como não temos sites
especializados, nem sabemos ainda se o homem do campo já iniciou o seu plantio.
Mas o certo é que todos sonham com milho assado, pamonha e canjica do período
junino. Ainda não se fala em São João por essas bandas... Nem forró, nem
fogueira, nem quadrilhas, mas é a própria Natureza que vai pintando o cenário
de festa e fartura para o próximo mês. Milho assado, milho cozinhado, bolo de
milho, povoam mentes que antecipam o São João.
E
o verde da periferia, das margens do rio, da estrada, da colina e dos elevados procura
enquadra-se no verde da bandeira nacional. O perfume do mato molhado é uma saudação
aos riachinhos que alegram o cenário e oferecem beijos carinhosos aos pés dos
caminhantes. O orvalho nas folhas molha os braços de quem logo cedo ama ao
tempo e rompe a trilha. E se tudo na vida tem a sua hora, por que pensar em
seca, em acauã, em sacrifícios se os céus estão derramando bênçãos sobre a
terra e sobre as esperanças do seu coração?
Ainda
existe o arco-íris.
O
Sol chegou tímido. Abra seu coração e deixe-o entrar.
PERIFERIA
OESTE DA CIDADE (FOTO: B. CHAGAS).
MANIÇOBA/BEBEDOURO Clerisvaldo B. Chagas, 23 de maio de 2023 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.888 Vez em quando ...
MANIÇOBA/BEBEDOURO
Clerisvaldo B. Chagas, 23 de maio de 2023
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica:
2.888
Vez
em quando damos uma passada pelos bairros que formam um só, Maniçoba/Bebedouro.
Lugar onde o casario se confunde ao longo da margem esquerda do rio Ipanema.
Muitas rochas e árvores frondosas fazem de ambos os bairros, um belo jardim que
vai sendo descoberto para chácaras da classe média que procura descanso. Na
Maniçoba, o rio Ipanema recebe as águas de um riachinho que se forma em tempo
de inverno, vindo da região do Residencial Brisa da Serra, parte norte da
cidade e saída para o povoado São Félix. O riachinho não tem título e por isso
o chamamos de “riacho Sem Nome”. Mais adiante, no Bebedouro encontra-se a
estreita foz do riacho do bode, após as últimas casas do perímetro urbano. Hoje
transformada em escoadouro do açude formado pelo riacho, porém, sem sangramento
há muito tempo, é seca e coberta de mato.
Imortalizamos
o lugar com o livro documentário ainda inédito, “Santana: Reino do Couro e da
Sola”. Tendo como ponto central do documentário os curtumes daquela região que
alimentava artesãos do couro, a rede de sapateiros autônomos e as fabriquetas
de calçados da cidade. Muitos outros fatos, porém, ali acontecidos são narrados
e vindos a lume para conhecimento dessa e das futuras gerações da terrinha.
Curtumes são lugares onde o couro dos animais são transformados em couro
curtido e/ou em sola. Nos tempos mais recentes nesses lugares que ostentam o
primeiro documento sobre Santana do Ipanema, destacava-se a líder comunitária
conhecida como “Dona Joaninha”, mulher combativa pela sua comunidade e terror
dos políticos santanenses.
Tive
a imensa honra de trabalhar com Dona Joaninha na “Associação Guardiões do Rio
Ipanema – AGRIPA. A última vez que
estive na sua casa, foi com alguns guardiões de folga que aproveitaram para
pegar umas cervejas nas imediações. Dona Joaninha “deu um rela” na turma e
mandou pegar cerveja gelada em um lugar próximo, dizendo: “Vocês estão na minha
casa e a obrigação é minha, ora, ora, ora... Estava doente, mas não se
entregava e pouco se referia aos seus problemas pessoais. Poucos meses ou
semanas após esse encontro, Deus precisou daquela mulher sábia e guerreira para
aconselhar alguns rebeldes na porta do Céu. Uma lacuna difícil de ser
preenchida na Maniçoba/Bebedouro e em Santana do Ipanema.
CLERISVALDO
E DONA JOANINHA, NO BEBEDOURO (FOTO: SÉRGIO CAMPOS).

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.