quarta-feira, 4 de agosto de 2010

VELHO CRUZEIRO

VELHO CRUZEIRO
(Clerisvaldo B. Chagas, cinco de agosto de 2010)
Vou novamente subindo lento e solitário a trilha do serrote. Agora a capoeira é verde. Galhos se debruçam nos degraus de cimento e pedra. O silêncio resmunga na indefinição de um ruído, no farfalhar quase imperceptível de folhas, no som longínquo da cidade. Meia volta no corpo, nivelar de cabeça, trena nos olhos. Novo fôlego no aclive longo, no fim dos batentes, na terra banhada e nua. Rachões nos pedregulhos, garranchos de caminho e a sensação estranha de está sendo olhado, acompanhado, fotografado. Ali está, por entre espaços da folhagem, ali está. Ele, o velho cruzeiro de madeira resistindo ao tempo. Braços abertos abençoando casas tão longe e de longe tão perto, beijando-lhes os pés, pedindo-lhes a bênção. E eu vou pisando no lajeiro enorme, contando as passadas, flutuando no Sinai da minha terra. Sento-me na calçadinha da capela e acompanho o abraço de amor a urbe de Senhora Sant’Ana. Uma vigilância eterna de considerável afeto. Serras do Poço, Camonga, Macacos, Remetedeira... Lá se vai o fio d’água barrenta seguindo o destino, como o destino da gente. A torre da Matriz quer competir, mas não tem altitude. Berra o sino no protesto longo contra o concorrente natural. E me vem às narinas o perfume agreste de mato verde. Como é bela a imponência da cruz! Alastrados, urtigas, macambiras, vão fazendo o cinturão de segurança ao símbolo deixado pelos homens.
Antigo morro da Goiabeira, receptora energética do alto, jorro de fé dos que te escolheram entre os montes. Ah! Vejo as pessoas simples fazendo promessas, tijolos à cabeça, bandas de música a tocar. E os chapéus de palha, e os pés descalços e o espocar de foguetes. Onde estão as multidões que procuravam as alturas para a comunhão com Deus? Por que você está sozinho depois de curar tantos e tantos males dos que vieram após agradecer? Como notar Santa Terezinha trancada aí dentro, espelho quebrado, protegida por marimbondos? Que malvadezas fizeram com o Cristo que iniciou profanado num alto que não era de confiança. E onde estava a confiança, por que deixaram o Mestre e carregaram a fé? Não foi assim que recomendei esse lugar.
Depois de longas e longas espiadelas pelos arredores, deixo o cimo e vou degustando a descida numa lentidão de quem perde alguma coisa. Onde eram as estações de via-sacra? Não vejo marco nenhum. É verdade, mato não precisa de vias-sacras. Mato reza sempre ao sopro do vento nas manhãs fagueiras, nas noites de lua ou na escuridão enigmática de inverno. Vento sempre reza, Seu Clero! Sabia não? E nas faldas do serrote, misteriosamente desaparece a multidão que acompanhava os atores nas semanas santas. Brigas de padres não permitiram a sequencia do teatro da paixão no lugar apropriado. E lá da outra margem do rio, dos quintais da Rua Antonio Tavares, volto-me, imaginariamente aponto para a igrejinha do serrote e digo que ali estive. Nada resolvi para o morro da Goiabeira. Mas por certo as boas energias irão fazer muito por mim. Não pretendo deixar de visitar de vez em quando o cimo sagrado do VELHO CRUZEIRO.


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terça-feira, 3 de agosto de 2010

LEITE DE QUIXABA

LEITE DE QUIXABA
(Clerisvaldo B. Chagas. Quatro de agosto de 2010)
Diz a sabedoria popular que “tudo tem a sua vez”. Eu queria porque queria encontrar o Arenilson nascido em São Miguel dos Campos. Enfrentamos a batalha pelos estudos em república de estudantes na capital alagoana. Arenilson falava baixo, gostava de Química e era bom sujeito. Quando tomava banho ficava imóvel e dizia que era para não suar. Falava que banho demais estragava a pele. Quando nos referíamos a esses sucos em pó como cancerígenos, ele pedia que juntássemos todos os pacotes e levássemos para ele. O pai era caminhoneiro em São Miguel. E certa feita, dirigindo o caminhão do pai, Arenilson me chamou e fomos transportar melaço de uma usina no vale do Mundaú para o cais do porto. Pela primeira vez eu vi como funciona o sistema, novidades que bem impressionaram ao sertanejo. Meu colega sempre perguntava o tamanho de Santana e foi quem primeiro me falou da “feira da ponte”, tradição miguelense de Semana Santa. Tentei ultimamente localizar o homem, mas nada consegui. Na época morávamos vizinho à casa do Pedro Vieira, garoto inteligentíssimo. Tornar-se-ia Pedro, muito mais tarde, prefeito de Maceió. Encontramo-nos por acaso anos após o seu mandato e ele simplesmente provocou à memória: “Você não é o Clerisvaldo?”
Procurando como pesquisador procura os endereços de Maherval, Silvio Bulhões e Sebastião das Queimadas, fui encontrar os dois primeiros no encontro dos muralistas, festa de gala do Portal Malta net. Maherval, rapazinho, franzino, educado, sempre ia à casa de meu pai a mando da grande amiga da minha mãe, professora Adelcina Limeira. Não reconheci logo aquele cabra alto, bonito e elegante que estava no salão. Silvio Bulhões, colega de DNER do meu sogro (poeta Rafael Paraibano da Costa) professor de Matemática, deixou a escola quando eu entrava no Magistério. Nunca conversamos antes. Foi assim que eu matei dois coelhos de uma só varada de quixabeira. “Primo Vei” que compareceu em minha companhia, dava conta de tudo. Um cavalheiro! Poucos dias após o evento, encontrei-me com o Sebastião, ex-funcionário do Produban, matuto do sítio Queimadas, excelente pessoa. Pude recordar os três dias, como hóspede, em sua residência na tentativa vencedora de enfrentar o vestibular. Ainda hoje sinto o cheiro que varava o quarteirão, da inigualável carne-de-sol de porco, preparada por sua esposa Zuleide. Ê “Bastião”, macho caboclo de tantas batalhas! Andou noticiando Omir Pereira que poderia nos brindar de novo com “Hoje a Notícia Correu” (Moacir Franco) por que não? Dos quatro que eu procurava achei pelo menos três.
“À Sombra da Quixabeira” é uma coletânea de crônicas, principalmente de pessoas que escrevem através do Portal Malta net. Até agradeço por ter tido a honra de ter participado com duas das trezentas e trinta e uma, com essa. Foi lançado na mesma noite, o primeiro livro do amigo e ex-bancário Luiz Antonio de Farias, “Capiá”. Impossível resumir a grandeza do encontro em uma crônica. O evento, Encontro dos Muralistas, foi uma noite em que o Sol prestigiou a Lua. Apesar de todos estarem à sombra da quixabeira, o astro rei brilhou forte sobre a copa. Foi bom rever os amigos, armar rede à sombra e provar do sabor adocicado do LEITE DE QUIXABA.

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