quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

OS FILHOS DA TERRA



OS FILHOS DA TERRA
Clerisvaldo B. Chagas, 5 de dezembro de 2013
Crônica Nº 1099

Cantor Miguel Lopes. Foto (sertão24horas).
Não lembro sobre a Marta na sua terra natal de dois Riachos, recordo-me, porém, de Jacinto Silva o cantador alagoano só comparável a Jacson do Pandeiro, mesmo assim com o manejo do coco sincopado que o rei do ritmo não possuía. Djavan também em Maceio, Petrúcio C. Melo e Miguel Lopes em Santana do Ipanema, filhos que deixaram a terra em busca de novos horizontes.
Marta jogando bola nas areias do riacho e nas várzeas da sua terra enfrentava cochichos de alguns. Venceu as adversidades, saiu do pequeno torrão sertanejo e foi ser grande no mundo. Visita à terrinha vez em quando sob os mesmo olhares críticos agora maravilhados. Djavan deixa Maceió, vai mostrar seu talento ao Brasil inteiro e volta coroado. Jacinto Silva sai de casa e diz à mãe que só retornará no dia em que gravar um disco. Nos tempos em que gravar um disco era coisa do outro mundo, o alagoano, vai, luta e vence e só rever a sua Maceió quando a Gazeta o convida para cantar forró em noite de São João. O rei do baião, o rei do ritmo e o rei do coco, eram os três grandes do Nordeste.
Muitos filhos de Santana também foram embora, muitos até vaiados nas suas pretensões artísticas e modo de ser. Alguns foram espontaneamente atrás de melhores dias. São escultores, pintores, desenhistas, escritores, jogadores de futebol, cantores, locutores, ocupando lugares de destaque regionalmente ou nacionalmente. E aqueles que os fizeram migrar pela inveja, despeito, intolerância, descriminação... Como ficaram com a consciência após a fama das suas vítimas? Entre os vários santanenses de valor e que buscaram outras plagas, lembro-me de Petrúcio C. Melo que era maluco por locução e que pelo seu jeito de ser não era visto com bons olhos por alguns. Hoje é apresentador de televisão e muito conhecido no mundo artístico. Miguel Lopes, dono de uma poderosa e educada voz a Altemar Dutra, só teve o seu valor reconhecido ao mudar-se para a capital. Um dos maiores cantores que Santana produziu.
E agora, mesmo iniciando a segunda década do século XXI, os sentimentos mesquinhos das pessoas, parecem os mesmos dos anos 60. Acho que está faltando compreensão, solidariedade e mais respeito aos FILHOS DA TERRA.



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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

BRINQUE COM REPENTISTA!



BRINQUE COM REPENTISTA!
Clerisvaldo B. Chagas, 4 de dezembro de 2013
Crônica Nº 1098

Foto: (Anderson Barbosa/G1).
A foto acima que ilustra a situação de seca no Rio Grande do Norte, faz lembrar um objeto não muito comum chamado “galão”. Com uma lata d’água pendurada em cada extremidade de um pau, este é conduzido nos ombros pelo sofredor.  Mas a palavra “galão” tem vários significados, como por exemplo, galão de tinta, divisa dourada usada como distintivo militar e outros mais.
Por outro lado, o violeiro-repentista nordestino é valorizado pela criatividade em qualquer circunstância. Mostremos como primeiro exemplo uma cantoria que estava havendo numa fazenda. Era hora de arrecadar dinheiro e a cada nome assinalado pelos versos, vinha à pessoa para depositar num prato, ali no centro, uma significativa oferta monetária, após rasgado elogio do violeiro.  Eis que havia ali no meio daquele pessoal, um senhor pobrezinho, pobrezinho que tinha apenas no bolso uma nota de pequeno valor. A esse tipo de nota o nordestino chama de “piniqueira” ou "couro-de-rato. Joaquim, o pobrezinho, não quis, entretanto, ficar sem a sua colaboração diante do chamado do poeta. Ao colocar sua nota no prato, a criatividade do vate foi maior do que a sua misericórdia:

“Parece que seu Joaquim
Passou a noite no mato
Com uma faca amolada
Tirando couro de rato
Deixou o rato sem couro
Jogou o couro no prato”.

Pois bem, voltando ao caso do galão, dois poetas cantavam na feira, também pedindo dinheiro através das estrofes criativas, quando se aproximou um cabo e um tenente. Um dos vates iniciou a sextilha dizendo que iria promover o tenente a capitão, mas logo a estrofe tomou um rumo novo. Disse o repentista:

“Eu agora vou botar
Um galão nesse tenente...”

Mas o tenente não gostava de pagar a cantador, puxou o cabo e disse: “Vamos embora, deixe esse corno pra lá”. O poeta conseguiu ouvir e terminou a estrofe dizendo:

“...Mas o galão que eu falo
É um galão diferente
É um pau com duas latas
Uma atrás outra na frente”.

BRINQUE COM REPENTISTA!

·         Foto: galão (Anderson Barbosa/G1).



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