domingo, 8 de setembro de 2019

O CIDADÃO DA COMPORTA


O CIDADÃO DA COMPORTA
Clerisvaldo B. Chagas, 9 de setembro de 2019
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.177
RIO LARGO. (FOTO: IBGE).

Para vê de perto a antiga cidade fabril, Rio Largo, passei ali algumas horas. Fui parar do outro lado do rio Mundaú, onde existia uma espécie de ilha. Ali havia um trecho d’água com uma comporta manobrada por um homem. Fui pedir explicação daquelas coisas diferentes da nossa terra. Na época aprendi uma porção de coisas naquele lugar a 37 km de Maceió. E é bom saber que Rio Largo não é o nome do rio que banha à cidade, por sinal, a terceira de Alagoas. Rio Largo é uma passagem mais larga do rio Mundaú onde antes se localizava um engenho de cana-de-açúcar. O cidadão da comporta indaga de onde sou. Respondo que sou do Sertão. O homem baixa a cabeça, melancólico, diz com muita pena: sempre quis conhecer o Sertão.
Turismo, viagem, passeio, visita, qualquer denominação serve para conhecermos outros lugares. O homem da comporta queria conhecer o Sertão, era sonho da sua juventude, mas já com idade avançada parecia ter perdido as esperanças. Ele não me falou em conhecer a Geografia, a História, a religião, as praças... Falou apenas em conhecer o Sertão. Aquele Sertão onde sua vista começa e alcança, sem nenhuma especialidade, apenas o todo misturado para deleite dos seus olhos. É a tese que derruba o turismo religioso, de parques, trilhas, culturais, praias ou montanhas. “Eu como cidade pequena que nada tenho a oferecer ao visitante, sem saber estou oferecendo tudo”. “Viva à pátria e chova arroz”, mas não tendo arroz, servem a poeira e o cascalho.
“Fazer o bem sem saber a quem”. Conhecer sem escolher também. Um sítio, um povoado, uma rua, uma metrópole, tem muitos encantos, aprendizagens e segredos valiosos para o corpo e para a alma que dependem da disponibilidade e procura de quem deseja. E voltando ao Rio Largo, em um estado repleto de ótimas estradas, deixa o sonho de visitas intermunicipais muito mais perto. Assim você vai alinhavando os desejos de conhecimentos que irão se tornando consistentes e inquebráveis.
Litoral, Mata, Agreste, Sertão, Sertão do São Francisco... Viagem imaginária/viagem real dentro do prisma alagoano de locomoção.
Deixe-me lembrar do melancólico cidadão da comporta...
Todos os lugares da Terra são coisa de Deus.

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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

ENFRENTANDO A ZOADINHA




ENFRENTANDO À ZOADINHA
Clerisvaldo B. Chagas, 5 de setembro de 2019
Escritor símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.176

PRAÇA SERGIPE. (FOTO: VIVA REAL).
Quieto como mãe-da-lua, fico só escutando a zoadinha do ferrão de arraia. Eita mangangá medonho! Cadeira de dentista não é divertimento. Mas a profissional vai tentando cobrir os ruídos cantarolando para relaxar o paciente. Não tem como não lembrar o Dr. Adelson Isaac de Miranda, lá de Santana do Ipanema. Primeiro dentista que conheci e que passava músicas clássicas na hora do trabalho, Adelson também assoviava ou cantarolava para embalar o da cadeira. E ali, na Praça Sergipe, em Maceió, sempre experimentando as mesmas sensações da primeira vez. Ainda bem que a dentista é extrovertida e mão de seda. Mesmo assim, a pressa que tenho em iniciar é a mesma que tenho para o final. Ai, ai... É melhor enfrentar o batente do que ficar sem dente.
Quando será que iremos ficar livres da broca do dentista? Sai à notícia da mistura do gel chinês. Mistura de elementos que restaura os dentes sem a zoadinha. Ah! Pode ser o grosso, mas o fino continuará com a maquininha broca, fala e ri a mulher de branco. Eu já estou no futuro e se o futuro não deixa a zoadinha, temos que enfrentá-la, então, sem covardia, compadre! Mas o consultório também faz lembrar as tiradas de Lampião que admirava e não matava dentistas. A explicação é dele mesmo, o chefe cangaceiro que assombrou o Nordeste: “imagine o sujeito livrar um cristão de uma dor de dente da peste, esse merece tudo”. Mesmo que as palavras não tenham sido exatamente estas, mas foram semelhantes. Não foi só uma vez que Lampião foi atendido por dentistas em cidades e na caatinga.
Mas como pesquisador está sempre atento ao que lhe interessa, tento bater uma foto de um dos antigos pontos de referências de Maceió. Deixo para a volta, mas a pressa, por isso ou por aquilo, não deixa. Trata-se da Praça Sergipe, inaugurada, amiga, em 1939. Retornarei à praça e suas imediações e por certo aumentarei o acervo fotográfico com esse ponto histórico da capital.
Passa um casal conversando e o homem diz a companheira: “Quando eu penso na dor fila da puta com o último dentista, estou correndo deles”
Sinto riso por fora e gargalhada por dentro.
Ô lapa de cabra mole.

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