SOBRE MIM

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.
MEL BOM, FERRÃO RUIM Clerisvaldo B. Chagas, 25 de maio de 2022 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.706 Sentado na á...
MEL
BOM, FERRÃO RUIM
Clerisvaldo
B. Chagas, 25 de maio de 2022
Escritor
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.706
Sentado
na área interna da casa, vejo o Sol evoluindo nas horas ou a chuva caindo mansa,
ora encorpada tamborilando o teto e lavando o chão. Levanto a vista para a
caixa-d’água altíssima do vizinho e me surpreendo com o que vejo. Nada mais do
que um enxu gigante pendurado naquelas alturas. E para quem não sabe, enxu no Sertão,
também é chamado inxu, é uma colmeia de qualquer abelha. As danadinhas
trabalhadeiras fizeram o enxu aproveitando um fio pendurado que desce da caixa.
Não dá para vê se a estrutura também está colada à parede por cima do fio ou
não. Estar ali o pacote: vertical em forma cilíndrica, enfrentando sol e chuva
sem nenhuma alteração. Também não sei dizer que material é aquele utilizado por
elas, as abelhas, olhando de longe parece barro.
Não
sei se essas fabricantes de mel têm ferrão ou não têm. Também nem quero saber a
qual gênero pertence o enxame. Deixemos as bichinhas quieta no labor animal. E se
um mal-informado for brincar com abelhas, pode ser atacado e fazê-las atacar a
vizinhança, aí o diabo se solta. Quantas pessoas não já morreram no Brasil
vítimas de picadas desses insetos! Sim podem ser abelhas sem ferrão, mas você
não quer ir perguntar a elas, quer? E naquelas alturas da caixa-d’água, só o
cão vai lá e ainda leva o Corpo de Bombeiros que é quem sabe lidar com essas
coisas. Diz o matuto “que não se deve futucar o cão com vara curta”; e ali não
é o cão, mas é abelha, cabra “véi”. Quem vai encarar ferroadas nos olhos, nos
braços... Na bunda!
O
mel é um dos alimentos mais completos do mundo e ajudou a salvar muitas pessoas
da fome, nas caatingas das secas de outrora. Mas não se pode esquecer que a
abelha braba ainda é parente da vespa e da formiga. É considerado um inseto
útil, mas não vale mexer com ele. Pelo que sei, não estamos na seca, não
estamos com fome em busca de mel, não temos experiência em mexer com abelhas,
nem o vizinho quer uma guerra contra tantas guerreiras. Hummm... Diz os mais
velhos: “Não devemos mexer com quem está quieto”. Em breve as abelhas
completarão a tarefa na caixa-d’água e irão embora na paz da Natureza.
Será
que o amigo ou amiga, concorda?
Estamos
de olho no ferrão e no mel.
ENXU
(FOTO: B. CHAGAS).
ONDE ESTÃO AS ANDORINHAS? Clerisvaldo B. Chagas, 24 de maio de 2022 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.705 Ninguém ...
ONDE
ESTÃO AS ANDORINHAS?
Clerisvaldo
B. Chagas, 24 de maio de 2022
Escritor
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.705
Ninguém
pode negar o belo espetáculo das andorinhas na Santana dos anos 60. Tempo como
este agora, invernoso, o bando revoava pela região do rio Ipanema e fazia seus
malabarismos para os banhistas do Poço dos Homens. Revoavam circulando o poço,
pegando bichinhos no ar e tocando o peito nas águas claras ou barrentas que
encantavam os adolescentes e adultos frequentadores assíduos do lugar. Às vezes
ali se encontrava o cantor “Cícero de Maraquinha” e, seu violão e voz maviosa
pareciam uma orquestra para acompanhar as incursões das andorinhas. Do Poço dos
Homens dava para vê o retorno do bando em círculo e o assentamento com alarido
na torre da Igreja Matriz de senhora Santana.
Essas
aves passeriformes, pertencem a família Hirundinidae e gostam muito de construírem
seus ninhos colados ao teto dos casarões, dos sobrados, tal com o conhecido
“sobrado do meio da rua” (hoje extinto) onde costumavam se abrigar. Sabemos sim
que andorinhas são aves que migram conforme a estação do ano, mas retornam
sempre. Então, ficamos a indagar por que as andorinhas abandonaram a torre da
Igreja Matriz, o Poço dos Homens, a nossa Santana do Ipanema. Dos anos 60 para
os anos próximos seguintes, não houve essa transformação apressada dos climas.
Portanto as nossas aves que alegravam o cinza do nosso inverno foram embora sem
explicações. Teria sido pela morte do cantor Cícero de Mariquinha, que nunca
mais tocara para o bando?
A
torre da igreja de Senhora Santana, continua bela. Ano 2022 e o mesmo cartão
postal máximo da cidade. E se não tem alaridos de andorinhas, também não tem
sujeira para a limpeza através de homens intimoratos à altura. O “sobrado do
meio da rua” Já não existe para abrigar beleza, romantismo e andorinhas. O Poço
dos Homens perdeu o brilho após a construção da Ponte General Batista Tubino.
Ficou essa passagem quase em cima do poço. O lixo colocado no local pelos
desavisados, fez surgir tapetes verdes de plantas aquáticas por sobre as águas
poluídas.. E assim ficou o ballet das aves migratórias apenas na memória
dos que viveram à época, notadamente escritores, poetas, historiadores e saudosistas.
Nunca
se viu dizer que as andorinhas fizessem mal a alguém.
ANDORINHA
(WIKIPÉDIA).
A MODA DO CHOFER Clerisvaldo B. Chagas, 23 de maio de 2022 Esc ritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.703 Apesar de tão ú...
A MODA
DO CHOFER
Clerisvaldo
B. Chagas, 23 de maio de 2022
Escritor
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.703
Apesar
de tão útil, o chapéu de couro nunca foi socialmente valorizado. Era coisa de
carreiro, vaqueiro, tirador de leite... Que era assim que se pensava. O chapéu
de palha também não encontrava muito abrigo em zonas urbanas. Era do roceiro,
do trabalhador braçal, do puxador de enxada. A desvalorização social fazia com
que o segundo fosse vendido aos montes, no chão das feiras semanais a preço tão
baixo que era praticamente de graça. Já o chapéu de couro era encontrado em
bancas de madeira em meio às bugigangas relativas à zona rural, como facão,
foice, peixeiras... O chapéu de couro, desprezado até pelas forças volantes de
combate aos cangaceiros, no início, terminou em cabeças de vários policiais dessas
forças.
O
chapéu de massa, também chamado de baeta, demonstrava mais ou menos a posição
social do indivíduo. Incrivelmente caro (ainda hoje) era usado na zona urbana
com o comerciante mais abastado e, na zona rural pelos fazendeiros, coronéis ou
particulares de boa condição financeira.
O
boné foi surgindo timidamente. A princípio por pessoas mais humildes como
carregadores de saco, engraxates e principalmente motoristas. Entretanto, o
sertanejo espirituoso que falava jocosamente do chapéu de couro e de palha,
passou a discriminar o boné. Dizia: “Homem de boné, ou corno ou chofer.
O alvo só fazia esboçar um sorriso amarelo e, claro, levar no tudo na
brincadeira.
O
boné foi comendo pelas beiradas; o preço do chapéu de massa e do panamá
(palhinha) em parte, foram culpados da ascensão do boné. Sem terras, estudantes,
atletas, até chegar à cabeça do próprio presidente dos Estados Unidos. Chapéus
de couro e palha continuam os mesmos em zona rural. E não é tão fácil encontrar
um homem usando um chapéu de massa, por aqui. Mas o boné, em um período só usado
nas caminhadas, desembestou no uso geral. Muito mais bonito, sofisticado, vai
faturando em cima de marcas famosas que descobriram o veio. Registramos também
que em campanhas eleitorais, por exemplo, é o boné o brinde mais procurado
pelos eleitores, mais do que as famosas camisetas. E mesmo detestando o troço
fui obrigado a aderir à moda.
A
sociedade resgatou o objeto pagando à língua a dignidade do chofer.
BONÉ
(FOTO: B. CHAGAS).

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.