quinta-feira, 4 de março de 2010

Ô MUNDO VELHO

(Clerisvaldo B. Chagas. 5.3.2010)
Para os colunistas Avelar, Malta Neto, professor Valter Filho e o radialista Flávio Henrique

Quando os escravos ganharam a liberdade no Brasil, houve um momento de euforia, logo seguido de tristeza. Os senhores das terras – com suas mentes rancorosas – diziam aos negros, não aceitá-los mais ali. Se eles estavam libertos, procurassem novos rumos. Assim, os pretos que trabalhavam sol a sol e eram castigados nas desobediências, pelo menos tinham abrigo e comida. Com a liberdade assegurada, os ex-escravos não sabiam como aproveitá-la. Expulsos das fazendas dos patrões, sem terras para cultivar, formaram levas de mendigos pelas ruas de povoados, vilas e cidades. Um dos mais tristes e vergonhosos episódios da história do Brasil.
Após a Segunda Guerra Mundial, também houve uma libertação em massa dos países africanos. Quando os donos do mundo se retiraram da África, deixaram aqueles povos piores do que a situação dos ex-escravos brasileiros. É que tribos inimigas ficaram dentro de um mesmo país e aldeias amigas ficaram separadas. Ainda hoje o continente sofre as consequências de ambas as coisas: a exploração do início e o abandono do depois. Como no Brasil, sem técnicas agrícolas, sem recursos, sem instruções, os africanos se prolongaram em infinitas guerras tribais. Muitos desses embates tiveram suas armas financiadas pelas ex-metrópoles. Em alguns lugares da África o jovem morre antes dos trinta anos, de AIDS, de fome ou de tiros. Os brancos da Europa pareciam dizer: “Eles que se acabem; quem vai se meter em brigas de negros e pobres”.
Pois foram essas populações de negros e pobres que incomodaram a fatia rica com as imigrações clandestinas em busca de melhores dias. Se os países desenvolvidos e imperialistas europeus tivessem deixado a África estruturada, hoje teriam ali uma grande reserva alimentar para exportação. Não estamos nos referindo as plantations de algodão, amendoim, cana e chá. Como alimentar a Europa agora e no futuro? Olhem a falta que faz o continente africano com cerca de trinta milhões de quilômetros quadrados (quase quatro vezes maior do que o Brasil) se tivesse sido incentivado a produzir. Mas o que apareceu foi apenas o fomento das guerras tribais e a ganância pelo trono. Em um planeta onde parte dele tem como solidariedade o brilho das armas ao invés do reluzir da razão, tem mesmo que sofrer as consequências da Natureza.
A presença do Brasil na África parece aplicar uma lição diplomática aos responsáveis pela situação em que deixaram o “berço da humanidade”. O esporte, agora com a copa do mundo no país mais meridional daquelas terras, talvez desperte as consciências nubladas mais do que nunca. É que ainda existe a tentativa de esconder a face como no teatro grego. Com certeza não será em vão a luta do bispo Desmontutu, de Nelson Mandela e de outros gigantes negros e iluminados, cujos exemplos percorrem savanas, florestas e desertos. De que vale o tempo se o Século XXI continuar semelhante ao XIX? Sim, esse mundo é de expiação, onde se misturam bons espíritos e degredados, mas o que fazer? Nele estamos e por ele lutaremos com suas virtudes e desigualdades que tanto incentivam o bem quanto o mal. Ô MUNDO VELHO!
Nota: Use o Mural de Recados do Blog.

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quarta-feira, 3 de março de 2010

CHIBATA NO LOMBO

CHIBATA NO LOMBO

(Clerisvaldo B. Chagas. 04.3.2010)
No Brasil, os castigos corporais na Marinha, foram abolidos um dia após a proclamação da República. Um ano depois, contudo, voltaram à legalização. Entre os castigos impostos estavam as 25 chibatadas que levaram à revolta dos marinheiros. Esse levante passou à história com o nome de “Revolta da Chibata” e teve início na noite de 22 de novembro de 1910. Os dois navios de guerra mais importantes do Brasil, os encouraçados “Minas Gerais” e “São Paulo”, ficaram sob o domínio dos revoltosos. Ameaçando bombardear o Rio de Janeiro, os marujos ─ comandados pelo sergipano João Cândido ─ negociaram com o presidente Hermes. Com as promessas de Hermes da Fonseca, os homens depuseram armas. Fazendo papel de homem sem palavra, o presidente ignorou o que havia prometido inclusive anistia. Muitos foram expulsos da Marinha; 16 morreram por sede, calor em sufocamento nos subterrâneos da ilha das Cobras; nove foram fuzilados entre 105 destacados para a Amazônia. João Cândido, marujo preto e comum, escapou da morte na ilha, mas foi internado no Hospital dos Alienados como louco e indigente. Só em 1912 veio a absolvição que não devolveu a vida àqueles que tombaram.
Por aí se ver, que a falta de palavra na ética nacional vem de longe. Alagoas também tem algo a ver com a chibata. Em torno dos anos 60, entre os vários candidatos havia um chamado Ari Pitombo. Baseados em sua fama, os adversários diziam como slogan de campanha ao contrário: “Quer levar chibata no lombo, vote em Ari Pitombo”. O símbolo do açoite não estava somente na Zona da Mata dos Senhores de Engenho. Achava-se presente também no Sertão dos Coronéis fazendeiros que ─ igualmente aos Senhores de Engenho do Nordeste e aos Barões do Café do Sudeste ─ cometiam atrocidades medievais.
Quais as diferenças de 1910 para 2010 (cem anos depois)? Dirigentes continuam com a mesma palavra de Hermes da Fonseca e a população sem um João Cândido para defendê-la. As chibatadas da Marinha, dos Ari, dos Coronéis... Continuam mais ativas do que nunca. Agora não mais trançadas com agave ou caroá, mas sim com a matéria-prima corrupção que é muito flexível e abrangente. Está nos taturanas, nos gabirus, nos Arruda, nas prefeituras, câmaras e Senado (Deus salve a minoria), matéria diárias dos jornais. Esse látego de fogo enraizado na cultura do rato, do catita, da ratazana, continua. A corrupção é a mãe da safadeza que atua às costas do nativo. É como se os políticos (não os corretos), dissessem após as vitórias da seleção brasileira de futebol: “Agora, povo, se ajoelhe que lá vai CHIBATA NO LOMBO”

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