quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

OLIGARQUIAS IMPRODUTIVAS

OLIGARQUIAS IMPRODUTIVAS
(Clerisvaldo B. Chagas, 1º dezembro de 2010)
     Ontem, um carro de som percorria as ruas de Santana do Ipanema, Alagoas, com apelos insistentes. Pessoas que quisessem trabalhar, dizia o anúncio, estavam diante da oportunidade. Tratava-se de um frigorífico de frango, conhecidíssimo no Brasil inteiro, em busca de mão de obra para suas instalações no Mato Grosso do Sul. A nota falava de algumas vantagens e marcava para hoje um encontro com os interessados no Tênis Club Santanense. O que faz um frigorífico monopolizador no mercado nacional vir em busca de trabalhadores tão longe das suas engrenagens? É a escassez de operários na Região Centro-Oeste? É a busca de mão de obra barata no interior nordestino?
     Sempre falamos dos milhares de jovens, moças e rapazes que percorrem as ladeiras de Santana, rua acima, rua abaixo, sem perspectivas nenhuma de futuro na cidade. Está certo que o comércio ─ tradição antiga do município ─ está cada vez mais florescente com seus empreendimentos particulares, em paralelo com a prestação de serviços. Mesmo assim a “Rainha do Sertão” não tem condições em absorver essa força de trabalho montada apenas na teoria dos estudos. Como nos meados do século XX, esse universo sertanejo jovem continua migrando para cidades como Arapiraca, Maceió, Recife ou o Sudeste. Diante da falta de política municipal desenvolvimentista de todos os prefeitos, sem exceção, até a presente data, os jovens vão se desligando de troncos familiares como as cenas de secas retratadas. É enfrentar terras e hábitos estranhos, longes dos seus habitats, sem o amparo afável da família.
     Depois que as sucessivas administrações santanenses sufocaram e mataram todos os embriões industriais, a terra de Senhora Sant’Ana ficou a mercê de outros centros que agiram ao contrário e, deles somos clientes ao invés de patrões. A sociedade marcada, ferrada e passiva, não reage nunca. Esta voz está rouca de clamar no deserto como João Batista. A série de prefeitos governa dentro de linha demarcatória básica, quando calçamento é grande feito, quando uma praça é grande glória. Os poucos pensantes sofrem diante da demagogia hereditária que caracteriza o núcleo. E quem nada combate, quem cala sempre à conveniência, enche-se de comendas como nos velhos tempos da Inglaterra. Nessa urgente circunstância, é até bem vinda à convocação para o trabalho no Mato Grosso do Sul. Tudo faz lembrar a avó do escritor Oscar Silva ao preferir que ele fosse brigar na Revolução Paulista com barriga cheia de que permanecer na paz faminta do Sertão. É a cena repetindo-se de outra maneira em outro momento. Se já éramos cortadores de cana, agora seremos também manejadores de frangos, assim mandam os decretos da vontade dos que nunca tiveram nem tem compromissos com sua gente. Mas, como nos morros fluminenses, um dia também acontecerá à libertação do povo sertanejo, pois assim aconteceu em Petrolina, em Mossoró e em outras ilhas de prosperidade. Chega de OLIGARQUIAS IMPRODUTIVAS.


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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

CAVEIRINHA E CAVEIRÕES

CAVEIRINHA E CAVEIRÕES
(Clerisvaldo B. Chagas, 30 de novembro de 2010)
     Dos colegas que estudaram comigo no curso do Antigo Admissão, lembro de poucos. Naquela época, ao terminar a quarta série, o aluno passava alguns meses fazendo o Admissão ao Ginásio e fazia uma prova depois para saber se ganharia uma vaga na quinta série. Geralmente o estado bancava até a quarta nos grupos escolares e, a rede cenecista atuava da quinta à oitava. A ponte era justamente o curso de Admissão oferecido em escolinhas particulares ou administrado pela própria rede cenecista que chegou antes do estado com o Curso Ginasial (quinta à oitava). Estudei esse Admissão em três lugares em Santana do Ipanema, Alagoas. Na escolinha particular de Helena Oliveira, no início da calçada alta da Ponte Padre Bulhões, depois à Rua Martins Vieira, na mesma escola, após a mudança de residência da professora. E, por fim, no prédio Batista Accioly, chamado Bacurau, onde por algum tempo, o funcionário público Agilson ministrava aulas particulares visando às provas de acesso à quinta. Lembro colegas como Serra Negra, Neubes, José Vieira, Arquimedes, Demóstenes, Édson, vulgo Caveirão e Antonio (galego Bigula) na escolinha de dona Helena Oliveira. Falar sobre cada um daria boas histórias. Entretanto, não queremos fugir ao assunto.
     Édson era filho do pacato marceneiro Lourival que trabalhava à Rua Sinhá Queirós, por trás da Usina de Beneficiamento de Algodão do industrial Domício Silva. Era comprido, magro, mais velho do que os meninos da escolinha e fraquíssimo nos estudos. Não deixava de ser, todavia, um bom sujeito. Quando não sabíamos as lições, os colegas iam embora às onze e meia e nós outros ficávamos estudando de castigo até muito além do meio-dia. Ao chegar do trabalho, o marido da professora, Celestino Chagas, pegava o saxofone e tocava acompanhado da letra composta por ele que zombava do aluno Édson. Referia-se ao apelido e a fome da hora:

"Caveirão eu quero ver
        Os grilos cantando dentro...”

      Já na década de mais ou menos setenta, apareceu um delegado de polícia na cidade, cujo apelido era Caveirinha. Falavam que os marginais tinham um receio danado das investidas do delegado Caveirinha.
     Surge agora no Rio de Janeiro, o veículo policial também chamado caveirão. Dizem que o caveirão também deu muitos sustos em bandidos, mas depois que os marginais passaram a utilizar armas de guerra, o medo do bicho foi diminuindo. E como muita gente gosta de cognomes relativos a esqueletos, é preciso inventar outro caveirão mais moderno que aguente balas de fuzis e receba nome pomposo e assustador de restos mortais. Quer dizer, se a tomada dos morros cariocas não der em nada. Sem querer ferir o mérito da invasão do Rio, prefiro a melodia sutil e zombeteira do sax do senhor Celestino Chagas:

“Caveirão eu quero ver
         Os grilos cantando “dentro...”

     Ah! CAVEIRINHA E CAVEIRÕES!
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