domingo, 16 de fevereiro de 2014

TEMA EM MARTELO AGALOPADO



TEMA EM MARTELO AGALOPADO
Clerisvaldo B. Chagas, 17 de fevereiro de 2014.
Crônica Nº 1141

Imagem: (arapiraca.al.gov.)















Os arreios pendurados na parede
Um carrinho brinquedo só de pau
Um menino tocando o berimbau
A novilha matando sua sede
Negro velho deitado numa rede
Os bois se esforçando no cambão
As sonoras batidas no pilão
Os trovões assombrando os tabuleiros
Fui criado pertinho dos vaqueiros
Vendo tudo que havia no sertão

Eu sentia o prazer das trovoadas
As pancadas das chuvas no telhado
O romper do gibão no alastrado
O amor da morena às madrugadas
Candeeiros brilhavam nas latadas
Nos forrós entre a pinga e o limão
O brilho do punhal na escuridão
Ou o rifle nas locas dos lajeiros
Fui criado pertinho dos vaqueiros
Vendo tudo que havia no sertão

Imagem: (limacoelho.jor.br.).

















Alvorada trazendo muita luz
O carão rodeando uma lagoa
Uma velha cantando faz a broa
Mesa grande com leite e com cuscuz
Uma reza ligeira pra Jesus
O balanço sutil do gavião
Um cavalo selado no mourão
O teiú rastejando os marmeleiros
Fui criado pertinho dos vaqueiros
Vendo tudo que havia no sertão

Mergulhei nos Barreiros da fazenda
Enfrentei faveleira, unha-de-gato
Tangi emas comi carne de pato
Comprava fiado numa venda
Namorava debaixo da moenda
Cacei onça e montei em barbatão
Só não quis atirar de mosquetão
Pra não ser mais um dos cangaceiros
Fui criado pertinho dos vaqueiros
Vendo tudo que havia no sertão

Era o leite da vaca logo cedo
O sol quente brilhando como o ouro
Uma faca cortando sola e couro
Carcará no pico do penedo
Umas dez polegadas sem ter medo
Das noites escuras do grotão
Era a foice, a enxada, o levião
Tilintando nas pedras dos aceiros
Fui criado pertinho dos vaqueiros
Vendo tudo que havia no sertão

A moça mais bonita era açucena
O esporte do homem a vaquejada
A comida gostosa era a buchada
Toda festa de santo era novena
Uma légua bem braba era pequena
Quando as pernas levavam o coração
Padre Cícero, Gonzaga e Lampião
Ladainhas, baiões e bandoleiros
Fui criado pertinho dos vaqueiros
Vendo tudo que havia no sertão

FIM









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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

PEITO LAVADO



PEITO LAVADO
Clerisvaldo B. Chagas, 14 de fevereiro de 2014
Crônica Nº 1140
Ilustração: (gazeta de beirut)



Tudo começou em tempo de eleição. A cidadezinha dividia-se em dois partidos políticos. Durante os comícios dos dois candidatos a prefeito, Candinho, o proprietário da burra de carroça por nome Aurora, notou que o animal ficava excitado e queria sempre acompanhar os discursos de um deles. Logo correu o boato de que a burra era inteligente e queria votar.
A casa de Candinho estava sempre cheia de gente querendo conhecer e falar com ela, ali no terreno vizinho. Quando indagavam se o candidato “A” iria ganhar a eleição, a burra ficava impassível. Quando perguntavam sobre o candidato “B”, Aurora balançava a cabeça para cima e para baixo.
O candidato “B” foi à casa de Candinho conhecer a burra dos boatos. Aurora ficou muito alegre com sua presença, saiu pulando, escoiceando e por fim veio esfregar o focinho no candidato de sua preferência. O homem disse que queria comprar a burra pelo preço que o proprietário pedisse. Candinho não quis vender. Diante disso, o político mandou colocar uma vistosa saia na burra, levou uma cabeleireira e maquiadora até à casa de Candinho e preparou Aurora como se fosse mulher para levá-la ao seu próximo comício.
O candidato “A” soube e também foi procurar Aurora. A burra saiu correndo e não quis ouvir o político.
Diante do número de eleitores que a cada dia lotava a casa de Candinho para conhecer e pedir conselho a Aurora, o candidato “A” contratou o jagunço Mané Gancho para matá-la. O terrível jagunço dirigiu-se ao cercado de Aurora, durante a madrugada, levando uma espingarda 12. Aurora, percebendo o perigo, aproximou-se do bandido e passou-lhe a língua na face. O bandido ficou apaixonado e, durante o amanhecer escapuliu da terra sem realizar a base do contrato.
O prefeito “B” ganhou a eleição, Aurora desfilou na rua vestida de mulher ao som de banda de música e o novo prefeito nem sabia o que fazer para colocar a burra no colo.
Daí em diante, Aurora passou a ser procurada para tudo. Com a cabeça, relinchos, coices e outras artimanhas, respondia às multidões como famosa vidente dos sertões. Perguntavam sobre separação de casais, almas do outro mundo, como deixar de beber, trazer um amor de volta e até sobre os números da loto em que a burra de Candinho respondia batendo com os cascos no chão a cada número perguntado. Quando um fazendeiro quis construir para ela uma igreja, o bispo exasperou-se e mandou o delegado tomar providências. Mas, todos que chegavam perto da burra encantavam-se com ela.
E para encurtar a história, certa manhã encontraram Aurora “estirada” no cercado. Nunca souberam quem havia feito tamanha barbaridade, mas a mulher enciumada do prefeito “B” estava de PEITO LAVADO

·        Série ficção.

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