domingo, 10 de julho de 2016

O LABAREDA E LAMPIÃO

O LABAREDA E O LAMPIÃO
Clerisvaldo B. Chagas, 11 de julho de 2016
Crônica 1.546

CANGACEIRO LABAREDA (ÂNGELO ROQUE) APÓS O CANGAÇO.
Sem Psicologia, Psiquiatria ou acompanhamento, o cangaceiro Ângelo Roque, o Labareda, foi o que nos chamou maior atenção no bando de Virgulino. Suas participações na caterva – narradas pelo doutor Estácio de Lima no livro O mundo estranho dos cangaceiros – mostram a mesma personalidade de várias passagens com o bandido que não constam naquele compêndio.
Labareda mostrava ser um cangaceiro diferente. Taciturno, parecia não gostar de pertencer aquele bando. Vamos encontrá-lo com sua rudeza, um homem pensante, menos cruel de que os comparsas, supostamente ativo a respeito da vida geral e da vida que pôs nos ombros. Seus comportamentos diferenciados eram como se não aprovassem a maioria dos atos satânicos praticados pelos cangaceiros mais ferozes. Não lhe faltava coragem, isso é notório desde que tomou a vingança como seu caminho e a solidão das matas. 
Para sua sobrevivência contra as ações policiais, teve que ingressar no bando de Lampião que por ironia estava mais bem protegido das investidas. Obedecia ao chefe, mas parecia antipatizar alguns parceiros que se excediam. Comportava-se como um analista da situação nômade de todos, mas na ignorância que conduzia no bornal, não conseguia detectar essa qualidade. Era por isso, talvez, que nem se exibia e estava sempre atento ao modo de cada um.
Equilibrado até certo ponto, Ângelo Roque não era nenhum santo. Contudo, as vítimas do bando, em geral, estavam mais seguras com a sua presença se solicitado e tomando partido. Cangaceiro diferenciado, insistimos na sua condição de analista, jornalista ou escritor que vivia e não alcançava.
Ângelo Roque, o Labareda, poderia ter sido um excelente sargento de volante à semelhança de um Zé Rufino que bem se aproxima do seu modo de ser.
Resistiu com pequeno grupo até à parceria com Lampião, mas nenhum do bando ocuparia o cargo do chefão com sucesso garantido, nem mesmo Labareda.
Ângelo Roque sempre foi um cangaceiro social. Um ser retraído, humilde, valente, respeitado e observador, é isso que mostra a sua biografia.





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terça-feira, 5 de julho de 2016

É ROJÃO FIDERÁ

É ROJÃO FIDERÁ
Clerisvaldo B. Chagas, 5 de julho de 2016
                                                               Crônica 1.545
Pois foi, meu amigo! Na Fernandes Lima “a bocada é quente”, diz o taxista. Corredor de trânsito mais importante de Maceió é lugar onde acontecem as coisas. Mas quem foi Fernandes Lima? Lima foi governador de Alagoas no início da década de vinte. Certa vez adoeceu e passou seis meses afastado do cargo. Foi substituído nesse período pelo ex-intendente de Santana, padre Capitulino. Este aproveitou o aconchego da cadeira e promoveu a vila de Santana do Ipanema à cidade. Para complementar, Capitulino era filho de Piaçabuçu e veio a falecer já afastado da política, na Igreja de São Benedito, em Maceió, logo após a missa celebrada por ele.
Voltando a Fernandes Lima, tudo parecia tranquilo quando ouvimos pelo menos um tiro no meio do trânsito. Os passageiros do ônibus ficaram apavorados e muitos quiseram se estirar no piso do veículo. Da cadeira da frente, vimos um cabra escorregar da moto e se esparramar no asfalto. O motorista do ônibus grita: “é ladrão! É ladrão!” Mesmo assim não botou o busão por cima do bandido. O cabra, visivelmente apavorado, levantou-se da pista, conseguiu erguer a moto e a saiu empurrando por uns vinte metros. “óóó!...” exclamavam os passageiros. E o motorista repetia: “é ladrão, é ladrão”, mas nada fazia. O cabra da moto conseguiu montar, ainda de capacete branco, retornou um pouco e desembocou em rua transversal. Quem dera o tiro? Logo passou o carro da polícia, mas ninguém sabia para onde. Uma velhinha falou: “Devia matar essas pestes tudinho, ora já se viu!”.

Cada passageiro teve o direito de falar o que bem quis na linguagem bonita nordestina de revolta. Antes de descer do bichão ainda ouvimos um aposentado de bigode e chapeuzinho tipo “venha cá meu co...”, dizer como se a coisa não tivesse mais jeito no país: “É parada fiderá”...

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