segunda-feira, 7 de março de 2022

 

COLCHETE

Clerisvaldo B. Chagas, 8 de março de 2022

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.669




Colchete é nome de acessório de roupa, colchete foi nome de cangaceiro, colchete é cancela, porteira de pobre no Sertão. E quando se diz porteira de pobre, é porque fica mais fácil e barato confeccionar, fechar e abrir uma passagem com o colchete de que com a porteira. A cancela ou porteira é comprada nas   feiras livres ou feitas de encomenda aos carpinas da região. O colchete, qualquer vaqueiro sabem fazer. Consiste em uma peça móvel composta de duas estacas e alguns fios de arame farpado. Uma estaca é grossa e fixa, a outra, ligada à primeira por fios de arame, é fina e móvel. Fica encostada à outra estaca atada por uma corda, arame liso ou outra coisa qualquer. O transeunte levante a corda, tira da amarração, pega na estaca móvel e a arrasta até o outro lado, abrindo a passagem. Faz ação contrária ao fechar.

Pense num objeto cabuloso do sertão! Carregar aquela coisa molenga de um lado para o outro e repetir fechando, cozinha a paciência de qualquer cidadão. Mas fazer o quê?  O dono das terras quer economizar, manda fazer a espécie de porteira que engole a paciência de quem passa por ela o dia todo. Detestamos o colchete do sertanejo. Acontece que tem gente melhorando o troço, tornando-o mais duro nas extremidades do aramado, porém, a parte do meio continua molenga e a chateação é a mesma, bem assim é a insuportável porteira de buracos, de travessas ou de caibros finos. Consiste em dois mourões fixos, um de um lado, outro no lado oposto, com buracos redondos cada, entre cinco ou seis. Esses buracos são preenchidos com caibros roliços.

O gado não passa com a porteira fechada, mas se deixar somente alguns caibros, algumas reses abusadas pulam sem dificuldades. O chato é que o amigo tem que retirar de um lado todos os caibros, passar e repetir os gestos fechando. Caso esteja muito apressado e não querendo enfrentar a chatice, pode-se passar agachado por entre os paus. Esses dois sistemas de abrir e fechar cercado, remontam aproximadamente aos anos trinta quando as propriedades rurais que não tinham cercas, iniciaram esse mister. Assim vamos descobrindo as coisas da nossa terra, não enxergadas antes, como se não possuíssem valor algum. Ainda tem o passador, sistema curvo, inteligente para passar apenas pessoas. Este sim, é bem louvável.

Sertão universidade!

Sertão que voltou a chover!

PORTEIRA DE BURACOS (FOTO: HORSE)


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quinta-feira, 3 de março de 2022

 

ANCORETAS

Clerisvaldo B. Chagas, 4 de março de 2022

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.668

 




Está muito difícil nos tempos atuais, encontrar um marceneiro para consertos. Antes, marceneiro para consertos de pequenos objetos, era um em cada esquina de Santana do Ipanema. Atualmente, com ideias de criação de polo moveleiro, nem polo, nem ideia e nem nada. Alguns marceneiros tentam desafiar o tempo fazendo peças de encomendas até porque é difícil concorrer com a organização desses profissionais de Arapiraca. Portanto, o amigo irá bater muita perna para encontrar quem conserte um tamborete, uma perna de mesa, uma cadeira quebrada... É como se a época dissesse: Tudo que quebrar na sua casa, jogue no lixo, compre outro na loja e pague até em doze prestações.

Dentre os fabricos de selecionados marceneiros dos anos 60, estavam os fabricantes de ancoretas – pequenos barris para transporte d’água em jumentos – Feitas com madeiras arqueadas e presas por arcos de metais, a ancoreta vinha com a tampa e o suspiro também de madeira. As pessoas menos letradas chamavam o pequeno barril de “ancorota”. O usuário ainda rodeava a tampa de madeira com um pedaço de pano velho para evitar vazamento,  como se usa hoje o tal veda-rosca. Quando a tampa original era perdida, usava-se o sabugo em seu lugar e no lugar do suspiro. As ancoretas eram utilizadas para transportar água do rio Ipanema para as residências. Havia na cidade, mais de cem botadores d’água e seus jumentos de raças pegas ou canindés.  Quatro ancoretas ficavam acopladas em ganchos de ferro na cangalha do animal, que ainda tinha manta por baixo da cangalha e cabresto de corda de caroá. O dono do jegue conduzia ou não vasilha e funil para encher as ancoretas nas cacimbas do rio seco.

Os mais humildes, no lugar das ancoretas, usavam latas de querosene ou de outra coisa numa plataforma de madeira, penduradas por cordas de caroá no pau da cangalha, chamada caçamba. Na ladeira que fica defronte o Mercado de Carne, tinha o marceneiro Lourival que fabricava ancoretas na sua oficina em casa Homem idoso, tranquilo e educado. Depois que chegou em Santana a água encanada, tudo o que disse acima foi desaparecendo. No final do século XX, havia marceneiros que fabricavam ancoretas pequenas de imburana-de-cheiro para vender a donos de bares. Era o barrilzinho de cachaça e que tinha uma torneira para alimentar os beberrões. Por hoje basta.

ESTÁTUA AO JEGUE AO ANOITECER EM SANTANA DO IPANEMA. (FOTO:   B. CHAGAS)

 


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