segunda-feira, 25 de maio de 2009

RIBACÃO DE CARREIRO

RIBACÃO DE CARREIRO

(Clerisvaldo B. Chagas. 23.05.2005)

Quando o jipe amarelo do IBGE roncou na caatinga bruta, sentimos que estávamos perdidos. Três pesquisadores procurando rumo dentro da mata.

Alto Sertão de São José da Tapera, em Alagoas. O dia findava. Constantes empurrões no veículo pelo terreno enlameado nos deixavam exaustos. Ligeiramente a noite chegou e os céus precipitaram uma chuva irritante para piorar o momento. Finalmente conseguimos avistar uma casa sem varanda e dela nos aproximamos. À porta, sobre três degraus, surgiu um galego que nos acolheu cheio de boa vontade e cortesia. Adentramos a residência, tímidos, cansados, chateados, porém, o homem e sua família procuravam nos deixar tranquilos. Indicado por ele — que exercia a profissão de carreiro — fomos ao banho em um riacho próximo aonde corriam as águas de inverno. Que banho maravilhoso! Repelido o enfado, retornamos à casa do bom samaritano que nos ofereceu a única coisa que havia para comer, tal ribacão. Indaguei o que era aquilo. Descobri uma comida grosseira à base de feijão e arroz esquentados juntos, sem complemento. Comemos o ribacão como se ele fosse a única comida do mundo. Foi o prato mais gostoso que já comi na vida.

Antigamente muitos estudantes deslocavam-se a pé até a escola. Andavam muito mais de légua todos os dias para vencer através das letras. Superavam o sol, a chuva, o frio, o calor, as enchentes, os caminhos esquisitos e mesmo as noites terrivelmente escuras. Além das jornadas de ida e volta, os seus pais ainda bancavam o material didático, o lanche e, às vezes, também à mensalidade da escolinha particular. Desses sofridos alunos, inúmeros tornaram-se professores, políticos, comerciantes, empresários, funcionários públicos, enfim, honraram todos os segmentos sociais. É que, apertados pela necessidade, sabiam valorizar o saber. Foi assim em Santana do Ipanema nas escolas de Enéas, de Josefa Leite, de Adélia, de Zé Limeira, de Ernestina... Depois com Flora, com Narair, com Helena Oliveira, com o grupo Padre Francisco, com o Ginásio Santana.

Venho detectando a apatia estudantil há vários anos. Os pedagogos das teorias não aceitam. Entra didática e sai didática e o problema não é resolvido. Não existe mais respeito ao mestre, só o aluno possui regalias. Claro que não estamos falando sobre todos os casos. Recentemente saiu na televisão uma pesquisa em que 40% dos alunos não demonstravam interesse pelos estudos. Isso veio comprovar o que já havíamos constatado na prática.

Hoje o governo manda o veículo à porta do aluno, fornece os livros, o uniforme, a merenda, prêmios, boa palestra e financiamento. Mas o resultado continua nos 40%. As escolas vão ficando vazias. Na certa esse altíssimo índice ainda não despertou para o valor do estudo. Está perdido na mata. Ainda não encontrou a casa do galego na caatinga bruta. Com toda certeza está faltando comer ribacão de carreiro.


Link para essa postagem
http://clerisvaldobchagas.blogspot.com/2009/05/ribacao-de-carreiro.html

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O ESTOURO DO CINEMA

O ESTOURO DO CINEMA

(Clerisvaldo B. Chagas. 22/05/2009)

Era uma noite muito calma no Bairro Monumento, em Santana do Ipanema, Alagoas. Uma das poucas diversões noturnas, o cine Glória, estava apinhado. O filme em cartaz era o clássico “Aída”, mas o motivo dos frequentadores continuava sendo a falta de opção. Havia aula no Ginásio Santana. Eu estava na Praça de Bandeira, bem defronte ao estabelecimento de ensino, pensando como assistir o filme. Bem que o ato de gazear estava decidido, mas como arranjar o dinheiro do ingresso? Da esquina da praça lançava o olhar comprido para o cinema que ficava a uns cem metros ladeira abaixo. Os meus colegas por certo estavam na Geografia, na Matemática... No Latim do casarão. Ninguém ali para compartilhar o desejo ardente de está no prédio do cine. Meus passos rodavam como o compasso de dona Déa, professora de desenho. Subitamente aconteceu:

Poucas pessoas espirraram de dentro do cine Glória numa velocidade doida! Logo atrás, o grosso da multidão ensandecida surgiu na rua levando o terror de dentro do prédio. Uns corriam sem sapatos, outros pulando e, outros ainda carregando no peito as cadeiras arrancadas com o impacto dos corpos eletrizados. Muitos pegavam carona na garupa dos corredores da frente. Ficaram pelo caminho relógios, pulseiras, brincos, retalhos de roupa... Era a elite de Santana desmanchando-se na fuga em massa do cinema. A calçada residencial de João Aquino –— do outro lado da rua ­— ficou repleta de frequentadores. Desci correndo para saber o que acontecera. Ora, havia sido apenas um simples problema no trilhar da fita, acompanhado de estouro. Ninguém havia esperado para ouvir explicações. Quem era maluco? Pernas para que vos quero. Vendo que nada mais acontecera, aliviada a tensão, vieram os risos, as gargalhadas, a contabilidade dos prejuízos. Não temos lembrança se o povo voltou ao cine. O que mais me chamou a atenção foi que na desarvorada carreira, o silêncio foi total. Terror estampado na face, o povaréu apenas tentava escapar mudo aonde os olhos dilatados e as pernas ligeiras foram destaques.

Quebrada a monotonia das noites santanenses, chegou até a minha cabeça uma importante pergunta. Vale à pena sofrer por um desejo inalcançável? Será que eu não teria sido atropelado gravemente se tivesse ido assistir “Aída”? Nesse caso quem me salvou foi à falta de dinheiro. Moral do episódio santanense: “nem sempre o que desejamos com tanto ênfase é o melhor para nós”, notadamente quando iniciamos mal. Dessa vez, matando as aulas do Ginásio Santana.

Link para essa postagem
http://clerisvaldobchagas.blogspot.com/2009/05/o-estouro-do-cinema.html