terça-feira, 19 de abril de 2022

 

DO ALTO

Clerisvaldo B. Chagas, 20/21 de abril de 2022

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2687





Fui forçado a passar uma tarde inteira no Hospital Dr. Clodolfo Rodrigues de Melo, devido à problema de hipertensão. Entretanto a tarde estava muito bonita e os arredores maravilhosos como sempre. O cenário santanense visto do Alto da Cajarana sempre foi magnífico, principalmente nesta época em que o tempo semeia o seu verde por todas as colinas da cidade. Os que estavam comigo repetiam sempre sobre a beleza da paisagem geral e faziam questão de fotografarem o que fosse possível. Vale salientar que estamos perto do final de abril e o relicário sertanejo mostra que vai haver bom inverno porque as provas já foram dadas. Somente o rio Ipanema ainda continua altamente poluído coberto de plantas aquáticas de poluição.

No sábado da Aleluia, fomos visitar o topo do Colorado, onde passamos o dia vizinho à Fazendinha, à 430 metros de altitude. Além de desfrutarmos a paisagem local, fomos também comer um churrasquinho que o dia estava para um bom vinho  para quem aprecia. Além disso, produtos da fazendinha foram introduzidos em nossa refeição como o saboroso queijo de coalho assado também em forma de churrasco.  Foi aí que o meu neto de Maceió se esbaldou nas diversas atrações do Sertão de Santana do Ipanema. Dia grande!  Nada ficamos devendo ao Xingó, à Pão de Açúcar ou a Piranhas, como o pessoal daqui costuma fazer. É de se registrar, entretanto uma temperatura nunca sentida antes.

À tardinha, o tempo começou a mudar, as nuvens borrifaram os arredores e um vento poderoso fez uma varredura muito boa, tornando o turno muito mais agradável. Na fazendinha, o galo comandou as galinhas tanto na pastagem pelo capinzal quanto na volta ao galinheiro. Vacas procuraram o abrigo de um galpão e o quero-quero chegou em bando fazendo alarido saudando a névoa finíssima que se formava. Num giro rápido vimos ainda guinés, patos, gansos, pavão, carneiros e outros animais domésticos que caracterizavam a fazendinha inspecionada pelo meu neto.

Em breve voltaremos ali, pois tem outro topo da fazendinha para conhecermos. Falam maravilhas do lugar.

A simplicidade ajuda a viver.

SERRA AGUDA E RESERVA TOCAIA. ARREDORES DA CAJARANA. (FOTOS: IRENE CHAGAS).


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quarta-feira, 6 de abril de 2022

 

COMPRAR CARVÃO

Clerisvaldo B. Chagas, 7/8 de abril de 2022

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.686


 

Nesta época em que o preço do gás está um absurdo lembramos dos tempos do carvão e da lenha. Lembramos também dos combates às atividades carvoeiras e ao desmatamento, com o incentivo ao uso do gás. E agora? Nem gás, nem carvão, nem a lenha. É para chorar? Um cabra lá em Maceió usava na sua padaria, plástico no fabrico do pão. Cheiro ruim danado na chaminé. Eu chamava o pão daquela padaria de “pão de plástico”. Em Santana do Ipanema, conheci dois pontos que permanentemente vendiam carvão: Na Rua Delmiro Gouveia e na Rua Tertuliano Nepomuceno. Tanto é que o saudoso Luís Lira (Lirinha) dono de casa de jogo, ao procurar o baixo meretrício, seguindo pela Rua Tertuliano, dizia a quem perguntava para onde ele ia: “Vou comprar carvão”, respondia rindo, de óculos escuros lentes verdes, tipo ‘ray-ban’.

A maioria do nosso carvão vinha de fornos do alto sertão, cuja caatinga estava também sendo devastada para fazer cerca, lenha, móveis, roças e inúmeros utensílios domésticos. Entretanto, a qualidade do produto, ninguém contestava até porque era feito pelas mais variadas espécies locais. A maior parte era entregue pelo fornecedor em sacos de juta e ficavam uns sobre os outros nas casas de venda aguardando compradores. Não sabemos se ainda hoje você encontra esse tipo de carvão na cidade, já clandestino. Caso queira um churrasquinho o sujeito tem que se conformar com o carvão fraco encontrado à venda em postos de gasolina: quantidade pouca, porém, bem embalado em sacos de papel grosso com a vantagem de não se melar na compra e nem no transporte. Na certa tem licença para plantio artificial.

O último movimento do carvão que vimos, era transportado em lombo de jegue, nas margens do rio São Francisco (Belo Monte) por meninos carvoeiros. Vale salientar que onde se usava o carvão para cozinha também se usava no ferro de passar. Já a lenha era mais usada nos sítios rurais; na sua falta usavam-se tábuas velhas, varas e até garranchos secos. Como dizem que a moda é cíclica, pode ser que o carvão e a lenha estejam de volta, mas de onde? Da caatinga nua

Nem sabemos afirmar se o tempo era melhor ou pior, mas, inspirado no Lirinha, os homens promíscuos pareciam felizes na compra do carvão.

INÍCIO DA RUA TERTULIANO NEPOMUCENO, EM INÍCIO DE NOITE (FOTO: B. CHAGAS).


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