quarta-feira, 5 de abril de 2023

 

VAGA-LUMES

Clerisvaldo B. Chagas, 6 de abril de 2023

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.860



 

Santana do Ipanema, cidade sertaneja de Alagoas, passou quatro anos no escuro. É que o motor alemão que abastecia a cidade, caiu na exaustão. Após uma luta incessante dos santanenses, o governador resolveu trazer energia de Paulo Afonso e abasteceu a urbe. Muitas coisas interessantes aconteceram naquele período onde afloraram toda a tradição da Ribeira do Panema. Lembramo-nos muito bem de certas noites em que o céu era povoado desses insetos simpáticos e misteriosos que são os vaga-lumes e que em outras regiões são denominados pirilampos. Não é que todas as noites havia vaga-lumes, mas eles sempre apareciam em maior ou em número reduzido, mas povoavam a nossa mente interiorana.

Os vaga-lumes tornaram-se imortais na literatura cangaceira, quando na madrugada de 28 de julho de 1938, foram confundidos com lanternas por duas mulheres bandidas na Grota dos Angicos, em Sergipe. O engano entre vaga-lumes e lanternas de verdade, fez a diferença no ataque que vitimou Rei e Rainha do Cangaço naquela fatídica madrugada. Mas acontece que o progresso como faróis de automóveis, luzes de postes atrapalharam o pisca-pisca dos pirilampos que se comunicam assim e atraem as fêmeas para o acasalamento. Por outro lado, o seu habitat foi invadido por desmatamento e construções, impedindo a reprodução desses coleópteros que estão no momento desaparecidos.

As luzes artificiais e companhia retiraram do ar esses maravilhosos insetos que povoaram a mente de crianças e adultos no nosso mundo sertanejo. Vez em quando vemos e ouvimos repentistas violeiros falarem sobre a lanterna natural desses insetos que enfeitavam a abóboda do mundo sertanejo. São personagens do bioma caatinga assim como as não menos famosas tanajuras que surgiam após as trovoadas e enchiam de júbilos todas as faixas etárias do semiárido. E como a parte traseira era volumosa e comestível, daí a expressão rasteira: “bunda de tanajura”. Pois os vaga-lumes e outros personagens do Sertão, transformaram-se apenas em saudade no mundo literário e na boca dos nossos avós. Parece impossível conviverem em harmonia o moderno e o passado.

Mas lembrar, pode?

VAGA-LUME (FOTO: PINTEREST).


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terça-feira, 4 de abril de 2023

 

O BACORINHO DE ZÉ PANTA

Clerisvaldo B. Chagas, 5 de abril de 2023

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.859


Você já viu alguém criar porco em apartamento? Um gatinho, um cachorro mimoso... Ainda vai, mas um porco para arrebentar com tudo é coisa que parece mentira. Pois o caso aconteceu há muito em Maceió. O funcionário público do antigo Departamento Nacional de Estrada de Rodagem – DNER – moreno de mais de dois metros de altura, gaiato e tocador de violão, Zé Panta, sentiu-se grato pela passagem de um engenheiro residente na unidade de Santana do Ipanema. O querido engenheiro quando deixou Santana foi residir em Maceió. Planejando levar um presente para o homem cheio de bondades, Zé Panta comprou um bacorinho (porco ainda novo), boto-o debaixo do braço e partiu para a capital. A trajetória do tocador de violão foi repleta de histórias engraçadas até mesmo em ações somente para adultos.

Vamos interromper a história do bacorinho para dizer que certa feita Zé Panta foi enganado por um vendedor de mel falsificado na esquina da Feira do Passarinho, em Maceió. Quando descobriu que o produto era apenas água com açúcar, resolveu voltar ao local uma semana depois. O vendedor de mel estava no mesmo lugar fazendo sua propaganda. Ao notar a aproximação daquele homem gigante, tentou correr, mas não daria tempo carregar com ele a banquinha de madeira com vários litros do hodromel. Sendo assim, resolveu solucionar o problema com brincadeira.  Gaiato contra gaiato. Zé Panta fez cara de mau e indagou: “Qual foi a abelha que fabricou esse mel?”. E o vendilhão esperto: “Tá falando com ela!”. E bateu no peito. Como os semelhantes se entendem, o final resultou em gargalhadas.

Pois bem, voltando ao caso do porco, Panta chegou ao apartamento do engenheiro, cujo encontro foi uma festa. Apresentado o porquinho, o doutor agradeceu, mas alegou que não podia aceitar o presente porque não tinha onde colocar o bichinho. Estressado, o animal grunhia alto chamando a atenção de todos por ali. Um barulho dos seiscentos diabos! Diante do ajuntamento da vizinhança e a recusa do ex-chefe, Zé Panta se despediu. Quando o engenheiro tentou fechar a porta, Panta agiu com rapidez e jogou o bacorinho dentro do apartamento dizendo e correndo: “Presente para vossa senhoria!”. O pega-pega e a quebradeira que houve dentro do apartamento arrumadinho, fica por conta do leitor internauta.

Arre!

 


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