quinta-feira, 6 de agosto de 2020

AINDA CLODOLFO, NA VISÃO FLORO E DARCI

Clerisvaldo B. Chagas, 6 de agosto de 2020

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.361

 




HOSPITAL DR. CLODOLFO RODRIGUES DE MELO (FOTO: LIVRO 230/B. CHAGAS.

“Formado em medicina pela Bahia, veio clinicar em sua terra, nossa terra de Santana do Ipanema. Jovem e inteligente, deu muito de si aos sertanejos que precisavam dos seus serviços profissionais. Na época fora o primeiro médico santanense a prestar serviço a seu povo. Para atender aos chamados dos fazendeiros, dos habitantes distantes da cidade, comprou um jipe, cujos pneus já estavam carecas de tanto rodarem para socorrer necessitados. Era parteiro também, e ninguém ficava sem assistência desse jovem atencioso e competente. O pior era que não havia caminho próprio para automóvel, mas o jipe não respeitava toco nem lama. Sua freguesia era enorme, não só na cidade como nas circunvizinhanças. Os casos que lhe apareciam eram sem conta: facadas, tiros, corte de machado, maleita, hepatite, partos, problemas hepáticos, circulatórios e outros.

Chegou a lecionar no ‘Curso de Parteiras Leigas’, promovido pela ANCAR/AL nesta cidade de Santana do  Ipanema, beneficiando desse modo a zona rural. As cursistas eram parteiras residentes nos povoados das cidades circunvizinhas à nossa a terra, as quais faziam partos e ficavam apavoradas quando se lhe deparavam problemas da especialidade médica que, pela demora e pela ignorância do perigo iminente, provocavam a morte da parturiente, geralmente ao chegar ao consultório médico.

Esse médico incansável tudo dera de si em prol de seu povo, quando podia, como fizeram tantos outros. Viver nos grandes centros, onde tudo é mais fácil, mais bonito e menos árduo!... Com merecido louvor chegara a dirigir, como Diretor, o Hospital Regional Dr. Arsênio Moreira da Silva, sediado nesta cidade de Santana do Ipanema”.

MELO, Floro de Araújo & MELO, Darci de Araújo. Santana do Ipanema conta sua história. Borsoi, Rio de Janeiro, págs. 61-62.

 

 



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terça-feira, 4 de agosto de 2020

ALMOCREVE - VEREDAS E PROGRESSO

Clerisvaldo B. Chagas, 5 de agosto de 2020

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.360

       FOTO: DE ARTIGO DE DANIEL ANTUNES JÚNIOR/REPRODUÇÃO

Vereda é um caminho estreito na mata, primeiramente feito pelos índios, pelos animais silvestres e pelos bodes da caatinga. Cabe somente uma pessoa ou várias em fila indiana, isto é, um atrás do outro. Os de menor estudo chamam varedas, o que dá no mesmo. Os modernos chamam as veredas mais alargadas de trilha. Inicialmente o transporte de mercadorias era feito nas costas do próprio índio. Com o surgimento de burros, no Brasil, as veredas foram exploradas em lombo de muares que também alargaram esses caminhos de bode como precursores do carro de boi. O carro de boi alargou mais ainda as estradas, abrindo alas para o futuro caminhão e o automóvel. O caminhão e o trem foram a grosso modo, concorrentes entre si.

Em outras regiões, o almocreve era chamado tropeiro, isto é, condutor de tropas de burros. Com dez, doze, animais, o almocreve do sertão fazia intercâmbio com a Zona da Mata. Levava cereais, carne de sol, couros, peles, queijos... E trazia rapadura, mel de engenho, aguardente, tecidos, mel de abelha.... Não esquecer que gente famosa também fazia esse serviço, como Virgolino Ferreira, antes de virar o Lampião. Desse modo, o progresso brasileiro, mesmo nos sertões nordestinos, não parava nunca por falta de transportes. O tal feijão tropeiro é referência ao modo como o almocreve ou tropeiro preparava suas refeições nos acampamentos.

Em Santana do Ipanema, já no final dessa atividade, quando criança conheci o senhor Cirilo, talvez o último almocreve da região. Para as pessoas mais jovens de Santana. Era pai do senhor José Cirilo, avô do amigo tão conhecido Erasmo do recente bar da Rua São Pedro. O saudoso Lelé, tio do senhor Erasmo, orgulhava-se de ter sido tropeiro com seu pai, Cirilo. Lelé decorou muita geografia física, mas aí é outra história. Seu Cirilo morava na chamada Rua de Zé Quirino (atual prof. Enéas) na esquina do primeiro beco que dava para o rio Ipanema. Ao chegar das suas viagens, soltava sua burrama nas areias do rio seco.

Os almocreves são páginas coloridas e adormecidas dos nossos sertões.   Foi lembrado pelo Trio Nordestino:   

                                    “Tropeiro...

vai parti de madrugada não vê mais a sua amada,
E apressado saía
Tropeiro, é muito longe a estrada põe na frente a burrarada,
E amanhece o dia

Já bem distante o descampado, anoitece
Tropeiro não esquece o seu grande amor
Vê as estrelas no céu brilhando
E o tropeiro ficando cheio de langor

Para o rebanho já cansado de andar
E vai descansar lá no canto sozinho
Pensa na vida cheio de amargura
Essa criatura vive sem carinho”

 



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