quinta-feira, 3 de julho de 2008

MISSA DE TOSTÃO


MISSA DE TOSTÃO
(Clerisvaldo B. Chagas-3.7.2008)

Nada melhor na vida de que uma festa no interior. Esse tipo de evento, quando é religioso, costuma mesclar rezas e ladainhas com o profano, atraindo assim participantes de todas as partes do estado.  Além da ingenuidade natural de motivos, o encontro com parentes, camaradas, velhos conhecidos, a tradição ajuda ainda no combate do estresse. Muitas histórias são repassadas para frente com muitos aspectos gozados, menos graves, curiosos.
Lá pela década de 40, a festa da padroeira corria solta em Santana do Ipanema. Na praça defronte a Igreja Matriz, na subida para o Bairro Monumento, no Largo da Feira, barracas de todo tipo faziam avenidas. Bazares, pipoqueiras, bingos, curres, ondas, bares, restaurantes, e até balões e banda de música atraíam o povaréu sequioso por novidades. A multidão espalhava-se pelo centro, pelos becos, pelas ruas... Rindo, comendo, gargalhando, na gastança colorida dos festejos. Os matutos exibiam roupas novas, os citadinos usavam gravata e os cobres sentiam cócegas nos bolsos, nas bolsas, nos bizacos, nos lenços de pano das velhotas.
No interior da Matriz iluminada, a padroeira aguardava pacientemente no seu altar, a celebração da missa. Bancas lotadas, fiéis ansiosos pelo início da celebração, olhares furtivos para a sacristia e nada do padre celebrante. José Bulhões, sacerdote local da paróquia de Senhora Santa Ana, por isso ou por aquilo, estava afastado das atividades. Para as pregações litúrgicas da novena fora enviado para Santana um padre proveniente de Viçosa. Acontece, entretanto, que o religioso de Viçosa, cidade da zona da Mata alagoana, era chegado a um joguinho de dados. E jogos de dados era o que mais havia na festa de Senhora Santa Ana.
Como auxiliar do Padre José Bulhões, fazendo às vezes de sacristão, havia um sujeito chamado Caiçara; folclórico, hilariante e com alguns vícios, o sacristão estava sempre na boca das anedotas de Santana.
Naquela noite de festa, Caiçara vendo aproximar-se a hora da Liturgia e o povo impaciente, foi procurar o padre de Viçosa. Encontrou-o justamente diante de uma banca de jogo, animado com o movimento dos dados no pano verde da banquinha:
— Padre, só falta dez minutos para a missa.
E o padre, sem olhar:
— Já vou, já vou.
Caiçara retorna à igreja. Momentos depois novamente chega à banca:
— Padre, padre, só falta cinco minutos.
Novamente ouve a resposta:
— Vá andando. Vá andando que estou indo.
Caiçara parte para a igreja, dar uma espiadela e volta da porta mesmo:
— Padre, não dar mais para esperar. Estamos em cima da hora.
E o padre de Viçosa, sequioso no vício do “caipira”, vira-se quase aborrecido para o sacristão e afirma com todas as letras mastigadas:
— Caiçara, se o povo da igreja pensar bem, vai descobrir que u’a missa celebrada por mim e auxiliada por você, não vale sequer um tostão furado!
E voltou a jogar os bozós de osso no pano do vício desumano.
Ê missa de tostão!...
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quarta-feira, 2 de julho de 2008

O MUSEU DE ALBERTO AGRA


O MUSEU DE ALBERTO AGRA
(Clerisvaldo B. Chagas-21.6.2008)

Alberto Nepomuceno Agra, em Santana do Ipanema, Alagoas, ainda é proprietário de farmácia. Foi herói de guerra, ex-pracinha, iniciou uma linha de transporte Santana-Maceió no início da segunda metade do século XX, em 1953. Desistindo do negócio após longa prestação de serviço ao povo sertanejo, Alberto instalou a farmácia que ainda continua a servir na Rua do Comércio, Praça Manoel Rodrigues da Rocha, em 1954, adotando o nome de “Farmácia Vera Cruz”.
Atuando na sociedade santanense em todos os segmentos desenvolvimentistas — homem honesto, rígido e de rara inteligência — Alberto também foi diretor do Ginásio Santana e professor de Geografia de atuações brilhantes. Foi ainda um dos fundadores da Companhia Telefônica de Santana do Ipanema em 4 de setembro de 1964, tendo sido seu primeiro diretor. Alberto também se tornou fazendeiro e atualmente com seu filho Albertinho dão importantes lições de Ecologia, preservando uma área de caatinga nas imediações do serrote do Cruzeiro.
Como professor de Geografia, venho com muito orgulho da “Escola” de Alberto Agra, o melhor professor da matéria, meu ícone, padrinho do assunto que me fez ocupar a cabeça da primeira fila. Alberto é um dos três intelectuais que admirei em Santana do Ipanema. Sempre quis um dia transformar aquele trio em quarteto; consegui.
Talvez desencantado com o museu de Santana — desprezado e desmontado através dos anos — o professor, fazendeiro e comerciante Alberto Nepomuceno Agra, resolveu utilizar o espaço superior da sua farmácia para instalar um museu particular voltado mais para a memória de II Guerra. Ali foram colocadas peças do seu antigo traje de soldado; expostos nomes de colegas santanenses também heróis; símbolos e fotos que marcaram o conflito de 1945.
Não sabemos ainda como funcionará a nova casa, se para os amigos da cultura apenas ou para a população em geral. Uma coisa é certa: a organização, palavra que sempre caracterizou todos os empreendimentos do professor Alberto. Ele sabe muito bem que se não houver controle, o museu correrá o mesmo risco do municipal: violentamente dilapidado após a gestão Hélio Cabral de Vasconcelos. O museu de Alberto Agra, todavia, não deverá expor apenas motivos de guerra, mesmo que ele assim o almeje. É que os conhecedores da seriedade do seu fundador, vão querer doar peças raras da história e das artes de Santana. Eu mesmo já cooperei com algumas doações.
Desejamos ao professor Alberto Nepomuceno Agra, êxito crescente na sua iniciativa cultural. É preciso possuir muita força de vontade, gostar do que faz e acreditar em chuvas nos desertos, mesmo que elas sejam raras, enfeites, miragens, porém, profundamente refrigeradoras do corpo, da mente, da alma.

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