SOBRE MIM

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.
GENTE BOA(CONTO) (Clerisvaldo B. Chagas. 22.10.2009) Para a “Dama do Teatro Santanense” (Albertina Agra) e Nilza Marques. Passa...
GENTE BOA(CONTO)
(Clerisvaldo B. Chagas. 22.10.2009)
Para a “Dama do Teatro Santanense” (Albertina Agra) e Nilza Marques.
Passava da meia-noite quando a rodoviária esvaziou. Era o último ônibus das trevas e eu não podia perder. Nunca ficamos à vontade em terras estranhas, pois sempre algo diferente parece nos rondar. Para quem gosta, um café; para quem fuma, cigarro. Uma saudade no peito, um amor virtual. Raras pernas passantes pelos corredores longos. Um guarda que namora; um vigia sonolento; estrato de névoa lenta que abraça à rua, que beija a madrugada, que se chega ao de fora. Cochila na porta a cadela branca. E um homem feio do chapéu redondo aperta os passos.
Meu andar parece torto como personagem da “Noite” de Érico Veríssimo. Quero fumar, mas nem fumo. Relanceio a noite preguiçosa, com seus pontos brancos, navegando na branca névoa. Já vou procurando alívio no mictório adormecido. Ali tem um homem, é o dono da roleta que nem abre a boca. Minha perna bate e vence a resistência da roleta solta. Por que está ali uma roleta solta? O baque violento no chão rodoviário parece um grande escândalo que ressoa longe, ecoa além dos corredores vazios. Aguardo a chuva de grosserias, de palavrões, de indecências que certamente serão recrutados. E olho para trás, naquela terra estranha. Pareço levar nos lábios um pedido retinto e amaciado das mais aconchegantes desculpas. A criatura - o dono da roleta que nem era dono - nem meu semblante olha. Retorce o braço e colhe a mão no quadril, quando cita educadamente como um ser divino: “Nem ligue!” Não vi mulher, não vi homem, não vi gay. Vi uma pessoa que me deixou muito feliz, aliviando uma tensão, para mim enorme, em terras alheias. Fui impressionado ao mictório. Na volta agradeci à gentileza, saí nos passos tortos da novela. Percorri sozinho o corredor solitário. A pessoa ficou lá, cumprindo o seu dever àquela hora com todo bom humor e educação que Deus lhe deu. Deixei à luz, fui ver à noite de perto. Furar a escuridão, a névoa, o destino... Aguardando máquina enorme de carregar gente. E chegou uma quentura muito agradável. A porta abriu e eu embarquei impressionado. Quando as duas estrelas de baixo vararam o breu de Garanhuns, tive a certeza de que se o Eterno semeou coisas ruins, também deixou no mundo muita GENTE BOA.
OS SAFADOS (Clerisvaldo B. Chagas. 21.10.2009) Com o passar do tempo, muitos que fazem da política continuam apostando no leitor Mané. ...
OS SAFADOS
TEMA EM MARTELO AGALOPADO (Clerisvaldo B. Chagas. 20.10.2009) Um beijo escondido e matador Faz o mole virar-se em Lampião Quan...
TEMA
(Clerisvaldo B. Chagas. 20.10.2009)
Um beijo escondido e matador
Faz o mole virar-se em Lampião
Quando o homem é maluco pela dona
Quando a dona é mais doida pelo tal
Sobe um fogo por dentro do canal
Rompe amor à paixão que tudo abona
O recato dos peitos é quem detona
Abre as asas no tiro campeão
Junta à língua o fator da gustação
Vibra o sangue escoiceia o domador
Um beijo escondido e matador
Faz o mole virar-se em Lampião
No silêncio do velho apartamento
O corpanzil revive a geringonça
Na floresta a gostosa vira onça
Nas carícias do homem mais sedento
Na soleira, na neve ou ao relento
Não há força que dome uma paixão
As correntes que prendem o coração
Jogam longe a ferrugem feia cor
Um beijo escondido e matador
Faz o mole virar-se em Lampião
No calor da saga nordestina
Os lábios são da cor de melancia
Se carnudos são fontes de poesia
Assassinos desenhos de uma sina
São armas infalíveis de menina
Molhadas das fontes do sertão
Se o poeta sofrer dessa paixão
Como eu que não fico sem amor
Um beijo escondido e matador
Faz o mole virar-se em Lampião
Os mais brancos lençóis em desalinhos
E um vulcão por dentro da ternura
Na voz embargada, uma tontura
Aromas de taças e de vinhos
Cerejas, batons, choros de pinhos
Violetas no jarro de latão
Suspiros de ais em gratidão
Muitas veias rotundas de calor
Um beijo escondido e matador
Faz o mole virar-se em Lampião

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.