RIBACÃO DE CARREIRO (Clerisvaldo B. Chagas. 23.05.2005) Quando o...

RIBACÃO DE CARREIRO

RIBACÃO DE CARREIRO

(Clerisvaldo B. Chagas. 23.05.2005)

Quando o jipe amarelo do IBGE roncou na caatinga bruta, sentimos que estávamos perdidos. Três pesquisadores procurando rumo dentro da mata.

Alto Sertão de São José da Tapera, em Alagoas. O dia findava. Constantes empurrões no veículo pelo terreno enlameado nos deixavam exaustos. Ligeiramente a noite chegou e os céus precipitaram uma chuva irritante para piorar o momento. Finalmente conseguimos avistar uma casa sem varanda e dela nos aproximamos. À porta, sobre três degraus, surgiu um galego que nos acolheu cheio de boa vontade e cortesia. Adentramos a residência, tímidos, cansados, chateados, porém, o homem e sua família procuravam nos deixar tranquilos. Indicado por ele — que exercia a profissão de carreiro — fomos ao banho em um riacho próximo aonde corriam as águas de inverno. Que banho maravilhoso! Repelido o enfado, retornamos à casa do bom samaritano que nos ofereceu a única coisa que havia para comer, tal ribacão. Indaguei o que era aquilo. Descobri uma comida grosseira à base de feijão e arroz esquentados juntos, sem complemento. Comemos o ribacão como se ele fosse a única comida do mundo. Foi o prato mais gostoso que já comi na vida.

Antigamente muitos estudantes deslocavam-se a pé até a escola. Andavam muito mais de légua todos os dias para vencer através das letras. Superavam o sol, a chuva, o frio, o calor, as enchentes, os caminhos esquisitos e mesmo as noites terrivelmente escuras. Além das jornadas de ida e volta, os seus pais ainda bancavam o material didático, o lanche e, às vezes, também à mensalidade da escolinha particular. Desses sofridos alunos, inúmeros tornaram-se professores, políticos, comerciantes, empresários, funcionários públicos, enfim, honraram todos os segmentos sociais. É que, apertados pela necessidade, sabiam valorizar o saber. Foi assim em Santana do Ipanema nas escolas de Enéas, de Josefa Leite, de Adélia, de Zé Limeira, de Ernestina... Depois com Flora, com Narair, com Helena Oliveira, com o grupo Padre Francisco, com o Ginásio Santana.

Venho detectando a apatia estudantil há vários anos. Os pedagogos das teorias não aceitam. Entra didática e sai didática e o problema não é resolvido. Não existe mais respeito ao mestre, só o aluno possui regalias. Claro que não estamos falando sobre todos os casos. Recentemente saiu na televisão uma pesquisa em que 40% dos alunos não demonstravam interesse pelos estudos. Isso veio comprovar o que já havíamos constatado na prática.

Hoje o governo manda o veículo à porta do aluno, fornece os livros, o uniforme, a merenda, prêmios, boa palestra e financiamento. Mas o resultado continua nos 40%. As escolas vão ficando vazias. Na certa esse altíssimo índice ainda não despertou para o valor do estudo. Está perdido na mata. Ainda não encontrou a casa do galego na caatinga bruta. Com toda certeza está faltando comer ribacão de carreiro.

O ESTOURO DO CINEMA (Clerisvaldo B. Chagas. 22/05/2009) Era uma noite muito calma no Bairro Mo...

O ESTOURO DO CINEMA

O ESTOURO DO CINEMA

(Clerisvaldo B. Chagas. 22/05/2009)

Era uma noite muito calma no Bairro Monumento, em Santana do Ipanema, Alagoas. Uma das poucas diversões noturnas, o cine Glória, estava apinhado. O filme em cartaz era o clássico “Aída”, mas o motivo dos frequentadores continuava sendo a falta de opção. Havia aula no Ginásio Santana. Eu estava na Praça de Bandeira, bem defronte ao estabelecimento de ensino, pensando como assistir o filme. Bem que o ato de gazear estava decidido, mas como arranjar o dinheiro do ingresso? Da esquina da praça lançava o olhar comprido para o cinema que ficava a uns cem metros ladeira abaixo. Os meus colegas por certo estavam na Geografia, na Matemática... No Latim do casarão. Ninguém ali para compartilhar o desejo ardente de está no prédio do cine. Meus passos rodavam como o compasso de dona Déa, professora de desenho. Subitamente aconteceu:

Poucas pessoas espirraram de dentro do cine Glória numa velocidade doida! Logo atrás, o grosso da multidão ensandecida surgiu na rua levando o terror de dentro do prédio. Uns corriam sem sapatos, outros pulando e, outros ainda carregando no peito as cadeiras arrancadas com o impacto dos corpos eletrizados. Muitos pegavam carona na garupa dos corredores da frente. Ficaram pelo caminho relógios, pulseiras, brincos, retalhos de roupa... Era a elite de Santana desmanchando-se na fuga em massa do cinema. A calçada residencial de João Aquino –— do outro lado da rua ­— ficou repleta de frequentadores. Desci correndo para saber o que acontecera. Ora, havia sido apenas um simples problema no trilhar da fita, acompanhado de estouro. Ninguém havia esperado para ouvir explicações. Quem era maluco? Pernas para que vos quero. Vendo que nada mais acontecera, aliviada a tensão, vieram os risos, as gargalhadas, a contabilidade dos prejuízos. Não temos lembrança se o povo voltou ao cine. O que mais me chamou a atenção foi que na desarvorada carreira, o silêncio foi total. Terror estampado na face, o povaréu apenas tentava escapar mudo aonde os olhos dilatados e as pernas ligeiras foram destaques.

Quebrada a monotonia das noites santanenses, chegou até a minha cabeça uma importante pergunta. Vale à pena sofrer por um desejo inalcançável? Será que eu não teria sido atropelado gravemente se tivesse ido assistir “Aída”? Nesse caso quem me salvou foi à falta de dinheiro. Moral do episódio santanense: “nem sempre o que desejamos com tanto ênfase é o melhor para nós”, notadamente quando iniciamos mal. Dessa vez, matando as aulas do Ginásio Santana.

ZÉ GANCHO (Clerisvaldo B. Chagas. 20/05/2009) Nos anos 50 havia em Santana do Ipanema, estado de Alagoas, inúmeros profissionais com artes p...

ZÉ GANCHO

ZÉ GANCHO
(Clerisvaldo B. Chagas. 20/05/2009)

Nos anos 50 havia em Santana do Ipanema, estado de Alagoas, inúmeros profissionais com artes peculiares. Destacavam-se barbeiros, sapateiros, alfaiates e funileiros (chamados por aqui de flandreleiros). O fladreleiro trabalhava com folhas de flandres principalmente no fabrico de calhas (bicas) para residências e casas comerciais. Numa época em que muito se precisava de luz elétrica, surgiam os candeeiros de flandres e de latas feitos nas tesouras afiadas e nas pancadas dos macetes. Ouviam-se de longe as compassadas batidas do martelo na bigorna dos ferreiros. Mas essas batidas eram diferentes, metálicas e irritantes se fossem de perto; saudosas se fossem de longe. Nas casas dos funileiros, não. As pancadas dos macetes eram fofas como se eles, os macetes, estivessem envolvidos em panos.
Entre os fladreleiros conheci a avó do escritor Oscar Silva, defronte à casa do meu pai. Josefina, já descrita aqui em outro artigo, possuía a voz do martelo dos ferreiros, porém, trabalhava com a lata e o flandres. Na mesma Rua Cleto Campelo (antes: do Sebo; depois: Antonio Tavares), também residia e trabalhava no mesmo ramo, o homem conhecido por Zé Gancho. “Zifina” falava quebrando metal e arrastando a voz. Zé Gancho arrastava a voz baixa numa preguiça dolente, dormideira... Sem fim. Morava a alguns metros da esquina do beco de acesso ao Ipanema, bem perto da Cadeia Velha.
Ora, eu não sabia que o artista não gostava de ser chamado Zé Gancho. Com seu nome próprio era uma ovelha. Com o apelido, um leão. Certa feita eu passava pelo beco quando vi lá em baixo várias pessoas olhando para o Ipanema e para o céu. Desci até o povo. O flandreleiro falava de cheia, descrevia chuva, dissertava o tempo. Com a minha precipitação fui chegando e ouvindo o homem dizer: “falam que ontem choveu foi muito por aí”. Eu, menino decepcionado com o assunto fui dando às costas e dizendo: “choveu b...”. Foi aí que senti a mansidão de Zé Gancho transformando-se em soldado de polícia. Tive medo que ele me conhecesse e fosse fuxicar a meu pai. Ah! Seu Manezinho não alisava.
Vejo com grande alegria o Ceará valorizando os homens experientes do Sertão; convidando-os para opinarem sobre o tempo juntamente com os cientistas; chamando-os de “profetas da seca”; levando a sério e divulgando suas previsões baseadas nos detalhes da Natureza. São as floradas do mandacaru, as pedras de sal, o dia de São José, o movimento das formigas e muitos outros sinais. Quando a ciência se alia à tradição, a força é maior, o êxito é certo e o ganho é dobrado.
Quando assisto na TV os encontros coerentes da Terra de Iracema, lembro das esperanças do flandreleiro querendo afastar a seca. E quando chega a notícia de chuva naquela região, eu me pergunto se aparece algum menino desinteressado para dizer: “choveu b...”.