A BARONESA (Clerisvaldo B. Chagas. 28.06.2009) A cidade de Santana do Ipanema, no Sertão de Alagoas, é ladeirosa e repleta de patamares. ...

A BARONESA

A BARONESA

(Clerisvaldo B. Chagas. 28.06.2009)

A cidade de Santana do Ipanema, no Sertão de Alagoas, é ladeirosa e repleta de patamares. Tendo iniciado a sua existência em um desses patamares, logo o casario começou também a percorrer declives e aclives das cercanias. Em torno do seu sítio urbano destacam-se alguns montes denominados regionalmente “serrotes” que quer dizer, pequenas serras. Ao norte da urbe, com vista panorâmica, localiza-se o serrote do Pelado que passou a chamar-se Alto da Fé a partir do governo Genival Tenório. Ao sul está o serrote do Gonçalinho, denominado em tempos modernos, do Cristo ou das Micro-ondas; o morro da Goiabeira, também chamado serrote do Cruzeiro; o serrote Pintado e a serra Aguda. Todas essas elevações funcionam como extraordinários mirantes da cidade.
Na área rural surgem alguns montes que consolidam a palavra serrote como o serrote dos França, dos Brás, do Amparo, Severiano, dos Bois e o dos Angicos. Entretanto, o forte das elevações está no Maciço de Santana, que representa o final do Planalto da Borborema. Os destaques do Maciço — ao norte e nordeste da sede — são denominados serras como a do Poço, Camonga, Macacos, Gugi, Jardim, Mulungu e Caracol. Em eras mais distantes, essas elevações de terras férteis e micro clima ameno, abasteciam as feiras semanais da região com frutas e legumes. A serra do Poço já foi sondada como possível abastecedora de água para Santana. Vítima de uma nuvem pesada que lhe tirou boa fatia de terra, também já forneceu fósseis para os curiosos. A serra do Caracol foi marco inicial do Município. A serra do Gugi foi motivo de crônica do escritor Oscar Silva. A serra da Camonga tem histórias e lendas e, no momento é a que mais nos interessa.
A serra da Camonga forma um meio arco vindo do norte, estende seu lombo extraordinário em direção ao sul, e se debruça abruptamente sobre a estrada Santana—povoado São Félix. Esse final abrupto da Camonga é formado por imenso rochedo vertical, desnudo e branco. Quem olha de cima sente arrepios só em pensar que dali do alto caiu um vaqueiro em busca de reses desgarradas. Para os crédulos, é ali onde existe um reino encantado com sua fortuna em pedras preciosas.
Quem contempla de longe a serra da Camonga, sendo amante da natureza, fica encantado com a verticalidade do final. Sem dúvida alguma, parece uma baronesa com seu mais belo vestido rendado, sentada confortavelmente no seu trono de marfim. Aquela imagem surrealista da baronesa representa um descomunal monumento à comunhão Deus-homem, no desenho do elevado. Nem a imagem de uma rainha desbanca a figura da baronesa no seu trono cravejado de diamantes. Falta apenas um cetro. Um cetro e nada mais para que ela possa comandar terras e homens que lhes tocam os pés. serra da CAMONGA, A BARONESA DO SERTÃO



DISCUSSÃO DANADA (Clerisvaldo B. Chagas. 11.5.2010) Aqui na capital a vida também passa como no interior. Bem ali, ali mesmo no cruzamento ...

DISCUSSÃO DANADA

DISCUSSÃO DANADA
(Clerisvaldo B. Chagas. 11.5.2010)
Aqui na capital a vida também passa como no interior. Bem ali, ali mesmo no cruzamento com semáforos, um senhor pede esmola de modo diferente. Passa o dia inteiro no ponto, inclusive aos sábados, domingos. Cada fechada de sinal representa uma rodada para o homem de boné. Tudo é bem calculado: dias, horas, minutos, segundos. A presença do sinal vermelho é a ação imediata do pedinte que vai batendo devagar nos vidros dos automóveis e estendendo a mão. Como é muito calculista ele sabe quantos por cento das pessoas atendem aos seus apelos. Quem são os caridosos, homens ou mulheres? Novos ou velhos? Pretos ou brancos? O mendigo que se traja como qualquer pessoa comum sabe. Ele já passou dos sessenta, mas é durinho como um de cinquenta. O dia passa. Pela tardinha, vamos a uma farmácia no Bairro do Farol. Por coincidência, entra no estabelecimento o homem do boné. A senhorita do balcão vai atendê-lo com prioridade. E o mendigo do cruzamento despeja as moedas coletadas sobre o balcão de vidro. Arregaça os bolsos da frente. Desloca a bacia e enfia os dedos nos bolsos de trás. Enquanto os dedos caçam os cobres nos fundos do tecido, a moça vai perguntando se ainda tem. Os montinhos vão sendo separados pelos respectivos valores. Quase ao término da contagem a senhorita anuncia o montante de setenta reais. O homem ainda se torce todo em busca de outras moedas que lhes fogem aos dedos.
Analisando a contabilidade, setenta reais ao dia, durante o mês mais de dois mil reais. Pois o homem do boné fatura mais de dois mil reais por mês, no cruzamento dos semáforos. Questão de paciência e persistência. Compare agora com a grande maioria de empregados que batalha pelo salário mínimo.
Lá em Santana do Ipanema (minha terra) quando alguns homens se reuniam na porta maior da loja de tecidos de meu pai, de tudo saía. Lembro do poderoso e discreto comerciante José Acióli, quando mendigos apareciam. Balançava o dedo negativamente e dizia que pedisse ao governo. Para isso pagava seus impostos. O pedinte não entendia esse negócio de impostos, mas entendia o dedão trabalhando como palhetas de pára-brisa. Mas Acióli aconselhava aos seus que não negassem uma esmola às sextas-feiras. Já o comerciante-fazendeiro Izaías Rego, conhecido também pelo gênio forte e explosivo, despachava o mendigo com um pequeno esporro. Afirmava que só quem merecia esmolas eram cegos e aleijados.
Muitas religiões recomendam à esmola. Modernamente alguns padres não querem esse ato entre os que pedem nos templos. Querem sim, que o dinheiro dos fiéis procure os depósitos das próprias igrejas. Entre a religiosidade, o coração e as normas sociais, não está fácil de enquadrar o pensamento caritativo. Como o aborto, a discriminação racial, o uso da camisinha, o ato de dá esmola também se tornou polêmico. Isso dá uma DISCUSSÃO DANADA!

BARRA NOVA (Clerisvaldo B. Chagas. 10.5.2010) Vou olhando o cenário comprometido da Mundaú. Surge o horror da favela de lata, papelão e made...

BARRA NOVA

BARRA NOVA
(Clerisvaldo B. Chagas. 10.5.2010)
Vou olhando o cenário comprometido da Mundaú. Surge o horror da favela de lata, papelão e madeira. Barracos estendem-se ao longo da orla tal pintura surrealista. Quanta miséria e abandono! Quem tanto bombardeou o local? Quem provocou incêndio tão devastador sobre esses indivíduos humanos? Barracos, esqueletos sem cor que degradam e mancham a “cidade sorriso”. Papódromo enferrujado já não pede socorro porque o monumento e os arredores parecem dar os últimos gritos abafados à sociedade. Face cruelíssima de uma capital nordestina. Melhora a paisagem adiante e se vai mesclando até a pista litorânea. Domingo Dia das Mães. O trânsito está muito vivo pelos arredores da cidade. Todos querem o mar, as lagoas, as barracas. Guardas apitam as margens do asfalto e a fila coleia pelo terreno cinza. O verde do mangue não parece tão verde. Barro vermelho cobre o branco de um alargamento. E os carros prosseguem avançando com fome de terreno, famintos de espaço. Muitos seguem para Marechal Deodoro, outros mergulham nos declives de acesso ao povoado Barra Nova. Muda o cenário pelas ruas estreitas de calçamentos vencidos. Mansões concorrem satisfeitas depois de jantarem a vegetação nativa, antes viçosa, virgem, pura natureza. E lá no recanto, ao fundo de todas as ruazinhas, os automóveis se imprensam pelas curvas cheias de rudes palhoças que produzem a culinária alagoana. Todos buscam o pirão de peixe, o róseo dos camarões, o incolor da aguardente. Multidão espalha-se pelas cadeiras fortes; servidores fardados e suarentos equilibram bandejas e o vozerio mistura-se aos sons eletrônicos. O azul ondulante das águas acalma os olhos. O Sol queima as areias da restinga, lá do outro lado; e o bem-te-vi do mangue canta igual ao colega do Sertão.
O Dia das Mães parece acontecer no mundo inteiro. Somente quando aterrissam pratos fumegantes, a fome domingueira parece se acalmar. Terrinas à vista, cardápios perdidos, mães felizes, cheiro de limão pelas narinas excitadas. Dá-se o ataque de garfos aos miolos sedutores. Parabéns ficaram para trás, presentes guardados, abraços esquecidos. Sons espalhados acompanham as cores que desaparecem rapidamente da mesa rústica.
Meu Sertão, meu Sertãozinho cai no esquecimento diante das evidências. Vão-se as lembranças dos vales, dos serrotes, dos riachos vazios, secos, repletos de areia grossa. E a Barra Nova vai matando os desejos de estômagos estrangeiros, brasileiros, nativos... Sertanejos. Vamos continuando a faina sob o Sol tropical pleno de azul que ilumina águas, vegetais e homens. É sim, hoje Dia das Mães... Tem que ser repetido mais algumas vezes. Os raios vão tombando rumo ao poente e vamos deixando o povoado. Hoje é Dia das Mães. Ainda um longo olhar para a restinga imensa e o adeus disfarçado para BARRA NOVA.