TAPAGEM DE CASA (Clerisvaldo B. Chagas. 15.6.2010) A casa de taipa é amplamente conhecida no Brasil inteiro, de norte a sul, de leste a oes...

TAPAGEM DE CASA

TAPAGEM DE CASA
(Clerisvaldo B. Chagas. 15.6.2010)
A casa de taipa é amplamente conhecida no Brasil inteiro, de norte a sul, de leste a oeste. Encontram-se casas desse tipo nos sertões, nos agrestes, no litoral. É de taipa a casa do vaqueiro, do pescador, do tirador de coco e de muitos outros profissionais. O barro ou argila das mais variadas cores, é material fácil, farto e barato que permitiu aos índios construções de suas malocas. Mas também existe cidade no Brasil quase toda construída com barro e varas retiradas do próprio ambiente. Nas cinco regiões brasileiras deve haver algum tipo de ritual ao se construir uma dessas moradias. No romance “Curral Novo”, do escritor palmeirense Adalberon Cavalcante Lins, acontece uma famosa tapagem de casa, motivo de imensa satisfação de um dos seus personagens, “sargento Anacleto”. Geralmente o futuro dono da casa constroi em mutirão, pagando bebida e tira-gosto para a vizinhança e até mesmo para convidados vindos de muito distante. No caso do sargento Anacleto, este dizia que andava léguas para brincar num ato de tapagem. O ponto mais interessante é quando os homens, ao ritmo de samba ou pagode, vão mexendo e pilando o barro com os pés, seguindo a voz de um tirador de coco, pandeiro e ganzá. A cachaça parece não ter fim.
Como eu e o amigo Zé Lima, tínhamos “Curral Novo” decorado, frase por frase, palavra por palavra, vírgula por vírgula, vez em quando comentávamos o romance, desatando belas gargalhadas. E foi, então, que surgiu um boato de que iria haver uma tapagem de casa, durante a noite, lá no Rabo da Gata (toda cidade tem o rabo da gata) bem pertinho da casa de Sulino Preto, o homem que corria bicho, segundo o povo. Combinamos olhar de perto como seria aquele negócio que tanto entusiasmara o sargento. Com as primeiras sombras da noite, vadeamos o rio Ipanema, subimos pelo corredor de aveloz de Marinho Rodrigues e fomos sair no alto do Cachimbo Eterno. Da estrada que leva até Olho d’Água das Flores, em diante, fomos guiados pelo clarão de uma fogueira e pelos sons de pandeiro que furavam a noite. Chegamos até o lugar da brincadeira e já vimos à casa toda levantada com varas, aguardando a argila entre os quadrados vazios da madeira. No terreiro, cinco a seis homens pisavam o barro ao som de um pandeiro tocado por uma mulher alta, morena, cigarro na boca, completamente desinibida. Tratava-se da conhecidíssima Expedita Biu, de família desmantelada de tudo, em Santana do Ipanema. Povo que comia gatos desentupia fossas, limpava vísceras no matadouro, banalizava incestos. Calculamos que naquela goela já havia descido mais de uma garrafa da branquinha. Em comparação com o romance, o ambiente era diferente, pois até namorada apareceu para o sargento Anacleto. Contemplamos o que foi possível e retornamos à “Esquina do Pecado”, o nosso QG. Foi a primeira e a última tapagem de casa que vi de verdade. Agora o governo está combatendo casa de taipa, construindo tudo em alvenaria. Parte do folclore nordestino vai sumindo pela chaminé do progresso. E, como diria talvez, o saudoso mestre folclorista Pedro Teixeira, de Alagoas: “É um trupé da peste, essa tal TAPAGEM DE CASA”.

SANTO ANTONIO (Clerisvaldo B. Chagas. 14.6.2010) Entre os constantes foguetórios que espocam sob o céu noturno de Santana do Ipanema, os so...

SANTO ANTONIO

SANTO ANTONIO
(Clerisvaldo B. Chagas. 14.6.2010)
Entre os constantes foguetórios que espocam sob o céu noturno de Santana do Ipanema, os sons dos forrós que descem do Alto dos Negros e a fina chuva que tapia o inverno, vou lembrando Santo Antonio; o santo preferido da minha mãe Helena Braga das Chagas, a quem ela tanto recorria. A amizade era tão grande entre a minha mãe e Santo Antonio, que ele veio levá-la no seu exato dia quando Helena completava seus 63 anos de idade.
Santo Antonio é considerado o protetor dos pobres, aquele que auxilia nos objetos e pessoas perdidas. Se bem que as pessoas tenham mais conhecimentos dos milagres a ele atribuídos em questões de namoros e casamentos, nenhum outro santo mostra-se mais amigo a quem firma com ele seus compromissos de fé. O seu nome de batismo era Fernando e pertencia a tradicional família do seu país, tendo nascido em Lisboa. Resolveu entrar na Ordem de Santo Agostinho e desde cedo mostrou ser uma pessoa muito culta e dedicada aos estudos. Entretanto, Fernando, admirado pelo entusiasmo de outros jovens religiosos da Ordem Franciscana ─ e depois pelos seus martírios em Marrocos (norte da África) ─ resolveu seguir o mesmo caminho daqueles jovens. Foi assim que ingressou na Ordem Franciscana, adotando o nome de Antonio, em homenagem ao santo que ele admirava chamado Santo Antão. Também chegou a embarcar para o Marrocos, mesmo sabendo que os rapazes religiosos não retornavam vivos daquele lugar. Mas, pelos desígnios de Deus, Antonio terminou sendo desviado para outras missões e, em uma delas, conheceu aquele que seria chamado de São Francisco, o homem que protegia e falava com os animais. Santo Antonio, além de sua sabedoria excelsa nas coisas sagradas, ficou também conhecido como grande orador. Foi um homem chamado por Deus ainda muito cedo, em plena juventude dos seus 36 anos de idade, no dia 13 de junho de 1231. Faleceu por questão de hidropisia a caminho de Pádua. Sobre o seu túmulo foi construída uma basílica em sua homenagem. Santo Antonio tornou-se santo universal, sendo o mais popular do Brasil.
Inúmeras brincadeiras são feitas com Santo Antonio, notadamente no Nordeste brasileiro, onde, sem dúvida nenhuma, Antonio arrebanha multidões de seguidores espalhados no cotidiano e na alegria dos festejos juninos. Conhecido como “santo casamenteiro”, tem provado milhões de vezes à eficácia dos apelos ao seu nome quando o assunto é amor. Santo Antonio está ricamente ilustrado no histórico das moças casadoiras e nas infinitas simpatias folclóricas do assunto. Além das fogueiras e todos os outros aparatos e tradições do seu dia, ainda existe o “pãozinho de Santo Antonio”, quando os padres distribuem entre os fiéis da missa do seu dia. O pãozinho deve ser guardado na vasilha da farinha, em casa, para que nunca faltem alimentos naquela residência. Muitíssimo ainda se pode falar sobre esse santo amigo que dizem ser o único a falar diretamente com Deus. Essa é a homenagem que faço ao grande santo de Helena Braga, heroína educacional de Santana, no dia da passagem de ambos. Experimente ser devoto de SANTO ANTONIO.



BAFANA BAFANA (Clerisvaldo B. Chagas. 11.6.2010) Nas décadas de 1950-60, sobressaía em Santana do Ipanema, a moda dos cabarés e das farras ...

BAFANA BAFANA

BAFANA BAFANA
(Clerisvaldo B. Chagas. 11.6.2010)
Nas décadas de 1950-60, sobressaía em Santana do Ipanema, a moda dos cabarés e das farras habituais nos antros da cidade. Violões plangentes ecoavam dos bares para a Praça Coronel Manoel Rodrigues da Rocha, Ponte General Batista Tubino e Rua Tertuliano Nepomuceno. Em voga as choradeiras de Lupicínio Rodrigues, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra e outros românticos nacionais. Violões como os de Zequinha Bulhões, José Panta, Miguel Chagas, aliavam-se desde o acordeom meloso de José Francisco ao intrépido pandeiro de Pedro “Aleijado”. Os boêmios varavam o negrume das noites quentes ou invernosas, sem tempo determinado para o término. Regadas a aguardente, cerveja, conhaque, rabo-de-galo, as brincadeiras iam recebendo os mais estranhos tira-gostos. Tripa torrada, cágado, teiú, galinha, torreiro, tudo era motivo para mais uma canção, para mais um aperitivo. E assim, as farras com José Yoiô, Moreninho, Tenente Guedes, Manoel “Toinho”... Iam encontrando mais adeptos amantes da luz artificial.
Certa feita, um matuto do Município bateu sessenta sacos de feijão. Quando perguntaram pela pequena fortuna oriunda da venda, o homem riu. Disse que todo o sonho acalentado durante sua vida era um dia poder fazer uma farra. É que ele ouvia falar tanto na danada que chegava a sentir inveja dos farristas. E foi assim que gastara todo o dinheiro apurado da roça com uma bruta brincadeira que havia durado três dias e três noites. Estava felicíssimo de bolso liso e sonho realizado. Nunca mais invejaria ninguém.
Quando vemos tudo que está se passando na África do Sul, é difícil não fazer uma comparação com o desejo matuto de uma farra descomunal; um desabafo homérico que lava com água mineral, sabão cristalino e detergente multicheiroso a alma desacorrentada do nosso irmão africano. Quantos séculos de sofrimento, dores, gemidos que dominaram os pontos cardeais do continente mãe! E os testemunhos impávidos e congelados do mundo! Os tumbeiros cruzando os mares; baques surdos de corpos inertes nas águas profundas; moendas, canaviais, senzalas, garimpos... Chicotes de feitores, cortes de navalha apartheid, a maior dor.
No intenso colorido que toma conta da África do Sul, brilha o amarelo da alegria, da liberdade, da conquista, da vaidade ímpar em receber o mundo inteiro para uma farra nunca vista e mais de cabeças erguidas. O grande evento histórico que está acontecendo no continente africano é uma conquista humana, social de dimensões planetárias que chama atenção definitivamente dos povos indiferentes. É a mão de Deus agindo através do futebol, continuando a justiça iniciada com homens iluminados como Mandela e o bispo Desmond Tuto. Temos absoluta certeza de que a alegria e a felicidade do povo africano tornar-se-ão perpétuas após o magnífico espetáculo de recepção, esperança e fé trazido pelo esporte mais querido do mundo. Depois do Brasil, não temos outra saída, iremos torcer pela seleção BAFANA BAFANA.