GOVERNADOR BANDIDO (Clerisvaldo B. Chagas. 29.7.2010) Quem viveu o mundo típico e atribulado dos rodeios, certamente conheceu o touro que f...

GOVERNADOR BANDIDO

GOVERNADOR BANDIDO
(Clerisvaldo B. Chagas. 29.7.2010)
Quem viveu o mundo típico e atribulado dos rodeios, certamente conheceu o touro que fez história nas arenas do Brasil. Nunca um personagem com nome negativo foi tão admirado e querido quanto o boi “Bandido”, estrela de Barretos. Bandido é considerado o maior touro de rodeio de todos os tempos. Nenhum peão teve o direito de chegar aos oito segundos no seu lombo, tempo oficial marco do esporte. O boi, nome genérico do ruminante, tinha um pulo de lado, marca registrada sua, que nunca peão valente aguentou. A novela “América” tornou conhecido nacional e internacionalmente o animal invencível que participou de mais de duzentas competições. No decorrer da novela, o público passou a admirar e gostar de Bandido, que metia medo até em quem estava à frente da telinha. Infelizmente o invicto campeão não resistiu ao câncer e, aos 15 anos encerrou sua carreira em quatro de setembro de 2008. O touro Bandido foi enterrado no Parque de Peão de Barretos, cidade centro de rodeios, a 423 km de São Paulo, capital. Nunca se viu tantas homenagens a um bovídeo. Bandido ganhou memorial no parque com fotos e informações. Na época, iria ganhar ainda estátua em ferro e fibras. O touro da novela deixou setenta filhos, quatro clones e dois mil sêmens congelados. Quanta honra!
O senhor Paulo Emílio é dono dos quatro clones de Bandido. No domingo (25) estreou na arena um dos clones do grande campeão. O nome da fera é “Matador”. Pois bem, o primeiro desafio de Matador foi contra o peão Lucimar Lauriano, 21, que resistiu somente 2,5 segundos. Palmas para o animal que estreia a carreira vencendo. Todos apontam Matador como se fosse verdadeiramente o pai em suas características. O início do boi no perigoso esporte permite novas expectativas para empresários do ramo, peões e estudiosos. Aguardemos, quem sabe, outro excelente ator de novelas.
Os clamores da população alagoana são dirigidos contra a violência das ruas, a desorganização da Saúde, o baixo salário da Educação e o calote dos precatórios. Melo não resolveu, Lessa não resolveu, Vilela não resolveu. Pela pesquisa publicada, são esses, entre os outros candidatos, com maior possibilidade de vitória ao governo estadual. Conhecemos os três. Como serão resolvidos os quatro problemas acima após a eleição? Você concorda que naturalmente está difícil para o alagoano? Dizem que há um seguimento espírita na Índia que acredita na reencarnação de animais em pessoas. Se for assim, rezemos para que haja pelo menos um encosto do touro Bandido no corpo do vencedor. Por que, para resolver os quatro problemas citados, principalmente o dos precatórios, é preciso ter honestidade, fibra, coragem, determinação e valentia do touro de Barretos. Nem mocinho de cinema, nem fala mansa e nem abuso eterno deram jeito nessas coisas. E se nada disso resolveu e nem vai resolver, a única solução é apelar para o touro do outro mundo e moldar um GOVERNADOR “BANDIDO”.



VOTA EM QUEM? (Clerisvaldo B. Chagas. 28.7.2010) O mês de julho no Sertão de Alagoas é marcado pela festa de Senhora Sant’Ana. Padroeira do...

VOTA EM QUEM?

VOTA EM QUEM?
(Clerisvaldo B. Chagas. 28.7.2010)
O mês de julho no Sertão de Alagoas é marcado pela festa de Senhora Sant’Ana. Padroeira do município de Santana do Ipanema, a avó materna de Jesus comanda uma ação tradicional desde o último quartel do século XVIII. Instituída pela Igreja, a data oficial dos festejos é a mesma em todos os lugares do mundo. O inconveniente do evento religioso é que o mês da novena é justamente o mais chuvoso em nossa região. Divide a última quinzena de julho com os quinze primeiros dias de agosto em matéria de frieza. Como este ano, o Divino quase sempre gratifica o dia da procissão com estio e Sol fraco.
O dia 26 de julho ─ após a barulhenta Festa da Juventude e a benfazeja novena dedicada a Ana ─ amanheceu calmo com um Sol preguiçoso e ruas desertas. Algumas delas sem um pé de pessoa, como se diz por aqui. Mas, a partir do meio-dia, parece que a cidade inteira despertou para o apogeu dos festejos.
A procissão da Excelsa padroeira Senhora Sant’Ana, representa um belíssimo espetáculo de fé que arrebanha milhares de pessoas. Charola ornamentada com esmero, a procissão percorre ruas e avenidas, mostrando mais de dois quilômetros de gente e de colorido sobre buracos, entulhos, asfalto e calçamentos. Os cânticos habituais penetram pelos ouvidos santanenses amolecendo corações. Como no mundo profano, um lugar pertíssimo de Ana é muito disputado. Era uma ambição simples que envolvia algumas pessoas de prestígio social. Ultimamente esse lugar, perto da Excelsa, virou mistura de xadrez e de luta greco-romana entre políticos.
As pessoas comuns não tem mais direito de andarem ao lado da santa e muito menos de conduzirem o seu andor. Surgem sempre políticos no “chega prá lá” aos indivíduos do povo. A batalha surda que envolve braços e ombros para afastar os demais inclui agora os quadris de nádegas avantajadas ou murchas. Antes, o povo ria com as presepadas dos políticos locais na procissão. Mas atualmente os políticos de fora botaram (de forma acima) os da terra para correr. Só se via gente se cutucando, rindo e apontando o ridículo com o queixo. Ao chegarem a casa, vários fiéis se divertiram à beça com a resenha dos candidatos nessa época de eleição. Sendo assim, o ato religioso, além de enxadristas e lutadores, ofereceu uma atração a mais: à testa do cortejo um particular humorismo digno da novela “O bem amado”.
Mesmo durante atos religiosos significativos, o aperreio pelo voto é imenso. Se pudesse, o candidato retiraria a imagem da charola e ficaria em seu lugar acenando para a multidão: “milhares e milhares de votos, só meu”. Quem estava perto do padre me contou que a disputa por metro quadrado foi renhida. Em um momento mais difícil de passagem de trecho, um político, diante da marcada concorrência, perdeu o foco. Teve que subir em uns entulhos e voltou-se azoado para a imagem de Senhora Sant’Ana. Pegou no manto da santa ─ pensando tratar-se de uma beata de vestido azul ─ e cochichou no seu ouvido: “VOTA EM QUEM?”

PASSA EM ARAPIRACA (Clerisvaldo B. Chagas. 27.7.2010) A criatividade do brasileiro não tem limites. Além do tal jeitinho que se tornou cois...

PASSA EM ARAPIRACA

PASSA EM ARAPIRACA
(Clerisvaldo B. Chagas. 27.7.2010)
A criatividade do brasileiro não tem limites. Além do tal jeitinho que se tornou coisa nossa, outros campos também são visitados pela imaginação. As piadas reinantes em reuniões de homens são fenomenais. É preciso pensamento inteligente para bolar o fato curto e condensado da tirada divertida e maledicente. Em uma roda de amigos as gargalhadas dominam sobre a ansiedade da anedota. Todos sabem e contam piadas de sexo, papagaio, macaco, português e de tantos outros assuntos. Mas existem aqueles que possuem o dom natural para contar os fatos. Entre os que praticam esse tipo de humorismo de salão, podemos destacar dois estilos. Um deles é do bom piadista, faz a alegria da roda e gargalha com os demais da própria piada. O outro é do que emite a anedota provocando risadas homéricas, mas ele permanece quieto, calado, sério como padre velho. Desse último tipo, conheci o “Duro”, sujeito que morava à Rua Nova e trabalhava na marcenaria do conhecidíssimo Antonio Dantas. Ficou desaparecido durante dezenas de anos. Vim encontrá-lo há pouco no Bairro São José sem perceber que aquele marceneiro chamado Sebastião, era o “Duro” da minha adolescência. A ele encomendei várias peças de madeira. Depois Sebastião veio morar perto da minha casa. Em conversa informal descobri quem era o homem. Ele não se lembrava de mim. Em nossa juventude “Duro” me avistava de longe e ia logo dizendo: “Tenho uma novinha correndo sangue”. E libertava a piada que me fazia quase morrer de rir. Ele apenas fumava e permanecia cara-de-pau. Agora na terceira idade bebia muito, o álcool tirou-lhe a vida.
Uma dessas anedotas que andam soltas e modificadas, sem autores, sem registros, levadas de boca a boca, é a do cidadão que almejava a todo custo chegar ao destino. Ele está à margem da rodovia aguardando transporte. Ao avistar uma carreta, dá com a mão. O carreteiro, que já vem fumarando de raiva, quer descontá-la em alguém. Mete o pezão no freio vendo ali a sua vítima e pergunta o que é que há. O pretenso carona indaga: “Vai para Arapiraca?” E o motorista, botando para fora tudo que sente, responde: “Eu vou para a p... que pariu!” O ingênuo passageiro não desiste: “Mas passa em Arapiraca...?”
Certa ocasião conversei bastante com um candidato a prefeito de uma cidade sertaneja. O mesmo que me contou a piada acima. Queria por que queria ser prefeito. Indaguei se tinha ideal? Não. Perguntei se tinha projetos para a cidade. Também não. Indaguei ainda se estava preocupado com sua gente, com seu povo, com os problemas do município. Respondeu-me logo que não havia pensado em nada disso. Queria ser prefeito, expressão dele, “porque a prefeitura jorra dinheiro e facilidades que me permitirão alcançar o cargo estadual de..." E citou o cargo. Conseguiu eleger-se e chegar depois ao lugar que pretendia.
Sem ideal, sem planejamento, sem coração, “o importante não é ser chamado de filho de uma p...” disse-me ele muitos e muitos anos depois daquelas perguntas que relembrava e que concluiu dizendo: "Como o carona do carreteiro, o mérito é saber unicamente se a carreta PASSA EM ARAPIRACA".