SOBRE MIM

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.
EU NO SAGRADA FAMÍLIA Clerisvaldo B. Chaga, 1 de abril de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.502 Quando descobri ...
EU
NO SAGRADA FAMÍLIA
Clerisvaldo
B. Chaga, 1 de abril de 2021
Escritor
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.502
Quando descobri aquele casarão abandonado na Rua Martins Vieira, tive desejo de conhecê-lo por dentro. A enorme obra inacabada era composta de inúmeros vãos, mas só havia mesmo o telhado e as paredes caídas de branco. Um dos compartimentos era somente uma grande vala de barro aguardando um dia ser aterrada para o nível correto do piso. Para mim, um pequeno abismo. Pessoas falavam que obra era mal-assombrada. Passei a brincar ali dentro. Vinha da Rua Antônio Tavares, cruzava a Rua Nova, pegava um matagal e chegava pelos fundos no prédio do mal assombro. Eu tinha medo por um lado, mas o desejo de brincar ali dentro era maior e nunca vi nada que me botasse para correr. Às vezes saía do Grupo Escolar Padre Francisco Correia e seguia para casa passando por dentro do edifício sinistro.
Eu não sabia, mas Deus
me preparava para ser no futuro, professor de Geografia do Casarão temido. Já
adulto e lecionando Ciências no Ginásio Santana, via aquele prédio, antes ao
abandono, transformar-se em Colégio com o nome de Instituto Sagrada Família,
cuja direção pertencia as irmãs holandesas (freiras) Leôncia e Letícia.
Convidado pelas irmãs, passei um tempo feliz naquele estabelecimento, assim
como também amava o Ginásio Santana.
Lembro-me que foi o
professor Alberto Nepomuceno Agra que me falou que a outrora obra inacabada,
pertencera ao cidadão que fora interventor de Santana nos anos trinta e passara
a ser agiota, Frederico Rocha. E que Frederico emperrava a construção para
especular. Por isso dera certo trabalho quando pessoas da sociedade foram
tentar adquirir a obra inacabada para transformá-la no Colégio Sagrada Família,
naturalmente, com verbas holandesas.
Para não ferir a
memória de ninguém, não falarei aqui o motivo do fechamento das portas do
Colégio. Ainda hoje conservo uma placa de estojo em homenagens “aos relevantes
serviços prestados” naquele estabelecimento, diz a placa. Atualmente o edifício
vai de uma rua a outra e funciona também como escola municipal. Aquelas árvores
plantadas no pátio com bancos de granito rodeando-as, foi ideia minha.
Recordo-me disso quando passo por ali em tempos eleitorais, pois funciona com
várias sessões para os votantes. Ali também passei cerca de trinta anos sendo
mesário na sessão 115. Nas últimas vezes em que fui votar, por coincidência, o
presidente da mesa era um ex-aluno, funcionário do Banco do Nordeste.
Está aí a história para
os pesquisadores santanenses sobre a origem de mais um dos admiráveis casarões
de Santana do Ipanema, uma das 10 escolas desse território onde lecionei, do
total de 12 com outros municípios.
Continuo amparado pela
SAGRADA FAMÍLIA. AMÉM.
PRÉDIO QUE PERTENCERA AO
SAGRADA FAMÍLIA, FUNDADO EM 1976. (FOTO
EM 2013: LIVRO 230/ACERVO B. CHAGAS).
NAS TRILHAS DO SERTÃO Clerisvaldo B. Chagas, 31 de março de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.501 Saí a pé dispo...
NAS TRILHAS DO SERTÃO
Clerisvaldo B. Chagas, 31 de março de 2021
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.501
Ao sair da parte baixa
da Timbaúba, voltei pela Timbaúba alta, onde havia muitas pinheiras, entrei por
uma trilha ladeada de caatinga e saí acompanhando paralelamente o lombo da
serra da Camonga em direção à cabeça. Quilômetros e quilômetros pela trilha,
tão silenciosa que nem canto de ave surgia nos vegetais. Estava sozinho num
deserto que nem calango cruzava a vereda. Depois de muito caminhar fui sair na
estrada larga que leva ao povoado São Félix, um pouco antes da ladeira que
passa pelas imediações da cabeça da Camonga. Bastava atravessar a estrada de
terra e estaria diante do sítio Imburana do Bicho. Por que Imburana do Bicho?
Pensei: a imburana pode ser de cambão ou de cheiro. Bicho deveria se referir a algum tipo de
praga que havia deformado a arvoreta ponto de referência do lugar.
Retornei à cidade,
passando pela fazenda conhecida como “Fazenda Baixio de Abílio Pereira”. Um
pouco antes, dei uma espiada em um caminho antigo que saía no Açude do Bode. Eu
já o percorrera com certa dificuldade,
pois estava abandonado, solo irregular devidos às enxurradas e mato obstruindo
a passagem. Difícil até para burros e cavalos. Nem sei como a ambição humana
não avançara as cercas sobre ele e o englobara. Na estrada ainda estava de pé a
grande craibeira, marco da estrada para São Félix, quase na frente da
casa-grande da fazenda Baixio de Abílio Pereira. Cheguei em casa cansado, mas
satisfeito em ter navegado pelas trilhas do Se
Nunca mais revisei meus
cafundós
Com essa tal pandemia,
só posso respirar nos vegetais do Sertão agora, pelas fotos que o tempo não
deixa de mostrar.
1.
SERRA
DA CAMONGA, AO FUNDO, VISTA DA RUA PEDRO BRANDÃO. (FOTO B. CHAGAS).
2.
SERRA
DA CAMONGA VISTA DA RUA PEDRO BRANDÃO. (FOTO: GUILHERME CHAGAS).
AINDA O MUSEU E OS CIGARROS DE AUDÁLIO Clerisvaldo B. Chagas, 30 de março de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.500...
AINDA
O MUSEU E OS CIGARROS DE AUDÁLIO
Clerisvaldo
B. Chagas, 30 de março de 2021
Escritor
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.500
Explanando para os
futuros pesquisadores sobre o Casarão/Museu de Santana. Além do que foi
descrito em crônica anterior com o nome de PERGUNTA NO AR, o prédio ainda
possuía (e possui), um pequeno quintal. Continuando o quintal, lateralmente
havia (e ainda há) um compartimento com frente para a Rua Ministro José
Américo, via também da feira livre. Em determinado tempo, aquele compartimento
foi cedido ou alugado e passou a funcionar como bodega de cachaça para os
viciados da feira. Nessa época o museu para algumas autoridades, era apenas um
lixo que a ignorância não sabia como se livrar do entulho. Bem que o
compartimento poderia ter servido para ser instalada a parte administrativa da
permanente exposição. A cachaça e o cuspe no pé da mesa venciam a Cultura.
No oitão do edifício,
voltado para o Largo da Feira, ainda hoje existe uma pequena porta no sótão.
Alguns feirantes guardavam ali suas mercadorias após a feira. Um deles chagou
até a negociar suas bugingangas, parte dentro do sótão e parte fora. Era um
homem amigo de meu pai, dente de ouro e pronúncia aberta para feijão a que ele
chamava de féjão. Vizinho à entrada do
sótão (nós chamávamos de porão) o senhor Audálio colocou ali uma barraca
vertical para vender cigarros e que funcionou por muito tempo. Houve ocasiões
em que os viciados procuravam os tubos de fumo na cidade e não encontravam, mas
na barraca do Audálio sempre havia cigarros, servidos, alíás, com muita rapidez
e agilidade no troco, quando precisava. Seu Audálio tornou-se uma pessoa muita
conhecida em Santana, com sua barraca de cigarros ao lado do museu. No porão,
atendeu por muito tempo o sapateiro Genésio, onde formou sua tenda.
Muitas e muitas
histórias foram contadas na barraca do fumo por ele mesmo, o dono. Sentado em
banquinho de madeira, bem como seus assíduos frequentadores das palestras,
principalmente as noturnas, como a presença marcante do saudoso professor José
Maria Amorim, a noite era consumida. Como o tempo é o senhor de tudo, Audálio,
nem sei o motivo, fechou o ponto e foi para casa. “Vão comprar cigarros agora
na casa da peste!” – disse um gaiato da rua como desabafo.
O que você acha? Essa é
a história do museu que não é do museu. Entretanto, acho que daria um livro
completo de tantos e tantos casos do “Seu Audálio da Barraca de Cigarros” e
seus compromissados com os ouvidos.
Quer saber?! Acho que o
homem não fumava e se fumava era com a boca alheia. Ô vida de gado!...
ANOITECER DE DOMINGO NO LARGO DA FEIRA,
VENDO-SE A LATERAL DO MUSEU DARRAS NOYA E A MATRIZ DA CIDADE. (FOTO: ACERVO/ B.
CHAGAS).

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.