O BOI MISTERIOSO Clerisvaldo B. Chagas, 2/3 de dezembro de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.623 Ainda lembro da...

 

O BOI MISTERIOSO

Clerisvaldo B. Chagas, 2/3 de dezembro de 2021

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.623





Ainda lembro da saudosa Dona Ester, esposa do farinheiro José Camilo, lendo folhetos de cordel para nós, meninos da vizinhança. Sentada no degrau interno da casa, rodeadas de crianças, lia com muito prazer “A Índia Neci” e outros folhetos que comprávamos na feira com o nome de romance. “O Cachorro dos Mortos”, “Cancão de Fogo”, “João Grilo”, “O Pavão Misterioso”, “O Boi Misterioso”, “O Negrão do Paraná e o Seringueiro do Norte” e mais uma porção deles. “O Boi Misterioso” falava de um boi que vaqueiro nenhum conseguia pegá-lo. A descrição dizia que o animal era enorme e dasafiava todos os vaqueiros da época. Infelizmente não lembro o final da história. Tudo vem à mente quando assistimos aos vídeos sobre o Boi Salgadinho, o mais famoso do Brasil, na atualidade que, com suas 46 carreiras, derrotou todos os vaqueiros dos nove estados nordestinos que tentaram trazê-lo na corda.

Salgadinho não é um boi gigante como o do romance do meu tempo dizia, o boi misterioso, é um animal amarelo, aparentemente normal, mas se transforma num fantasma ao levar corrida dentro do mato. Quem não acredita em inteligência fora dos humanos, tenha a coragem de apostar dez mil reais contra o boi Salgadinho na corrida de mato no município de Iguaracy, em Pernambuco. O dono do boi, senhor José Carlos dos Correios, bem que aceita. A última vaqueirama a correr o boi foi a do Piauí, mais uma derrotada contra o boi. Dizem eles que ninguém pega o boi Salgadinho naquela manga onde tem muitos empecilhos no mato, inclusive árvores caídas onde cavalo não passa nem por cima nem por baixo, O Boi conhece tudo e ao se ver apertado, penetra em lugares aonde deixa o vaqueiro completamente desarticulado. Não são poucos os que voltam dizendo que não sabem aonde o boi se escondeu.

Ê Dona Ester, minha boa vizinha! Se a senhora ainda estivesse nesse mundo, iríamos sentar naquele mesmo degrau e comentar sobre quem é melhor, se o antigo “Boi Misterioso” ou o Salgadinho de Iguaracy. Histórias do mundo, Histórias que povoam a mente de milhares de sertanejos iguais a nós. Isso também puxa pelo “Saia Branca”, boi famoso da região do povoado Várzea de Dona Joana, sertão alagoano, mas que perdeu a fama para um vaqueiro também encabulado daquele lugar. Falar em bois famoso é falar de Nordeste.

BOI SALGADINHO (FOTO: FACEBOOK).

 

  O TEMPO NÃO ESPERA NINGUÉM Clerisvaldo B, Chagas, 1 de dezembro de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.622 No mome...

 

O TEMPO NÃO ESPERA NINGUÉM

Clerisvaldo B, Chagas, 1 de dezembro de 2021

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.622





No momento (14 horas), a temperatura de Santana do Ipanema está na casa dos 36 graus. Há dias, compadre, chegou brincando aos quarenta. Quem falava de Pão de Açúcar! É a região pegando fogo, principalmente o Alto Sertão e Sertão do São Francisco. É verdade que deu uma boa trovoada em Santana do Ipanema há dois ou três dias, durante à noite, mas se via que era trovoada de passagem. Cumpriu o seu papel em fazer zoada, amenizar o calor sufocante e partiu vagarosamente. Em Arapiraca o negócio foi medonho, chuva e ventos fortes causando transtornos pela cidade, chegam às notícias. Enquanto isso estamos na expectativa do próximo mês quando a primavera tem vontade de ir embora. E se a primavera que é amena está assim, calcule o verão que se iniciará ainda em dezembro!

Dezembro é um mês que não costuma alisar em termos de temperatura. Poderá trazer mais trovoadas ainda ou passar em céu azul, o que não seria a primeira vez. Geralmente é mês de muita luta no campo com falta de colheita e plantio. A escassez da água faz a angústia do ruralista ao contemplar os rebanhos sedentos e lambendo a poeiras cinza dos cercados despidos de vegetação. Uma duplicata de textos e textos da literatura nordestina desde quando se escrevia com bico de pena de pato. Mas quem vive quer saber o agora, pagar com moeda nova o sacrifício e o prazer de morar no Sertão.

Você que é da capital, imagine em lugares estremos do Oeste de Alagoas, onde alguns estudiosos consideram essa parte do alto sertão como clima árido, isto é, clima de deserto! Percorremos parte da região onde só encontramos caprinos sob sombra esfarrapada de quixabeira. Bosques de juremas pretas e macambiras, terras escuras com cenários de supostos incêndios florestais. Como faz a diferença, a água gelada conduzida na reserva da mala do automóvel! E nesse tempo de labaredas solares e terras rachadas, até as cascavéis trocam o dia pela noite indo à caçada com seu veneno terrificante. A caatinga aguarda uma nova trovoada para virar o paraíso dos homens e das abelhas.  Amanhã, o 7 e o 5 me esperam Orgulho em ser nordestino!!!

ENTARDECER: MONUMENTO AO JEGUE QUE SUSTENTOU A CIDADE QUANDO NÃO HAVIA ÁGUA ENCANADA. (FOTO: B. CHAGAS).

 

 

  LIBERDADE Clerisvaldo B. Chagas, 29 de novembro de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.621 Palmeira dos Índios, si...

 

LIBERDADE

Clerisvaldo B. Chagas, 29 de novembro de 2021

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.621





Palmeira dos Índios, situada no Agreste alagoano, está de parabéns em resgatar parte da história do nosso estado. A lembrança de exaltar a luta quilombola pela liberdade foi oportuna nesses momentos em que se discute o racismo no Brasil com o dia da Consciência Negra. Não só o prefeito está de parabéns, mas o escultor Ranilson Viana e todo o povo palmeirense pelo exemplo em exibir publicamente os nossos valores numa luta universal, local e sem tréguas. Os quilombolas da comunidade Tabacaria representam muito bem tantas comunidades quilombolas de Agreste e Sertão do nosso território. O monumento negro à Liberdade não será apenas um monumento para Palmeira dos Índios, porém fonte de inspiração, pesquisa, estudo e turismo que preenchem a cabeça dos verdadeiros heróis e apologistas à liberdade branca, negra, indígena do nosso País.

A obra com quatro metros de altura representa também uma vitória profissional para o seu autor, notadamente quando sua arte vai aonde o povo está. A “Princesa do Agreste”, também já possui uma tradição de preservar a sua história como alguns monumentos à personagens indígenas – origens das suas raízes – e o trio de museus espalhados pela cidade. Estivemos aí em dia chuvoso fotografando na Praça do Museu Xucurus a máquina do trem para o nosso trabalho “Repensando a Geografia de Alagoas”. Diversos outros lugares foram por nós fotografado como a serra das Pias, a antiga estação ferroviária e o açude do Goiti na sua melhor forma.

Palmeira dos Índios, para quem não a conhece, é passagem obrigatória dos que trafegam Sertão – Maceió e vice-versa pela BR-316 e de quem se desloca de Arapiraca para Bom Conselho, Garanhuns via Igaci. Município de terras férteis também é conhecido como “Terra da Pinha” que no Sudeste é chamada de fruta de conde. Sua posição geográfica facilita bastante o seu desenvolvimento: Agreste, fronteira com Pernambuco e limiar do Sertão, significam está perto de tudo e possui bom intercâmbio com a Capital Sertaneja Santana do Ipanema. Mas nem só da pinha doce vive Palmeira dos índios, a cidade respira cultura por todos os recantos onde a sombra do Mestre Graça continua muito maior do que os quatro cantos das suas fronteiras.

MONUMENTO À LIBERDADE

(FOTO: DIEGO WENDRIC/ASSESSORIA)