SOBRE MIM

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.
ZÉ CHAGAS – UM HOMEM CRIATIVO Clerisvaldo B. Chagas, 17 de julho de 2025 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3.270 Já...
ZÉ
CHAGAS – UM HOMEM CRIATIVO
Clerisvaldo B. Chagas, 17 de julho de
2025
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica:
3.270
Já
falei sobre esse assunto.
Para
não cansar o leitor contarei apenas três passagens engraçadas do saudoso primo
Zé Chagas, muito trabalhador e muito espirituoso santanense.
Primeira:
Certa feita estávamos na loja de tecidos do meu pai, quando chegou uma
cartomante bastante conhecida na cidade, chamada Maria Galega; indagou aos
presentes se queriam saber o futuro. E olhando para o “primo véi”, disse, “vou
deitar as cartas para você”. Ajeitou o baralho e disse de primeira: “Estou
vendo ouro na sua vida”, o primo gaiato respondeu de pronto: “Só se for ourina,
Maria”
Segunda:
No sertão temos o pássaro anu-branco e anu-preto. Aliás, não sendo fácil atirar de espingarda
ou peteca (baladeira, estilingue, assim conhecida em outras regiões) e matar um
anu que pula muito quando estar sendo alvo, foi criado o ditado sertanejo:
“Quem tem pólvora pouca não atirar em anum”. Pois bem, Zé Chagas, ao passar
pelo comércio em hora de não expediente, encontravam-se sentados no batente da
loja, dois homens pretos bastante conhecidos: Filemon e Zé Preto.
Zé
Chagas, do tirocínio aguçado, assim que os avistou, falou para seu
acompanhante, apontando para os dois: “Pia! (espia) onde tem um casal de anum
preto!
Terceira:
Zé Chagas tinha uma casa de jogo à rua Tertuliano Nepomuceno, chamada “Bafo da
Onça”. Defronte, do outro lado da rua, havia uma funerária. O dono da
funerária, então, pediu a Zé Chagas que ficasse tomando conta do
estabelecimento enquanto ele iria resolver um problema e logo retornaria. Zé
Chagas aceitou a incumbência, mas pediu os preços dos caixões de defuntos,
poderia chegar alguém querendo comprar. Ora, logo, logo, chegaram dois homens,
pai e filho. Havia morrido uma senhora, mãe de um e esposa do outro. O viúvo
olhou o mostruário, escolheu um caixão e indagou quanto custava aquele. Zé
Chagas deu o preço. O cidadão perguntou se ele não daria um abatimento. Mas a
gaiatice de Zé Chagas, não perdoava nem a morte! Disse para o homem: “Se o
senhor levar dois caixões, eu faço menos”. Não levou uma sova de pai e filho
por exclusiva sorte.
E
assim, havia mais dois na cidade semelhantes no raciocínio rápido e piadas
instantâneas; Expedito Sobreira e Costinha.
JAPONA Clerisvaldo B. Chagas, 16 de julho de 2025 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3.269 Não tem para onde correr ...
JAPONA
Clerisvaldo B. Chagas, 16 de julho de 2025
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 3.269
Não
tem para onde correr meu amigo, enquanto a juventude estar se divertindo na
Festa da Juventude, o frio estar cortando em Santana do Ipanema. Estou no
momento, armando esta crônica enrolado com uma camisa, um esquente e dois
casacos além de um par de meias, para poder atravessar noites e dias do mês de
julho. Isso faz lembrar os grandes invernos do Sertão e a Festa de Senhora
Santana em plena frieza bruta. Cada qual se defendia do frio como podia, até
que chegou a Santana do Ipanema um tipo de agasalho chamado “japona”. Bastava
aquele casacão pesado que ia até as coxas para resolver o problema. Um
ex-marinheiro dizia que aquilo era o casacão de frio usado pela marinha do
Brasil.
Não
é possível deixar de lembrar dessa década de 1960, dos grandes parques armados
na cidade, das bandas musicais nas festas, de tantas e tantas diversões
profanas, de frio exagerado e de inverno até o dia 15 de agosto, das lagartas
que nesse mês atacavam a lavoura que morria de frio e das investidas daquelas
pragas. Entretanto, ainda hoje, o povo chega aos pés dos palcos de cantoras e
cantores famosos, com chuva ou sem chuva, com frio ou sem frio e os espetáculos
prosseguem até as quatro da madrugada com o mundo caindo gelo. Incrível como o globo
vive carente de diversão! Mas no caso da
“japona”, nunca mais apareceu por aqui esse tipo de agasalho. Há muito sumiu
misteriosamente.
Mas
se a “japona”, desapareceu, continua a fileira de festas contínua em Santana do
Ipanema: São José, Juventude, Senhora Santana e São Cristóvão. Cada uma melhor do que a outra, satisfazendo
muito bem os que procuram a fé e os vários tipos de brincadeiras. E quem gosta
dessa frieza que vai até os ossos, passa batom nos lábios, escova os cabelos ou
calça jeans e camisa colorida e aprumam pela porta da frente. Pular, beber,
namorar que o tempo urge. E de hoje para amanhã tem a procissão dos carreiros
que abre a festa da padroeira. Pelo menos isso para preencher o vazio deixado
pela Festa da Juventude.
Vai
chegar junto?
MATRIZ
DE SÃO CRISTÓVAO (FOTO; B,CHAGAS/LIVRO 230).
O CARROSSEL DE SÃO JOSÉ Clerisvaldo B. Chagas, 15 de julho de 2025 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3.265 Sim, fiq...
O
CARROSSEL DE SÃO JOSÉ
Clerisvaldo B. Chagas, 15 de julho de
2025
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica:
3.265
Sim,
fiquei surpreso ao passar pela festa do santo no Bairro São José. Parque de
Diversões armado, inclusive a roda gigante, não esperava encontrar ali o
carrossel semelhante ao da minha infância, aquele dos cavalinhos. Pode até ter
havido alguma diferença, mas a essência era a mesma. Por trás do “sobrado do
meio da rua”, nos fundos das casas comerciais “A Triunfante”, do Senhor Manoel
Constantino e da “Arquimedes, autopeças”, em todas as festas de Senhora
Santana, era armado o Curre e a Onda, além de soltura de balões. Assim o
carrossel era chamado: “Curre”. A “Onda”, mais rude, muito primitiva, era um
redondo grande de tábuas presas com ferro e o conjunto ligado ao centro de um
pedestal sustentado por vários raios de vergalhão.
Ambos
os brinquedos se enchiam de gente e começavam a girar iluminados por candeeiros
de flandres e animados por sanfoneiros e seus outros complementos. Muita gente
da zona rural. Mas, não era fácil arranjar uma namorada matutinha. Em
determinada hora da novena de Senhora Santana, algumas pessoas traziam um balão
de papel sedoso, procuravam arrumá-lo sempre na esquina do “sobrado” do meio da
rua”, bem na porta dos fundos da “Casa Triunfante”, bem pertinho da “onda” e do
curre, E assim o balão subia bonito sobre a festa da padroeira. Chegava à
novena também a banda de música do maestro Miguel Bulhões que entrava na festa
tocando e assim penetrava na Matriz para acompanhar a novena com suas páginas
musicais.
Os
cavalinhos do curre eram de madeira, se não me engano, os da Festa de São José
podem até ser de outro material. Mas como sabemos, no caso da roda-gigante,
ainda continua no mundo de hoje, ficando cada vez mais alta e desafiadora em
todos os lugares do mundo, isto é,
continua na moda. Eita, que até bairros e povoados ganharam o direito de festas
com parques de diversões. Que bom! O povo dos sítios também chamava o carrossel
além de “curre”, “estrivolim”. É isso, se não existir um nome, o povo inventa. E
voltando ao Bairro São José, o santo mesmo podia não ter carrossel, curre ou “estrivolim”,
mas a sua festa mesmo sim.
FUNDOS
DO “SOBRADO DO MEIOS DA RUA”, ONDE SE ARMAVAM “CURRES”, ONDAS E FAZIAM VOAR
BALÃO. (FOTO: DOMÍNIO PÚBLICO/LIVRO 230).

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.