ONÇA NA CAATINGA Clerisvaldo B. Chagas, 24 de março de 2026 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3385   É bom se alegrar...

 

ONÇA NA CAATINGA

Clerisvaldo B. Chagas, 24 de março de 2026

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3385

 




É bom se alegrar em saber da volta de animal extinto à região de origem. Quando éramos crianças e adolescentes, caçávamos nacaatinga rala e na caatinga densa, mas não tínhamos medo de onça. De cobras, até que sim, pois a caatinga também é reino   de Cascavéis, jararacas, e outras espécies perigosas. Não tínhamos medo de onça porque elas só existiram mais ou menos até os tempos de nossos avós. O caso da onça já extinta era o mesmo do tamanduá, do veado catingueiro ou galheiro e o meio sim, meio não, sobre o lobo guará. Os outros bichos maiores, apesar da caça e do desmatamento desenfreado, resistiram em todos os lugares como o qato-do-mato (Jaguatirica), raposa, gambá, cobra, teiú e outros. Ainda chegamos a comer carne de veado da feira de São José da Tapera, com seus últimos refúgios do veado e da onça parda (no Sertão não havia onça pintada).

Pois, saiu em determinados sites que uma onça-parda (Puma monocolor), foi vista na caatinga alagoana, atualmente, flagrada por uma câmara noturna (foto abaixo). Ora, há quase três década ninguém ouvia falar mais em onça viva. Somente vogava as histórias dos mais antigos como novos avós. Porém, sobre o felino flagrado, o site em que lemos a notícia, não diz em que município isso aconteceu, diz apenas que foi no bioma caatinga. Além disso, fala também de outros flagrantes como o veado catingueiro e o gato-do mato. Ora, uma boa ação tem que ser completa, limpa e honesta. Notícia boa, mas aleijada é irritante.

A onça parda, também chamada no Sertão de onça-de-bode ou Suçuarana, vive de comer pequenos animais, mas na falta de caça, se aventura em atacar o criatório das fazendas como os caprinos – daí ser chamada onça-de-bode – ovelhas e galináceos. Dificilmente a Suçuarana ataca o ser humano e sempre foge com medo da sua presença. O Sertão tem inúmeras narrativas sobre vaqueiros dando pisa em onça com chapéu de couro. A realidade mesmo da notícia boa, é que o ressurgimento desses animais acima na caatinga, poderá repovoar a região, praticamente, dados como extintos, no Bioma.

 

 

                                                DECADÊNCIA HISTÓRICA   Clerisvaldo B. Chagas, 23 de março de 2026 Escritor Símbolo do ...

 

 

                                           


DECADÊNCIA HISTÓRICA  

Clerisvaldo B. Chagas, 23 de março de 2026

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3384

 


A foto abaixo mostra uma rua no comércio de Santana do Ipanema, chamada José Américo. Rua de armazéns e outras casas comerciais de tradição. Ao mesmo tempo a foto mostra a decadência do algodão no Nordeste.  Em primeiro plano, o estado lastimável do prédio de esquina com seus vizinhos, parte da mesma empresa; uma das duas algodoeira que havia na cidade. Elas compravam o algodão vindo do campo e, com seu maquinário poderoso, separava o capulho do caroço. O algodão era prensado, enfardado e exportado para o Sul do Brasil, em caminhões. O caroço era vendido nas próprias algodoeiras, como ração para o gado leiteiro. Era o dinheiro quente de final de ano dos agricultores.   Acompanhei de perto a fase do algodão e, como professor de Geografia, levei alunos a visitar a indústria do prédio da foto.  

A foto é sem dúvida uma nostalgia, uma época se desmanchando viva na horrível aparência das edificações. Uma saudade oca que incomoda. Acompanhei o ciclo do algodão desde criança, iniciando no povoado Pedrão, na vila de Olho d’Águas das Flores:  cultivos, colheitas, transportes, os ensacamentos, as balanças, as vendas. Carros de boi lotados levando algodão para a algodoeira da vila. Era o Sertão da bolandeira (vapor, descaroçador) que fazia de Alagoas o estado mais rico do Nordeste. O Sertão alagoano com inúmera bolandeiras espalhadas que motivavam a atração do Rei do Cangaço pela riqueza produzida. Em Santana do Ipanema, as algodoeiras do senhor Domício Silva, (foto) no Comércio Central e a do industrial João Agostinho, no Bairro Camoxinga, movimentavam o Sertão Inteiro.

Com a chagada do inseto “Bicudo”, os algodoais nordestinos foram dizimados e com ele toda a cadeia do produto. Acabava assim uma das grandes riquezas do semiárido. Uns dizem que a praga fora natural, outros que teria sido introduzida por aquele pais que todos conhecem para acabar com a nossa competividade com ele. E se houve investigação, verdade, nunca soubemos. O certo mesmo foi inúmeras figuras pelo nordeste inteiro semelhantes à da tristeza múltipla da foto desta crônica

(FOTO CEDIDA PELO ESCRITOR  JOÃO NETO CHAGAS, O PRIMO VÉI).

 

                              

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

onça na caatinga

  CACHAÇA COM PÃO DE LÓ Clerisvaldo B. Chagas, 20 de março de 2026 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3383   Foi ele que...

 

CACHAÇA COM PÃO DE LÓ

Clerisvaldo B. Chagas, 20 de março de 2026

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3383

 



Foi ele quem me batizou. O padre que se tornou o mais famoso do Sertão alagoano conduziu a paróquia de Senhora Santa Ana dos anos 20 ao início dos anos 50. Era filho do povoado Entre Montes, pertencente ao município de Piranhas. Foi ele quem recebeu para criar o bebê de Corisco e Dadá. Morava num casarão às margens da foz do riacho Camoxinga, com suas irmãs. Havia um irmão dele no cartório da cidade e outro como fabricante de aguardente, em Santana do Ipanema. Com o poder da Igreja, na época mandava absoluto na cidade até que dividiu seus prestígios em 1936, com o coronel, então, tenente Lucena, chefe do batalhão recém-criado e chegado à cidade para combater os cangaceiros do bando de Lampião.

Apesar de ser um homem austero, contam que ele nunca almoçava sozinho. Já chegou até mandar portador a um hotel convidar qualquer caixeiro-viajante que estivesse ali para almoçar com ele. Certa feita organizou atendimento aos flagelados da seca que desciam de Pernambuco e acampavam no leito seco do rio Ipanema. Foi um dos fundadores do Ginásio Santana e o grande reformador da Matriz de Senhora Santana. Mas, o incrível era que o padre tolerava bem o Carnaval. Os blocos carnavalescos entravam nas casas dos políticos para beber com variados tira-gostos. A cachaça rolava pela cidade e, quando os blocos chegavam à casa do Padre Bulhões, eram bem recebidos e o tira-gosto era pão de ló, da mesma massa fina da qual se fazia as hóstias.

Nunca tinha ouvido falar que um cachaceiro comesse pão como tira-gosto de cachaça. Mas esses casos acima foram registrados pelos que os conheceram e até com ele conviveram. Não sei sobre Carnavais, mas o seus substituto, padre Luís Cirilo Silva, quando chegava vinho de primeira para encher as garrafas da igreja, convidava alguns personagens da sociedade santanense para ajudar a encher as garrafas, provavelmente, em um quarto que havia por trás do altar-mor. Divertia-se a valer vendo os cabras se embriagando com o vinho de missa, entre eles, Henaldo Bulhões Barros e Expedito Sobreira.

Beber em casa de padre não era pecado?

Eu, hem!

CACHAÇA NELES (DIVULGAÇÃO.)