ALTO SERTÃO Clerisvaldo B. Chagas, 9 de novembro de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.609 Talvez o amigo já ...

 

 

ALTO SERTÃO

Clerisvaldo B. Chagas, 9 de novembro de 2021

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.609






Talvez o amigo já tenha tido dúvidas com esse negócio de Sertão, Alto Sertão e Sertão do São Francisco, em Alagoas. Pois bem, vamos tentar explicar esse caso, uma vez que os órgãos noticiosos usam com frequência essas denominações, mas não explicam, principalmente sobre os investimentos estaduais.  Tudo é Sertão mais existe essa divisória. Vamos esclarecer sobre o segundo caso, futuramente falaremos sobre os outros. Quando estamos nos referindo ao Alto Sertão, para quem vem de Maceió pela BR-316, passando em Santana do Ipanema, poderemos iniciar com Canapi, Inhapi, Mata Grande, Água Branca, Pariconha, Delmiro Gouveia, Olho d’Água do Casado e Piranhas. Para quem vem da capital por Arapiraca, Olho d’Água das Flores, a relação, sem detalhes, tem início com o último que será o primeiro, Piranhas e a sequência ao contrário. Este é o Alto Sertão composto por nove municípios.

E se você pretende conhecer o Alto Sertão Alagoano, pode iniciar tanto por Canapi quanto por Piranhas, pelo menos sai da rotina  litorânea e vem se deslumbrar com as características do interior longe da capital. Em Piranhas, Olho d’Água do Casado e Delmiro Gouveia (município), pode se deliciar com o rio São Francisco, seus cânions, suas barragens hidrelétricas, culinária, histórias de Lampião, a história de Delmiro Gouveia e sua fábrica de linhas, além de gozar de cidades ensolaradas e típicas sertanejas. Subindo o Maciço de Mata Grande, quer dizer que sobe para as partes montanhosas do Alto Sertão com Mata Grande, Água Branca, Pariconha e Inhapi. Poderá conhecer o cenário de Mata Grande, uma visão diferente entre montanhas, suas histórias cangaceiras e de mando em Alagoas no início do século vinte. Conhecer a igreja de ouro nas alturas de Água Branca e do alto avistar terras da Bahia, o Casarão da Baronesa e episódios do cangaço. Em Pariconha sobre as invasões de Virgulino Ferreira e em Inhapi fábrica de carros de boi. Isso fora tantas outras coisas que podem agradar.

Nas planuras de Canapi, culinária, fábricas de queijo e muitas histórias de luta para o progresso além do morro do Carié, o mais famoso inselberg de Alagoas, no Entroncamento Carié (hoje povoado e posto da PRF). Para que viajar por outros estados se você tem um mundo sertanejo a desbravar na sua terra, juntamente com sua família?! Aproveite o agora e o depois das duplicações rodoviárias. Como bem sabemos, as cidades de uma mesma região não representam unanimidade em tudo. Cada uma com suas características onde o visitante curioso vai se empanturrar de conhecimentos para o resto da vida.

Quantas coisas valiosas não foram ditas por conta da conta de uma crônica!

Meu, nosso, Alto Sertão Alagoano!

Salve.

OLHO d’ÁGUA DO CASADO (NIDE LINS)

 

  ENGRAXANDO Clerisvaldo B. Chagas, 8 de novembro de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.608 Os homens gostavam de andar...

 

ENGRAXANDO

Clerisvaldo B. Chagas, 8 de novembro de 2021

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.608



Os homens gostavam de andar elegantes e cuidavam dos sapatos. Isso fez com que surgisse na frente do “sobrado do meio da rua”, um profissional com estilo diferente: uma cadeira de balanço, de ferro, trepada em alguma coisa e que ficava alta onde o cliente se sentava e parecia um rei. Ali João Engraxate, passou muitos anos engraxando sapatos entre a “Casa Triunfante” (miudezas) de José e Manoel Constantino e a “Autopeças” de Arquimedes. João Engraxate era pai do famoso cantor Cícero de Mariquinha e morava à Rua Antônio Tavares. Não sei se ele foi o primeiro engraxate da cidade, mas após sua instalação surgiram inúmeros outros profissionais, cujo ponto central era a Praça Manoel Rodrigues da Rocha, defronte a Matriz de Senhora Santana.

Essa humilde profissão, conseguiu retirar muitos adolescentes e mesmo adultos da marginalidade e da fome. Havia tantos engraxates no centro da praça que era difícil escolher. Porém, um deles destacou-se com o passar dos anos, e passou a ser o preferido da clientela desde que tivesse disponível. Chegou a colocar um trono parecido com o do João Engraxate, porém mais modesto. Era o primeiro a ser procurado e referência profissional em Santana do Ipanema. É que Zequinha adquiriu uma técnica em que fazia o sapato brilhar muito mais do que nas mãos dos seus companheiros. Foi o primeiro a usar tic-tac, um líquido para sapatos brancos e bicolores, moda dos boêmios da época. As mulheres também mandavam seus sapatos para a praça, principalmente para o falado Tic-Tac.

Muita gente boa ajudava o adolescente a comprar a caixa de engraxar com seu respectivo material: graxas, escovas, tintas, flanelas e papelões para não melar as meias do cliente.  A concorrência na praça obrigava aos rapazes tentar ruas e avenidas de maior movimento. Certa vez, Zequinha, a liderança, deixou a profissão e surgiu depois de camisa branca e gravata preta como motorista de ônibus, só não lembro se era da Progresso. Daí em diante os engraxates foram rareando e sumiram de vez. O próprio tênis chegou para ficar... E sem engraxador. Certa vez surgiu um camaleão na árvore que abrigava os profissionais, de outra feita foi um macaco prego que passaram a ser a diversão da Praça e cuidados pelos engraxates, mas desapareceram tão misteriosamente quanto chegaram.

Ah! Sertão em marcha.

ENGRAXATE ( crédito: DURVAL MOREIRA. COM).

 

  CHEGOU CHEGANDO Clerisvaldo B. Chagas, 5 de novembro de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.607     Quarta-feira últ...

 

CHEGOU CHEGANDO

Clerisvaldo B. Chagas, 5 de novembro de 2021

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.607




    Quarta-feira última, portanto, já dentro do mês de novembro, bem perto do anoitecer, ela chegou, cabra velho, a trovoada. Muita chuva, relâmpagos e trovões abalaram Santana do Ipanema. Não sabemos informar sobre o caso na zona rural ou em outros municípios sertanejos, mas o que foi despejado na cidade, fora o medo que causou, agradou bastante. Nesta quinta-feira quis o fenômeno se repetir à mesma hora, com trovões e relâmpagos, mas a intensidade foi muito menor. Podemos dizer que foi um belo pé d’água que cercou todo o perímetro urbano. Sempre estamos a esperar as trovoadas a partir de novembro, mas não tão cedo assim; ainda mais duas vezes seguidas, coisa rara em nosso meio. É agora quando fechar a rama na Caatinga que o vaqueiro procura derrubar boi no mato.

Na minha rua, o toró engrossou, os gatos apressaram os passos para o fogão de casa. O trovão estalou, passou cachorro correndo que nem bala acompanhava. O entregador de gás, escapuliu para um abrigo e um cavaleiro cruzou a rua que nem um alucinado. Novos relâmpagos se abriram, nova zabumbada nos céus e o tufo d’água fez riacho na sarjeta.  Com estuque ou com telhado, ninguém se furta a vistoriar o teto no interior da oca, embora muitos tenham se jogado em baixo da cama diante dos arrotos sem freios dos trovões. Um menino corajoso aproveitou a biqueira da esquina e sentiu cair o calção folgado deixando a bunda de fora. A enxurrada viaja tranquila até o riacho Camoxinga, o Salobinho, o Salgadinho ou diretamente para o rio Ipanema, captor de toda a bacia da região.

A esperança sertaneja se renova para o período novembro/abril em barreiros cheios, barragens sangrando e açudes lado a lado. Mas, tudo isso são suposições para os que vivem da terra, do criatório, da boa vontade dos que administram a Natureza terrestre. De qualquer maneira já disseram os profetas modernos: “Depois dessa pandemia nada será como antes, nada”. Portanto o jogo de xadrez poderá continuar o mesmo, todavia com regras diferentes. A humildade do vivente tem que ser muito maior do que a soberba tradicional humana. Sabedoria é aguardar com a virtude da paciência os novos tempos traçados pelas forças soberanas. Já é noite da quinta e o tempo continua abafado. Pingadeira no teto e nuvens indefinidas. A Natureza é 10.

CHUVA NA TERRA. (FOTO: B. CHAGAS/ARQUIVO).