SOBRE MIM

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.
O CANAL DOS SACRIFÍCIOS Clerisvaldo B. Chagas, 2/3 de fevereiro de 2023 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.836 Dep...
O
CANAL DOS SACRIFÍCIOS
Clerisvaldo
B. Chagas, 2/3 de fevereiro de 2023
Escritor
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.836
Depois
de longo silêncio à população, políticos voltam a falar do “Canal dos Sacrifícios”.
Iniciado no século XX não temos a menor previsão em que século será concluído.
Um canal planejado para sertão e agreste, ainda não conseguiu deixar o sertão e
ainda estar “batendo fava” no município de São José da Tapera. Ainda faltam os
municípios de Olho d’Água das Flores, Monteirópolis, Jacaré dos Homens, Batalha
e Jaramataia para poder adentrar à região agrestina rumo a Arapiraca, ponto
final do projeto. No Brasil as coisas são assim “todas atrapaiadas”, como diz o
homem sertanejo. Essa pouca, mínima, esquecida divulgação faz muito mal para o
crédito popular. Tem que haver uma divulgação constante de tão bilionária obra,
pelo menos de como estar sendo aproveitado todo o trecho concluído.
Diferente
de países sérios, uma obra de envergadura dessa, seria um projeto de governo
que não deveria sofrer paralisação, ações negativas de dirigentes a mercê do
sabor político. O Canal do Sertão, a quem chamamos Canal dos Sacrifícios,
poderia transformar o pequeno estado de Alagoas, em uma verdadeira
Califórnia, mas pelo andar da
carruagem... E que carruagem! Será que os cavalos brancos e possantes do
“reino” foram substituídos por jumentos nordestinos? Você já viu aquela música
que fala entre tapas e beijos? Será que foi feita inspirada no Canal do Sertão?
Ora vai, ora para. Ora vai, ora para que nem tangedor de porco a pé. E se o
Canal ainda nem saiu do Sertão, imagine quando será que o Agreste o receberá!
Quando
se fala do Canal do Sertão, por outro lado, é uma obra que mexe profundamente
com o orgulho nosso da engenharia brasileira. E só quem conhece de perto aquela
cobra gigante furando a caatinga nos mais diferentes terrenos, correndo por
dentro de túneis, por baixo de pontes e pontilhões, subindo colinas, deslizando
em ladeiras emolduradas por facheiros e mandacarus, espelhando o azulado do céu
na superfície serena da forma gigante, pode bater no peito e exclamar: louvada
seja a inteligência do homem.
Agora,
voltando a primeira face, não encontramos outro caminho de completa louvação,
pelo menos até agora, nessa novela mexicana sem fim e capenga de administração
100% segura.
Que
falta fazem as previsões do padre Francisco Correia!
CANAL
DO SERTÃO (FOTO DO POVO).
MUTUCA Clerisvaldo B. Chagas, 31 de janeiro de 2023 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.835 Andar pelas trilhas ser...
MUTUCA
Clerisvaldo
B. Chagas, 31 de janeiro de 2023
Escritor
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.835
Andar
pelas trilhas sertanejas é coisa extremamente agradável. Cada um anda com o
traje que quiser, contudo, o traje adequado pode evitar muitos aborrecimentos e
até coisa piores. Por exemplo, andar de bermuda não evita os riscos dos
garranchos nas pernas, as urtigas e arranhões durante quedas. O não uso de
botas ou calçados adequados, não livra de uma picada de cobra no pé e ou
espinhos duros espalhados pelo vento. Uma calça comprida evita muitas coisas,
mas outras não. O que acontece é que, na verdade andar no mato, na caatinga,
nas chapadas, não é a mesma coisa de perambular pelas praias, pelas dunas...
Pelas restingas. Entre as pequenas coisas que incomodam nas caminhadas
sertanejas pelo matagal, é a Mutuca, principalmente em tempo de inverno e nas
primeiras chuvaradas, porém, a mutuca pode incomodar a qualquer tempo.
Talvez
– para você que mora na capital – nunca tenha ouvido falar sobre a mutuca.
Trata-se de uma espécie de mosca gigante que se alimenta de sangue de animais e
de gente também. Nas trilhas gosta muito de picar nas pernas descobertas, mas
não respeita lugar para a picada. A dor é forte, duradoura e “coçadeira”. Além
de ser bicho nojento, sua picada não mata, mais incomoda muito tirando o prazer
da caminhada. Até mesmo na literatura cangaceira vamos encontrar a “fazenda
Mutuca”, em Pernambuco, engajada na história de Virgulino Ferreira, antes de
virar Rei do Cangaço. Portanto, a mutuca é mais um desencanto dos que não
apreciam andar nas matas. Além disso o inseto não tem o destaque de outros
segredos da caatinga. Inúmeras coisas da flora e da fauna não são divulgadas,
mas que merecem muita atenção por vaqueiros, mateiros, raizeiros (garrafeiros),
fazendeiro e rezadores do Sertão.
A
mutuca também possui outras denominações no Nordeste, como: butuca, moscardo,
motuca e tavão. Esses nomes, até desconhecido para nós, sertanejos alagoanos,
não mudam em nada o seu ataque surpresa às nossas caminhadas na caatinga.
Falamos acima sobre as investidas do inseto no período chuvoso quando o mato
está completamente verde e fechado. A caminhada fica mais difícil e a atenção
aos perigos da mata, diminuem devido a preocupação em afastar galho e folha que
cruzam os caminhos. Mas no caso da mutuca, não tem como escapar se ela estiver
presente. Chega feroz e pica. Dificilmente sua agilidade no tapa consegue surpreender
e matar uma mutuca. Muitas vezes o inseto, devido ao seu tamanho, é até
confundido com uma abelha.
É
assim o nosso Sertão do Padre Cícero, Luiz Gonzaga e Lampião.
Curta,
curta, curta...
LAMPIÃO E O BALANÇO Clerisvaldo B. Chagas, 30 de janeiro de 2023 Escrito Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.834 Entre os 43...
LAMPIÃO
E O BALANÇO
Clerisvaldo
B. Chagas, 30 de janeiro de 2023
Escrito
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.834
Entre
os 437,875 km2 do território de Santana do Ipanema, estão os sítios
rurais “Queimadas do Rio”, “Serrote dos Brás” e “Tapera do Padre”. Queimadas do
Rio, também popularmente simplificado para “As Queimadas”, está localizado a
cerca de 4 quilômetros da sede. Seu acesso acontece pela AL-220, logo após um
trecho do riacho João Gomes. Entre a
rodovia e o sítio, é preciso passar uma baixada que costuma formar lagoa em
período de muita chuva, interditando a passagem. Subiu a rampa, estaremos nas
Queimadas, uma área mais alta, muito agradável e usada para chácaras por
pessoas de classe média. Nos tempos mais difíceis de estudos, muita gente
rompia a distância para a cidade, a pé, em busca das escolas. Assim, inúmeras
criaturas das Queimadas conseguiram se formar e trabalhar em empresas
importantes do estado de Alagoas.
O
seu nome tem origem num incêndio muito grande nas roças e caatinga que só foi
parar ao atingir o rio Ipanema, vários quilômetros abaixo. Já o serrote do
Brás, representa um monte, uma serra pequena habitada pela família que lhe
empresta o nome. E ainda, entre outros sítios da vizinhança, vamos encontrar
nas margens do Ipanema o sítio Tapera do Padre. Não sabemos se a Tapera (casa
pobre) fora moradia de alguém que se formara padre ou eram terras que
pertenciam a um sacerdote. O cenário também é agradável e completamente
diferente do terreno mais alto das Queimadas. É incrível como a paisagem muda
rapidamente de um sítio a outro no Sertão.
Voltando ao sítio Tapera do Padre, quando
Lampião, em 1926, invadiu a zona rural de Santana do Ipanema e entrou na,
então, vila de Olho d’Água das Flores, passou na Tapera do Padre. Segundo um
cangaceiro preso, entrevistado em Recife, Lampião submeteu a torturas um
cidadão do lugar e o colocou num balanço, balançando-o até fazê-lo cair e
morrer da queda e de tudo. Se não fosse aquela declaração cangaceira de
referência muito rápida ao episódio do bandido maior, não teria sido
registrado. Não temos tanta certeza, mas tudo indica que o entrevistado fora o
cangaceiro santanense Gato Bravo (antes, conhecido por Josias Mole). Foi ele
quem guiou Lampião nessa empreitada até a vila de Olho d’Água.
Se
você curtir, tem mais. Se não curtir, a tendência é ir rareando esses trabalhos
até desaparecer.

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.