VIM, VI E VENCI (Clerisvaldo B. Chagas. 30.4.2010) Após receber vários títulos pelo mundo, finalmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva...

VIM, VI E VENCI

VIM, VI E VENCI
(Clerisvaldo B. Chagas. 30.4.2010)
Após receber vários títulos pelo mundo, finalmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recebe sua coroa do mais importante jornal do planeta. Ser apontado pelas folhas desse tradicional meio de comunicação representa o muito e o muito mais. Ser chamado de “O líder mais influente do mundo”, deve ter sido uma surpresa para muita gente que só enxerga mandatários de países alheios, sobretudo dos Estados Unidos. Refiro-me aos brasileiros que nunca estão conformados seja lá com o que for dentro do seu próprio país. São os eternos mal-humorados que se encontram em áreas econômicas políticas e mesmo em todas elas. O pessimista eterno nem nele próprio acredita, sendo fonte perigosa aos que convivem com a sua ingrata presença. Lula sempre expressou admiração por Juscelino. Tanto poderemos dizer que foi Juscelino o maior presidente do Brasil quanto afirmar que o Lula está sendo o maior de todos. Mas é importante saber que ninguém é igual a ninguém. Quando fazemos alguma coisa por grandiosa que seja, foi porque alguém atrás nos deixou em condições de fazer. O aperfeiçoamento da humanidade já está dizendo: é um processo continuado de retalhos que vão formando uma colcha confortável e sem fim.
Já falamos muito neste espaço de democracia ampla sobre a política externa brasileira. Ser amigo das nações, negociar com todos os países, extirpar armas nucleares e resolver problemas diplomaticamente, na luta por um planeta melhor e mais igualitário quanto possível. Essa ofensiva tem sido sucesso absoluto até porque, como foi reconhecido na Europa, ninguém levou ideias novas para a política mundial, a não ser o Brasil. A Inglaterra, acostumada com sua esquadra poderosa e seu veneno traiçoeiro fomentando intrigas pelo mundo. Estados Unidos, senhores do trovão que se acham gigantes e indestrutíveis, continuam unidos a Inglaterra formando a dupla sertaneja Cascavel e Jararaca. Como pode um país pacifista enfrentar as montanhas sem os botes infernais dos pedregulhos? Poucos acreditavam nos pensamentos pacatos de Mahatma Gandhi contra os poderosos canhões dos impávidos britânicos. Venceu o amor e a inteligência privilegiada do líder indiano onde quem ditava era a arrogância da força. São esses impérios de arsenais nutridos que estão caindo atordoados com a força nova espalhada pela coragem, solidariedade, amor e tino advocatício dessa nação brasileira. Não importa que tenha sido Lula. Poderia ter sido José, Benedito, Erundina ou Senhorzinho Malta. O importante é o reconhecimento sobre uma nação pouca séria para uma seriedade extremada, atriz global no mundo da truculência. Emociona o que falou o representante do Caricom dizendo que Lula disse coisas que eles ─ países pequenos ─ sempre tiveram medo de dizer. É o Brasil gritando pelos menores e oferecendo ajuda.
Alguns deslizes são cometidos pelo presidente brasileiro, mas isso em momento algum macula o mérito do reconhecimento do Time. Sim, isso é motivo de regozijo para a pequenina cidade pernambucana de Caeté, berço do seu presidente; lugar de passagens obrigatórias desse colunista. Motivo também de orgulho para o Nordeste e todo o Brasil. “O cara”, o líder mais influente do mundo atual. Quem diria! Com 83% de aprovação no governo e mais um título desses, o que mais desejará o presidente! Que teria dito Lula aos familiares? Na falta de César, talvez: “Veni vidi vice”. "VIM, VI E VENCI”.

SE MANDAREM ME BUSCAR (Clerisvaldo B. Chagas. 29.4.2010) GOSTARIA QUE OS PROFESSORES INTERPRETASSEM ESSE TEXTO COM SEUS ALUNOS. Montado...

SE MANDAREM ME BUSCAR

SE MANDAREM ME BUSCAR

(Clerisvaldo B. Chagas. 29.4.2010)
GOSTARIA QUE OS PROFESSORES INTERPRETASSEM ESSE TEXTO COM SEUS ALUNOS.

Montado na década de 50 o rapaz percorre a rua poeirenta do povoado. O peito caboclo emite um som nostálgico com assovio em acesso:

“Ô sanfoneiro
Moça mandou lhe chamar
Para tocar um baião no Ceará
Tu diz a ela que de pé em não vou lá
Eu só vou de avião se mandarem me buscar...”

É o eco notívago do forró de ontem. O zumbido caracolado na manhã de sol:

“Tu diz a ela que de pé eu não vou lá
Eu só vou de avião se mandarem me buscar...”

Os passos se perdem longe, lá na curva da extremidade... E o céu de tão puro azul iluminado, deixa escapar o voo do gavião ligeiro. Extenuam-se as sombras das casas velhas, procurando o chão. Retorna a rua solitária. A bela igreja de cal parece demarcar a ida. Da casa de farinha voam lavandeiras pelas janelas abertas de barro avermelhado. Por trás das casas “empretecidas”, compassos sutis de cacarejo. Curvas nos rastros fundos de carro de bois; tristeza de rolas brancas à sombra do coração-da-índia. O povoado vive. Modorra, cochila, dorme. Brilha um fio de prata na lagoa seca sob garranchos pendidos de arbustos marginais. Do galho negro da baraúna, o urubu observa as trilhas tortuosas de areia fina. E aquele canto? Aquele canto infantil sem força e cadenciado? É o canto expulso da escolinha que sopra os rachões da calçada pequena. Um débil esforço de futuro na sinfonia do distante, na ingenuidade pura, no débito de um destino sem. Quando a brisa chega, brinca de pinhão, contorna a terra e ergue o pó circulante. O tempo espaceja, tange o meio-dia, derrama dourado nas colinas. Passa o rebanho em fila por um. Dentes cavalares provocam ruídos nos aiós trançados. Losangos de palma verde compõem céleres os balaios de cipós; vão caindo sem piedade pelo gume avivado do facão. Ergue-se o homem em molambo, antes de cócoras na sua faina cotidiana. Animais galopantes trazem os bêbados da feira. Risos, gargalhadas, tomam o espaço da bodega receptiva que se firma na pinga boa. Cai o cuspo redondo pelo chão imundo. Misturam-se odores de pães frescos dos alforjes com o gasóleo de litros e barricas. Um maço de fósforos, um pacote de sal, uma réstia de alho roxo, pendurados no caderno fiador. Um tilintar de esporas, um deslizar macio de coxim, um longo galope interrompido. E os raios fúlgidos e dourados recriam no horizonte desenhos esquisitos. Ah! O menino debruçado na janela. Do tempo. Contempla o cenário de um dia inteiro no povoado. Desde as primeiras casas ao cemitério branco que em paz descansam.
O tempo molda a alma do futuro romancista. Lá vem o rapaz de novo. O da cantiga. Será ele mesmo ou somente a lembrança da manhã morando na rua! A lembrança que jamais irá embora, nem com odores de pão fresco nem com gasóleo de barricas. Parece que foi ontem:

“Tu diz a ela que de pé eu não vou lá
Eu só vou de avião SE MANDAREM ME BUSCAR”.








O PÉ DE JESUS (Clerisvaldo B. Chagas. 28.4.2010) Desafiando o espaço, impávido e formoso, estava ali o serrote do Cruzeiro, representando a...

O PÉ DE JESUS

O PÉ DE JESUS
(Clerisvaldo B. Chagas. 28.4.2010)
Desafiando o espaço, impávido e formoso, estava ali o serrote do Cruzeiro, representando a religião da terra. O cimo rochoso do monte testemunhava a multidão dos que subiam até ali. E eu, nos meus espertos 10 ou 11 anos avisava a minha doce mãe Helena Braga sobre a intenção de subir o morro. A encomenda naqueles dias era sempre repetida: trazer imbé para enfeitar os jarros de casa. E lá ia eu satisfeito com meus companheiros, vadeando o Ipanema, subindo o Cachimbo Eterno, inclinando o dorso pelo aclive do serrote. Vitória, mais uma vitória ao chegar ao topo esbranquiçado. A água verde empoçada no lajeiro, pontos de dormidas de urubus, macambiras, urtigas e o cenário deslumbrante da cidade aos nossos pés. Capelinha singela, santos no altar e o cruzeiro enorme abraçando as casas tão longe, de Santana. “Daqui Lampião observava a cidade; recebia verba dos coiteiros. Sob essa cruz tem um tesouro enterrado. Olhe aqui a marca do pezinho do menino Jesus quando passou fugindo para o Egito”. Íamos a todas as extremidades do monte, olhar, se extasiar, sonhar. Com o tempo passando e já com sede, íamos coletar flechas das macambiras e brincar de guerra uns com os outros. Não podíamos esquecer os imbés encomendados que diziam espantar as cobras. E essas plantas estavam perto das pedras que rodeavam o morro. Depois descíamos felizes e saudosos para entregar os pedidos e receber os beijos carinhosos em casa. Certa feita, em uma dessas visitas, a capelinha estava em ruínas. Alguns adultos estavam por ali. Um deles dirigiu-se a nós, pediu silêncio com o indicador a boca. Depois me pegou delicadamente pela cintura e me ergueu até o altar, deixando-me junto com a santa dando uma lição educada e tão cheia de ternura a respeito das imagens. Nunca esqueci esse gesto carinhoso e bem significativo na minha vida, por um homem que era considerado mal-humorado por muitos. Vim conhecê-lo muitos anos depois com o nome de Dermeval Pontes, profissão alfaiate. Um filho dele era bem rebelde e tornou-se meu aluno tempos adiante. Eu aconselhava muito o Vitárcio por causa do gesto paterno do passado. Mas nunca contei a ele, Vitárcio e, por timidez, não relembrei isso ao Dermeval que era muito mais velho do que eu.
Vez em quando subo o serrote do Cruzeiro, sem companheiro algum. Solitário, devagar, degustando o passado sob as árvores maiores da capoeira que cinge o monte. Vou contando os degraus que fizeram para a via-sacra. Abandonados. O mato está seco. A flora desabitada. Apenas lagartixas e formigas cruzam o chão rachado. A folhagem se balança como saudação. Uma parada aqui outra acolá para sentir todo o prazer de uma solidão repleta de energia. Um olhar fugidio para baixo. Mais um passo em direção ao cimo. Finalmente o lajeiro, as mesmas macambiras, as mesmas urtigas, a quietude profunda e bem aqui, bem aqui mesmo onde essas duas lágrimas caíram, a mesma marca do PÉ DE JESUS.