AINDA VI Clerisvaldo B. Chagas, 8 de maio de 2026 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3412   Era do tempo de meus avós ...

 

AINDA VI

Clerisvaldo B. Chagas, 8 de maio de 2026

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3412

 



Era do tempo de meus avós e pais, quando no Sertão o transporte era realizado a cavalo e similares e carro de boi. Os tropeiros, também chamados almocreves, no Sertão, transportavam mercadoria para a zona de Mata e de lá trazia os seus produtos. Geralmente o almocreve trabalhava com um tropa de burros de cerca de 10 a 12 muares. Do sertão levavam queijos, peles, carne de sol, farinha... De lá traziam cachaça, tecidos, mel de engenho, rapaduras e mais.  No lugares mais altos do Sertão, como em Mata Grande, por exemplo, havia engenhos rapadureiros, também. Ligeiramente, visitei a um deles, em pleno alto da cidade. Tempos depois, mesmo na era dos motores, ainda vi uma caravana de burros transportando rapaduras em caçambas de madeira, cortando o alto sertão de São José da Tapera. Deduzo que saíra de Mata Grande em direção ao Agreste.

E por falar nisso, Lampião respeitava muito o almocreve, inclusive, porque também já fora almocreve transportador de couros e peles, no alto Sertão de Delmiro Gouveia.  O comboeiro, tropeiro   podia até sair vivo, mas se estivesse transportando rapadura, perdia a carga toda. Isso poderia valer também para as forças volantes que percorriam os sertões em busca de cangaceiros. O último almocreve que conheci na região foi o senhor Cirilo, quando, ultimamente, pude incluí-lo em meu romance que está no “prelo” AREIA GROSSA. Há pouco tempo, através, do, então, Secretário da Agricultura do município, Jorge Santana, foi descoberta peça grande de ferro que fazia parte de um engenho no município de Santana do Ipanema, sítio rural Serrote dos Bois.

Como se vê, serrote é uma elevação, uma pequena serra e, nesse caso, com altura suficiente para se plantar cana, implantar engenho e produzir rapadura. Mas, coisa boa você ter  passado por várias épocas distintas e ser testemunha viva do desenrolar do mundo. Terminamos colocando uma pedra em cima da combinação de levarmos a relíquia santanense para o Museu Darras Noya. Sobre qualquer peça representativa dos almocreves,  nada vimos no Museu,  Assim com não vimos sobre os canoeiros, sobre os curtumes...

Ô povo esquecido!

BURROS CARGUEIROS

 

 

  CANOEIROS Clerisvaldo B. Chagas, 5 de maio de 2026 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3411   Em Santana do Ipanema,   ...

 

CANOEIROS

Clerisvaldo B. Chagas, 5 de maio de 2026

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3411

 



Em Santana do Ipanema,  sertão de Alagoas,  homens intimoratos repetem os atos de louvor ao servirem à comunidade sertaneja, mobilidade, conforto, espetáculo e emoções, tendo como base solidária o afluente do rio São Francisco, rio Ipanema.

Mesmo em regime temporário, foi possível demonstrar que nos incômodos das cheias retumbantes, como as maiores conhecidas, 1941 e 1960, ideias iluminadas poderiam baixar a terra em benefícios dos viventes sertanejos santanenses.

Tendo bebido nessa fonte divina, um grupo de homens, “chapéu de couro”, resolve quebrar o isolamento entre regiões, motivado pelos períodos de cheias no rio Ipanema. Ainda sem ponte alguma, rio e riachos encabrestavam  o progresso sucessivo desse núcleo bravio do interior. Os serrotes Cruzeiro, Gonçalinho... Testemunharam  a formação dos heróis canoeiros e suas mobilizações de vai e vem  em águas turbulentas, destravando o nó da Natureza. O Ipanema não seria algoz, mas sim, cúmplice de água e sangue dos que  faziam a terra de Santa Ana.

Ao encerrarem as suas atividades.  os canoeiros ficaram esquecidos. Nenhum registro oficial, nenhuma linha ofical  sobre eles. Assim envelheciam os titãs, um véu se eternizava e a juventude não era informada de 26 anos dos feitos históricos dos homens canoeiros.

Não suportando mais o silêncio da história, pesquisei  na poeira de morrentes fontes de tradição e consegui trazer ao candeeiro, esta página agonizante do nosso povo, da nossa gente que não merece venda e mordaça sobre os que tanto serviram com a merecida bravura curiboca.

Tenho a imensa honra em ter resgatado a história dos canoeiros de Santana do Ipanema, para preencher as escolas, a nova geração e o orgulho em ser santanense

Setembro de 2020.

Extraído do livro: CHAGAS, Clerisvaldo B. Canoeiros do Ipanema. Grafmarques, Maceió, 2020.

VEÍCULO ATRAVESSADO EM CANOAS (DOMÍNIO PÚBLICO/LIVRO:CANOEIROS DO IPANEMA)