OS PEDAÇOS DA TRAVESSA Clerisvaldo B. Chagas, 1 de junho de 2026. Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3423   Após cente...

 

OS PEDAÇOS DA TRAVESSA

Clerisvaldo B. Chagas, 1 de junho de 2026.

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3423

 



Após centenas e centenas de anos, tive que passar mais uma vez pela primeira travessa das Ruas Nova/Antônio Tavares. Travessa  encravada bem no coração do Centro da cidade. Dali, é só caminhar cerca de cem metro e se chegará ao Comércio de Santana do Ipanema. Apesar de ser  a primeira travessa em ordem de  afastamento do Cento Comercial, ladeirosa e ainda hoje forrada de pedras brutas, foi muito valorizada no passado, devido a sua localização privilegiada. Sim, que as suas residências são humildes e de quintais curtos, como apartamentos para famílias pequenas. Iniciando na Rua Nova e descendo até a rua Antônio Tavares, Havia e ainda há, uma bueira que soltava seu bafo fedorento para toda a travessa, Daí apelidarmos o local como o Beco do Fedor. 

Na esquina da Rua Nova, morava o guarda de peste, Wilson Modesto e que chegou a ser presidente do Ipanema Atlético Club e  torcedor Fanático do Flamengo. Na esquina, de baixo, na Antônio Tavares, Havia a residência do senhor Zé Lopes onde funcionava uma fabriqueta de Aguardente. Casa, no futuro, transformada em uma das primeiras gráficas da “Rainha do Sertão”. E, no meio da travessa, uma casa alugada que foi a  minha primeira residência após o casamento. Aqueles que foram proprietários daquelas residências na década de 60, já partiram. E a travessa, ainda a chamávamos de beco, nunca recebeu benefícios públicos através de todas as gestões municipais.  Quem a conheceu antes e passa por ali agora, contempla esse trecho abandonado e um beco imundo, o mato tomando conta e as casas esperando apenas um soco para se amontoarem em ruínas.

Esse fenômeno tornou-se costumeiro no Brasil. Mansões e mansões valiosas antigamente, desgastaram-se de forma bruta após a morte de titular. Os descendentes, nem vendem nem restauram e ficam quarteirões, becos, ruas e travessas como moradias de fantasmas que até faz medo transitar por esses lugares à noite. Estamos, então, vivendo uma época de destruição de memórias, tanto material quanto imaterial. Acho que já chegamos a um tempo só de presente, sem passado. Um passado em que o próprio tempo evolutivo engoliu. Ah! Nem adianta saudosismo nem melancolia profunda que chocam e maltratam. Penso que é só  se engajar no exército do presente e marchar. Marchar com eles,... Os desmemoriados.

AMPULHETA.

 



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