OLHE A FONÉTICA! ( Clerisvaldo B. Chagas .28/29.05.2009) Tarde Fria era bastante carismá...

OLHE A FONÉTICA!

OLHE A FONÉTICA!

(Clerisvaldo B. Chagas.28/29.05.2009)

Tarde Fria era bastante carismático. Risonho, muito risonho o Tarde Fria. Sapateiro na margem direita do Ipanema gozava de um prestígio ímpar. Adorava cantar. O canto para ele parecia preencher todas as lacunas de um homem boêmio e pobre. Às vezes parecia ridículo ao usar palavra longe do sentido. Outras vezes agia como se tivesse faltando um parafuso naquela cabeça briosa. Quando andava pelas ruas não lhe faltava chamado; ou pela brincadeira ou pela popularidade, só se ouviam os gritos de “Tarde Fria”! “Tudo bom, Tarde Fria?” E o sapateiro cantor, paletó curtinho, riso na boca e balanço no corpo, parecia feito de mola no caminhado e no cumprimento aos fãs.

Em Santana do Ipanema, Alagoas, os sapateiros sempre se deram bem com a bola. Nos fins de tarde de todos os dias o futebol corria solto pelas areias grossas do rio seco. Cidade repleta de sapatarias, areias lotadas de jogadores. Foi aí que teve início uma proliferação de times de futebol que não acabava mais. A área rural do Município também entrou na bondade futebolística, gerando agradável lazer aos matutos nas tardes domingueiras. Os anos cinquenta faziam a festa! E tudo isso era incentivo dos jogos do Rio de Janeiro transmitidos pelo rádio ou pelo desempenho do Ipanema Atlético Club que fazia fila nas surras aos adversários. Contratos e mais contratos começaram a surgir entre times da cidade e dos sítios. As pequenas torcidas de bairros aproveitavam a folia sobre caminhões alugados e só retornavam à noite quando saiam as resenhas das rodadas. Quando faltava juiz, qualquer um servia e lá se ia qualquer um.

Quando o São Pedro, time da Rua Antonio Tavares, também formado pelo sapateiro e feirante Zé Limeira, resolveu sair, causou entusiasmo. Iria jogar em lugar do sítio chamado Dorinha (Ô) Pinto. (Até hoje nunca descobri onde fica). Ora, adivinhe, meu caro amigo, quem foi o escolhido para juiz! Sim senhor, ele mesmo, o Tarde Fria.

Uma vez em Dorinha Pinto, o sapateiro boêmio reuniu os dois capitães e ministrou umas advertências com palavras tão belas que ninguém nada entendeu. E já na hora de apitar o início, disse: Tudo aqui tem que ser pela fonética. E só então o jogo começou.

O tempo vai passando e as regras da vida parecem confusas. Pai mata filho, padres estupram, juízes roubam, pessoas mudam de sexo e a chuva sobe. Não seria justo dizer que o passado foi melhor e nem que o presente é maravilha. Mas que está faltando muito coisa está. Um remendo nessas alturas do mundo seria mesmo impossível. Mas, quem sabe se as regras da convivência fossem realmente apreciadas e cumpridas não fariam um planeta melhor? Enquanto isso não acontece, aumenta a miséria, o ódio e o poder bélico das nações. Ah mundo velho desmantelado! Como tudo parecia tão simples como as instruções do boêmio Tarde Fria: Hoje aqui, meus amigos, tem que ser na base da fonética.

PÃO DE AÇÚCAR (Clerisvaldo B. Chagas. 26/27.05.2009) Nos meus romances “Def...

PÃO DE AÇÚCAR

PÃO DE AÇÚCAR


(Clerisvaldo B. Chagas. 26/27.05.2009)

Nos meus romances “Defunto Perfumado” e “Fazenda Lajeado” (inédito), dedico algumas páginas à bela cidade de Pão de Açúcar. O lugar não é histórico somente porque recebeu o Imperador D. Pedro II. Pão de Açúcar foi à base para o povoamento do Sertão alagoano pelos sertanistas, pelos compradores de terras, pelos meeiros, pelos criadores de gado que se espalharam dali por todo o oeste de Alagoas. Os navios subiam de Penedo, pai de todos, com as mercadorias vindas da Bahia e de Pernambuco, fazendo da antiga Jaciobá um próspero entreposto comercial. Os carreiros, os tropeiros e, depois, os caminhoneiros, distribuíam a mercadoria por todo o Sertão e alto Sertão. Também eram escoados os produtos regionais por aquele porto, como feijão, milho, carnes, couros e peles. O intenso movimento no corredor de importação e exportação fez de Jaciobá uma espécie de capital avançada. As formas de fazer açúcar, parecidas com suas montanhas, deram origem ao nome atual da cidade que nunca deixou de ser o “espelho da lua”. Mas, o visionário Padre Francisco Correia, dizia: Hoje Pão de Açúcar, amanhã pão de areia.

A construção de estradas para a capital foi deixando Pão de Açúcar na contramão. A ponte sobre o rio são Francisco nunca foi construída e, finalmente a hidrelétrica de Xingó selou a profecia do Padre Francisco. Para quem já não tinha o antigo comércio, herdar o rio seco, assoreado, foi mesmo uma tragédia. Várzeas e lagoas sem água são várzeas e lagoas sem peixes e sem arroz. Muitos pescadores viraram artesãos, agricultores... Músicos. Caiu a navegação e o padrão de qualidade ribeirinha.

Resta a Pão de Açúcar o turismo como a grande saída. A cidade nunca perdeu a beleza. O visitante se encanta com a imponência da sua igreja; com o casarão que hospedou D. Pedro II; com a arquitetura do seu casario; com o relevo e a hidrografia do lugar. As histórias de Lampião, a proximidade com a hidrelétrica de Xingó; o folclore e a fama de ser a terceira cidade mais quente do Brasil são armas poderosas para erguer a terra de “Seu Dema”, escritor sanfranciscano que se encantava com meu primeiro romance: “Ribeira do Panema”.

Vamos aguardar iniciativas dos filhos de Pão de Açúcar, para que todo seu patrimônio histórico-cultural seja mostrado ao mundo. Investir no turismo é investir na melhoria do padrão de vida; é descobrir-se para o Brasil, para a Europa, para a América do Norte. Mesmo iniciando com o turismo interno, alagoano e nordestino, já seria uma imensa riqueza para quem tem o potencial da sempre encantadora Pão de Açúcar.

A PITÚ COMEU (Clerisvaldo B. Chagas. 26.05.2009) Quem conhece o mundo dos cantador...

A PITÚ COMEU

A PITÚ COMEU

(Clerisvaldo B. Chagas. 26.05.2009)


Quem conhece o mundo dos cantadores sabe. Existem os encontros de cantorias em residências, em festivais, em congressos. As histórias dos bons encontros são repassadas para o planeta da viola. Particularmente circulam estrofes de boca em boca que foram criadas em situação de debate entre dois cantadores ou isoladas e ocasionais. Em ambas as situações, esses versos tornaram-se imorredouros e são repassados de geração a geração. Falemos aqui apenas das estrofes ocasionais. Acontecem quando um repentista está viajando ou chega a um lugar qualquer e faz uma estrofe com alguma coisa que lhe chamou a atenção. Se os versos forem realmente bem feitos e alguém anotá-los na cabeça, vai passando à frente e percorre assim o Nordeste. Toda estrofe tem uma história. Versos sem história não tem sentido. São inúmeras as estrofes ocasionais que a gente houve. Pesquisadores já publicaram livros contando várias delas. Eu mesmo desisti de um trabalho desses quando vi que era preciso viajar muito para colher os seus verdadeiros autores que são trocados por outros. Exemplo famoso de uma estrofe ocasional:

Certa vez um poeta viajante teve recusado um pequi para matar a fome. Ao chegar a pé no povoado próximo, dizendo ser repentista, recebeu uma proposta que se provasse o que estava dizendo não pagaria nada. Não se fez de rogado:



“Acredite meu senhor

Eu gostei muito daqui

Terra de mulher bonita

De cabra bom no fuzí

Mas em redor de uma légua

Tem cabra fi duma égua

Que nega até um pequi”



O saudoso Adeilson Dantas, pioneiro do rádio no Sertão, resolveu pesquisar estrofes interessantes para enfeixá-las num livro. Convidou-me para viajar a cidade de Monteiro, o “Vaticano da Poesia”. Não realizamos o intento. Entre as várias estrofes colhidas pelo radialista, duas me despertaram interesse. Foram feitas na hora pelo poeta santanense Zé de Almeida. A primeira, não vou contar para evitar constrangimento com o alvo. Um cidadão de Santana iria ser candidato a vereador e pediu uma estrofe. Como Zé de Almeida não gostava do indivíduo fez a estrofe ao contrário, de modo chulo. A segunda vamos ouvir Adeilson:

“Zé de Almeida estava no comércio de Santana, no bar do comerciante Mário Pacífico. Um locutor muito apreciado na cidade, chamado Umberto Guerrera — que exagerava na bebida — ia passando na praça”. E eu vou dizer o que mais, depois que Almeida o viu e recitou de repente?:



“Lá vai Umberto Guerrera

Locutor amigo meu

Já perdeu até as contas

Das cachaças que bebeu

Tá vivo daqui pra cima

Pra baixo a Pitú comeu”