QUEBRANGULO (Clerisvaldo B. Chagas. 25.6.2010) O Nome Quebrangulo parece estranho junto a centenas e centenas de outras denominações de ci...

QUEBRANGULO

QUEBRANGULO
(Clerisvaldo B. Chagas. 25.6.2010)
O Nome Quebrangulo parece estranho junto a centenas e centenas de outras denominações de cidades amazônicas, principalmente. Na realidade, Quebrangulo (sem circunflexo nenhum) é município alagoano, antigo, situado, geograficamente, no patamar dos 500 metros, cuja cidade, Palmeira dos Índios, no sopé da escarpa, é ponto de referência. Famoso uma vez por ter nascido ali o escritor Graciliano Ramos, o núcleo volta à fama, agora pela tragédia das águas que também castigaram outros municípios alagoanos e de Pernambuco. Ocupada há muito pelos índios chucurus e por quilombolas, a região era pródiga em peixes e caças, como os queixadas que viviam por ali. Um dos chefes quilombolas, habilidoso e de coragem, era chamado pelos companheiros, Quebrangulo, significando para eles, “matador de porcos”. Assim, o lugar ficou com a denominação, mudando, depois, para Vitória e voltando mais tarde ao antigo nome Quebrangulo. A cidade foi formada às margens do rio Paraíba do Meio e do riacho Quebrangulinho, por isso mesmo, cheia de pontes.
No primeiro quarto do Século XX, os sertanejos que viajavam a Maceió, deslocavam-se a cavalo até Viçosa onde embarcavam no trem até a capital. Depois a via férrea chegou a Quebrangulo, encurtando um pouco essa viagem de sacrifícios. Em seguida o trem chegou a Palmeira dos Índios, muito mais perto do Sertão, facilitando essas idas e vindas. Mas, na metade do século, o asfalto Maceió ─ Palmeira também foi construído, mudando radicalmente tudo. Os viajantes do Sertão usariam, a partir daí, uma viagem direta e rodoviária Santana ─ Palmeira ─ Maceió. Quebrangulo virou contramão para o oeste do estado.
Passei em Quebrangulo apenas duas vezes na ida e na volta à vila São Francisco. Fiquei impressionado com as casas tão perto do rio, o pequeno patamar do comércio e a posição estratégica da igreja. Tive vontade de retornar e fazer pesquisa sobre a cidade que tem uma presença diferente. Nunca me foi possível. Da sua Quebrangulo, falava, entusiasticamente, o seresteiro José de Souza Pinto (o Juca Alfaiate). O nome de origem da terra, as pescarias no Rio Paraíba do Meio e distribuição de peixes à pobreza, através de Belo, seu pai, enchiam o Juca de saudades. Viera de Quebrangulo passear em Santana e daqui somente saiu para o cemitério, levado pelo mal contraído em criança, no rio dos quilombolas.
Agora, infelizmente, a terra de Graciliano, do chefe matador de porcos, das tradições folclóricas, de um pedaço grande da história de Alagoas, cai na malha fina dos dramas das chuvas, das cheias descomunais, da irresponsabilidade de muitos. E nesse momento tão desesperador que queremos dizer tudo (nada que ninguém ainda ignore) apenas transferimos da boca para o coração os sentimentos de pena, solidariedade e revolta. Vamos agora ajudando nos donativos e em tudo que estiver ao alcance, para os nossos irmãos de Branquinha, Rio Largo, Atalaia e outros bravos municípios como QUEBRANGULO.

É DIA DE FOGUEIRA (Clerisvaldo B. Chagas. 24.6.2010) Diz o povo que “ninguém é de ferro”. E como o guerreiro também é gente, vai armando ...

É DIA DE FOGUEIRA

É DIA DE FOGUEIRA

(Clerisvaldo B. Chagas. 24.6.2010)

Diz o povo que “ninguém é de ferro”. E como o guerreiro também é gente, vai armando a sua barraca na porta de casa, checando acendedores, moldando o feixe, consultando os vasilhames. É preciso ressuscitar o velho Luiz Gonzaga, lustrar o móvel, empurrar o som. Não sair de casa no São João e em pleno Natal, virou preceito e tradição que acompanha o homem. Vão chegando às primeiras sombras da noite e bombas estouram em toda a periferia santanense. Chega o combustível, os fósforos, o cavaco cheiroso que vai ajudar as chamas. E surgem os primeiros foguinhos tímidos que se robustecem na base do abano de palha. Quando a tradição funciona, funciona tudo. O panelaço de milho cozido começa a soltar o cheiro gostoso que preenche os cômodos da casa, a calçada em festa, as narinas sensíveis. E o som eletrônico expulsa os forrós das mais expressivas correntes. Vai queimando o cavaco, vão tilintando as garrafas. A fumaceira da cidade polui o ar na sinfonia de rojões, foguetes e bombas. Passa um grupo de bêbados na rua, discutindo sobre resultado de jogo. O que parece mais sóbrio resmunga: “Deixe essa peste de jogo para lá, Dezinho! Quero saber de gota serena de jogo! Vamos logo beber um tubão no bar de Zé de Pedro, lavar a cara com outra na Toca do Monumento e dançar no Cachimbo Eterno até a mãe do cão chegar! Surgem informações do comércio que por ali “está um desembesto triste”, mas o guerreiro nem quer saber. Sua festa é na calçada, sozinho ou acompanhado. Maria diz que é hora de forrar o estômago porque bebida quente não alisa. Está certo ela. É, então, que alguém vai adiantando a canjica, pamonha, enquanto carnes nos espetos aguardam sal grosso e as primeiras brasas. O amigo não vai se aborrecer, mas hoje à noite não existe mais lugar para times, vuvuzelas ou jabulanis como disse o ébrio da rua.
Sanfonas e bandas de forró vão animando tudo: as fogueiras clareiam à noite desafiando o IBAMA e, entre um trago e outro, sai o churrasco, de presença obrigatória. Ruas com asfalto vão perdendo o brilho da madeira, pela proibição municipal. Mas ruas de calçamento ainda podem abrilhantar o evento junino. Balões estão sob ordens severas e viram apenas papel colorido com energia limpa. Mas, para quem gosta, restam palhoções, barracas de fogos, bancas da culinária típica e as brincadeiras de comadres que terminam de vera.
Parece até que lá no céu, o santo homenageado também se diverte, pelo menos olhando do alto as cachaçadas da Terra. Sei não. Sei apenas que João é muito querido aqui no Nordeste e dizem que no alto também. Deve ser mesmo, pois até agora nenhuma pessoa teve a petulância de falar mal do homem do carneirinho. Amanhã, quinta-feira, voltaremos à realidade universal. Hoje, hoje mesmo (quarta) é só forró até umas horas e uma animação sem fim. Em casa, o guerreiro, reservadamente vai participando. Jogue esse computador fora, compadre! Hoje É DIA DE FOGUEIRA.

CARROSSEL NO TÊNIS (Clerisvaldo. B. Chagas. 23. 6.2010) Enjoado das notícias internacionais de sempre, resolvi distrair-me no São João da “...

CARROSSEL NO TÊNIS

CARROSSEL NO TÊNIS
(Clerisvaldo. B. Chagas. 23. 6.2010)
Enjoado das notícias internacionais de sempre, resolvi distrair-me no São João da “Escola Carrossel”. A Carrossel está situada à Rua Prefeito Joaquim Ferreira, aqui mesmo em Santana do Ipanema, bem pertinho do Hospital Arsênio Moreira. E assim fui deixando para trás a empáfia do chato Maradona e o rolar da jabulani pelos gramados africanos. No cair da tarde, estavam ali ao longo do meio-fio, mais de vinte carroças perfiladas esperando as ordens dos carroceiros. A meninada tomava conta da passagem, feliz e ansiosa vestida em trajes juninos. As carroças traziam enfeites de palhas de coqueiro ouricuri e atraíam os mais levados que pulavam sobre as tábuas. Cada burra da fileira estava enfeitada com uma belíssima flor, perto da cabeça, combinando assim com as roupas e os ornamentos dos alunos. O tempo ia passando, mas para as crianças parecia não passar nunca. Os retardatários iam chegando, trazendo as ferinhas protagonistas do espetáculo que logo seria visto. E assim, mais um pouco e foi dada a ordem de embarque. Distribuídos pelas “diligências”, professores e alunos recebem a boa notícia da partida. Quem foi que disse que esqueceram o som? Lá vai a música eletrônica à frente, animando a festa, abrindo caminhos, glorificando o santo. O destino é o Tênis Clube Santanense prédio edificado no outro extremo da cidade, no Bairro Monumento. Prédio de tantas e tantas glórias que marcaram o povo de Santana. Os enfeites das ruas, os buracos provocados pela Sucesso ─ firma que faz o saneamento básico ─ o balanço das carroças, as burras guiadas pelos seus donos, trazem a felicidade de criaturinhas, pais e avós. Fazendo nuances pelas praças e avenidas, chega à eufórica caravana ao seu destino.
Quem não estava no Tênis pode imaginar, entretanto, o forró animado por um trio composto de sanfona, zabumba e triângulo, que espetava o couro dos meninos. Ninguém ficava quieto, apesar dos insistentes pedidos para diversas apresentações. Quem ia ficar quieto, compadre, com um negócio tão bom daquele jeito! Foi tanto chumbinho no salão, tanta música, tanta dança, que até os acompanhantes sonhavam também em pular naquela brincadeira. E no meio de crianças bonitas e felizes, estava o Guilherme Chagas (o Gui), filho do conhecido casal Ângelo Santos e Clerise Chagas, com a parceira de apresentação Marília Silva, filhinha do casal Mário Silva e Renalda Silva. Muitas pessoas que eu conhecia e inúmeras novatas na memória. E a sanfona velha de guerra não parava de tocar. O futuro do Brasil rodopiava na inocência da bondade divina. Tranças e vestidos faziam o especial feminino que encantam salões e passarelas. Bigodinhos de lápis, chapéus de palhas, vão flertando de brincadeira as fitas coloridas da feminilidade. E finalmente, quando chega o momento da parada, parece haver um muxoxo no ar. Um quase “não acredito” dos lápis e dos batons. Pais, avós, professores, saem satisfeitos com o largo sorriso de alívio, mas o Guilherme Chagas (o Gui) não acha muito bom esse negócio de encerramento, não: “Ah, eu quero mais!”. Quando haverá de novo CARROSSEL NO TÊNIS?