ANJOS DA MATA (Clerisvaldo B. Chagas. 28.6.2010) Se você não o conhece, pelo menos já ouviu falar. O imbuzeiro (Spondias tuberosas Arruda)...

ANJOS DA MATA

 ANJOS DA MATA
(Clerisvaldo B. Chagas. 28.6.2010)
Se você não o conhece, pelo menos já ouviu falar. O imbuzeiro (Spondias tuberosas Arruda) é árvore nativa sertaneja que prolifera de Sergipe ao norte de Minas Gerais. O imbuzeiro recebeu o apelido de “árvore sagrada”, por causa das suas raízes conhecidas como xilopódios, batatas, cuncas ou cafofas. Muito se poderia falar sobre essa árvore, hoje devidamente estudada, famosa ─ como os juazeiros ─ em muitos romances nordestinos, inclusive os nossos. Do imbuzeiro tudo se aproveita, até mesmo na medicina natural contra vermes e diarréias. As túberas contribuem com o doce, água durante as secas, remédios e farinha. Lembro muito bem da minha infância na feira de Santana do Ipanema comprando o que mais gostava: broa, quebra-queixo de amendoim, tijolos de jaca e de raiz de imbuzeiro. Pouca gente sabe que o fruto dessa árvore amiga tem origem no Tupi-guarani “y-mb-u”, imbu, cujo significado é “água-que-dá-de-beber”.
Falamos sobre o imbuzeiro apenas para compará-lo a jaqueira que aparece muito na Zona da Mata. Embora plantada também no Sertão e Agreste, é a jaqueira (Artocarpus heterofhyllus) originária da península do Sião. Pode crescer até vinte metros de altura e dela tudo se aproveita, à semelhança do imbuzeiro. Como não oxida o ferro, é muito usada na indústria naval e pelos artesãos.
O miolo, porém, dessa conversa, é porque o imbuzeiro, apesar de atender tanta gente com fome, principalmente nas grandes secas, não proporcionou um drama como o que viveu pessoas da comunidade Moquém, município de União dos Palmares, Alagoas. Ali, quando a cheia destruía a cidade e carregava tudo, famílias de quilombolas galgaram uma jaqueira enquanto a fúria das águas destroçava os arredores. Distribuídas pelos galhos, essas criaturas (num total de trinta) adultos, velhos, crianças, inclusive bebê e mulher grávida, viram a morte de perto. Elas experimentaram a angústia, o medo, o terror da escuridão e das águas violentas que rugiam sem parar, querendo os corpos do Moquém. Havia a perspectiva infernal da queda da árvore que teimava em proteger os descendentes de escravos. Inúmeros outros dramas aconteceram na Zona da Mata, contudo, nada que se compare ao horror da jaqueira. Dadas como desaparecidas, as pessoas do Moquém foram encontradas e relataram o fantástico e incrível milagre acontecido a superfície do rio violento.
Quando baixamos a cabeça, à semelhança de médiuns experimentados, parece que estamos vendo as águas forçando em turbilhão; a jaqueira providencial resistindo, assegurando a vida dos que a ela confiaram à salvaguarda. Em torno da árvore uma porção de anjos esvoaçava como abelhas na colméia, protegendo as trinta almas do Moquém. Bendita jaqueira que devolveu sãs e salvas, as pessoas do purgatório. Sem dúvida, a comunidade jamais mostrará o machado a sua protetora que merece festas e aposentadoria até virar o tronco, de velhice. Na parte espiritual, orar, agradecer e aplaudir os ANJOS DA MATA.

QUEBRANGULO (Clerisvaldo B. Chagas. 25.6.2010) O Nome Quebrangulo parece estranho junto a centenas e centenas de outras denominações de ci...

QUEBRANGULO

QUEBRANGULO
(Clerisvaldo B. Chagas. 25.6.2010)
O Nome Quebrangulo parece estranho junto a centenas e centenas de outras denominações de cidades amazônicas, principalmente. Na realidade, Quebrangulo (sem circunflexo nenhum) é município alagoano, antigo, situado, geograficamente, no patamar dos 500 metros, cuja cidade, Palmeira dos Índios, no sopé da escarpa, é ponto de referência. Famoso uma vez por ter nascido ali o escritor Graciliano Ramos, o núcleo volta à fama, agora pela tragédia das águas que também castigaram outros municípios alagoanos e de Pernambuco. Ocupada há muito pelos índios chucurus e por quilombolas, a região era pródiga em peixes e caças, como os queixadas que viviam por ali. Um dos chefes quilombolas, habilidoso e de coragem, era chamado pelos companheiros, Quebrangulo, significando para eles, “matador de porcos”. Assim, o lugar ficou com a denominação, mudando, depois, para Vitória e voltando mais tarde ao antigo nome Quebrangulo. A cidade foi formada às margens do rio Paraíba do Meio e do riacho Quebrangulinho, por isso mesmo, cheia de pontes.
No primeiro quarto do Século XX, os sertanejos que viajavam a Maceió, deslocavam-se a cavalo até Viçosa onde embarcavam no trem até a capital. Depois a via férrea chegou a Quebrangulo, encurtando um pouco essa viagem de sacrifícios. Em seguida o trem chegou a Palmeira dos Índios, muito mais perto do Sertão, facilitando essas idas e vindas. Mas, na metade do século, o asfalto Maceió ─ Palmeira também foi construído, mudando radicalmente tudo. Os viajantes do Sertão usariam, a partir daí, uma viagem direta e rodoviária Santana ─ Palmeira ─ Maceió. Quebrangulo virou contramão para o oeste do estado.
Passei em Quebrangulo apenas duas vezes na ida e na volta à vila São Francisco. Fiquei impressionado com as casas tão perto do rio, o pequeno patamar do comércio e a posição estratégica da igreja. Tive vontade de retornar e fazer pesquisa sobre a cidade que tem uma presença diferente. Nunca me foi possível. Da sua Quebrangulo, falava, entusiasticamente, o seresteiro José de Souza Pinto (o Juca Alfaiate). O nome de origem da terra, as pescarias no Rio Paraíba do Meio e distribuição de peixes à pobreza, através de Belo, seu pai, enchiam o Juca de saudades. Viera de Quebrangulo passear em Santana e daqui somente saiu para o cemitério, levado pelo mal contraído em criança, no rio dos quilombolas.
Agora, infelizmente, a terra de Graciliano, do chefe matador de porcos, das tradições folclóricas, de um pedaço grande da história de Alagoas, cai na malha fina dos dramas das chuvas, das cheias descomunais, da irresponsabilidade de muitos. E nesse momento tão desesperador que queremos dizer tudo (nada que ninguém ainda ignore) apenas transferimos da boca para o coração os sentimentos de pena, solidariedade e revolta. Vamos agora ajudando nos donativos e em tudo que estiver ao alcance, para os nossos irmãos de Branquinha, Rio Largo, Atalaia e outros bravos municípios como QUEBRANGULO.

É DIA DE FOGUEIRA (Clerisvaldo B. Chagas. 24.6.2010) Diz o povo que “ninguém é de ferro”. E como o guerreiro também é gente, vai armando ...

É DIA DE FOGUEIRA

É DIA DE FOGUEIRA

(Clerisvaldo B. Chagas. 24.6.2010)

Diz o povo que “ninguém é de ferro”. E como o guerreiro também é gente, vai armando a sua barraca na porta de casa, checando acendedores, moldando o feixe, consultando os vasilhames. É preciso ressuscitar o velho Luiz Gonzaga, lustrar o móvel, empurrar o som. Não sair de casa no São João e em pleno Natal, virou preceito e tradição que acompanha o homem. Vão chegando às primeiras sombras da noite e bombas estouram em toda a periferia santanense. Chega o combustível, os fósforos, o cavaco cheiroso que vai ajudar as chamas. E surgem os primeiros foguinhos tímidos que se robustecem na base do abano de palha. Quando a tradição funciona, funciona tudo. O panelaço de milho cozido começa a soltar o cheiro gostoso que preenche os cômodos da casa, a calçada em festa, as narinas sensíveis. E o som eletrônico expulsa os forrós das mais expressivas correntes. Vai queimando o cavaco, vão tilintando as garrafas. A fumaceira da cidade polui o ar na sinfonia de rojões, foguetes e bombas. Passa um grupo de bêbados na rua, discutindo sobre resultado de jogo. O que parece mais sóbrio resmunga: “Deixe essa peste de jogo para lá, Dezinho! Quero saber de gota serena de jogo! Vamos logo beber um tubão no bar de Zé de Pedro, lavar a cara com outra na Toca do Monumento e dançar no Cachimbo Eterno até a mãe do cão chegar! Surgem informações do comércio que por ali “está um desembesto triste”, mas o guerreiro nem quer saber. Sua festa é na calçada, sozinho ou acompanhado. Maria diz que é hora de forrar o estômago porque bebida quente não alisa. Está certo ela. É, então, que alguém vai adiantando a canjica, pamonha, enquanto carnes nos espetos aguardam sal grosso e as primeiras brasas. O amigo não vai se aborrecer, mas hoje à noite não existe mais lugar para times, vuvuzelas ou jabulanis como disse o ébrio da rua.
Sanfonas e bandas de forró vão animando tudo: as fogueiras clareiam à noite desafiando o IBAMA e, entre um trago e outro, sai o churrasco, de presença obrigatória. Ruas com asfalto vão perdendo o brilho da madeira, pela proibição municipal. Mas ruas de calçamento ainda podem abrilhantar o evento junino. Balões estão sob ordens severas e viram apenas papel colorido com energia limpa. Mas, para quem gosta, restam palhoções, barracas de fogos, bancas da culinária típica e as brincadeiras de comadres que terminam de vera.
Parece até que lá no céu, o santo homenageado também se diverte, pelo menos olhando do alto as cachaçadas da Terra. Sei não. Sei apenas que João é muito querido aqui no Nordeste e dizem que no alto também. Deve ser mesmo, pois até agora nenhuma pessoa teve a petulância de falar mal do homem do carneirinho. Amanhã, quinta-feira, voltaremos à realidade universal. Hoje, hoje mesmo (quarta) é só forró até umas horas e uma animação sem fim. Em casa, o guerreiro, reservadamente vai participando. Jogue esse computador fora, compadre! Hoje É DIA DE FOGUEIRA.