domingo, 27 de junho de 2010

ANJOS DA MATA

 ANJOS DA MATA
(Clerisvaldo B. Chagas. 28.6.2010)
Se você não o conhece, pelo menos já ouviu falar. O imbuzeiro (Spondias tuberosas Arruda) é árvore nativa sertaneja que prolifera de Sergipe ao norte de Minas Gerais. O imbuzeiro recebeu o apelido de “árvore sagrada”, por causa das suas raízes conhecidas como xilopódios, batatas, cuncas ou cafofas. Muito se poderia falar sobre essa árvore, hoje devidamente estudada, famosa ─ como os juazeiros ─ em muitos romances nordestinos, inclusive os nossos. Do imbuzeiro tudo se aproveita, até mesmo na medicina natural contra vermes e diarréias. As túberas contribuem com o doce, água durante as secas, remédios e farinha. Lembro muito bem da minha infância na feira de Santana do Ipanema comprando o que mais gostava: broa, quebra-queixo de amendoim, tijolos de jaca e de raiz de imbuzeiro. Pouca gente sabe que o fruto dessa árvore amiga tem origem no Tupi-guarani “y-mb-u”, imbu, cujo significado é “água-que-dá-de-beber”.
Falamos sobre o imbuzeiro apenas para compará-lo a jaqueira que aparece muito na Zona da Mata. Embora plantada também no Sertão e Agreste, é a jaqueira (Artocarpus heterofhyllus) originária da península do Sião. Pode crescer até vinte metros de altura e dela tudo se aproveita, à semelhança do imbuzeiro. Como não oxida o ferro, é muito usada na indústria naval e pelos artesãos.
O miolo, porém, dessa conversa, é porque o imbuzeiro, apesar de atender tanta gente com fome, principalmente nas grandes secas, não proporcionou um drama como o que viveu pessoas da comunidade Moquém, município de União dos Palmares, Alagoas. Ali, quando a cheia destruía a cidade e carregava tudo, famílias de quilombolas galgaram uma jaqueira enquanto a fúria das águas destroçava os arredores. Distribuídas pelos galhos, essas criaturas (num total de trinta) adultos, velhos, crianças, inclusive bebê e mulher grávida, viram a morte de perto. Elas experimentaram a angústia, o medo, o terror da escuridão e das águas violentas que rugiam sem parar, querendo os corpos do Moquém. Havia a perspectiva infernal da queda da árvore que teimava em proteger os descendentes de escravos. Inúmeros outros dramas aconteceram na Zona da Mata, contudo, nada que se compare ao horror da jaqueira. Dadas como desaparecidas, as pessoas do Moquém foram encontradas e relataram o fantástico e incrível milagre acontecido a superfície do rio violento.
Quando baixamos a cabeça, à semelhança de médiuns experimentados, parece que estamos vendo as águas forçando em turbilhão; a jaqueira providencial resistindo, assegurando a vida dos que a ela confiaram à salvaguarda. Em torno da árvore uma porção de anjos esvoaçava como abelhas na colméia, protegendo as trinta almas do Moquém. Bendita jaqueira que devolveu sãs e salvas, as pessoas do purgatório. Sem dúvida, a comunidade jamais mostrará o machado a sua protetora que merece festas e aposentadoria até virar o tronco, de velhice. Na parte espiritual, orar, agradecer e aplaudir os ANJOS DA MATA.


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