CANTE, CANTE CANTADOR Clerisvaldo B. Chagas, 9 de abril de 2020 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.280     Imagem a...

CANTE, CANTE CANTADOR


CANTE, CANTE CANTADOR
Clerisvaldo B. Chagas, 9 de abril de 2020
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.280

    Imagem apenas ilustrativa (TIDAL.COM)












Lugar de pintura é tela
Lugar de formiga é roça
Lugar de barbeiro é choça
Lugar de moça é janela...
Lugar de lume é na vela
Lugar de grau é calor
Lugar de santo é andor
Lugar de lã é a touca
Lugar de beijar é boca
Cante, cante cantador.

Lugar de chave é “tramela”
Lugar de prego é madeira
Lugar de bunda é cadeira
Lugar de chute é canela...
Lugar de vaqueiro é sela
Lugar de corola é flor
Lugar de som é tambor
Lugar de agulha é seringa
Lugar de boi é caatinga
Cante, cante cantador.

Lugar de moeda é cuia
Lugar de tinta é parede
Lugar de cansado é rede
Lugar de beleza é lua...
Lugar de passeio é rua
Lugar de reta é vetor
Lugar de vela é motor
Lugar de muleta é manco
Lugar de namoro é banco
Cante, cante cantador.

Lugar de preá é loca
Lugar de pilha é lanterna
Lugar de onça é caverna
Lugar de raposa é toca...
Lugar de índio é maloca
Lugar de zona é setor
Lugar de giro é rotor
Lugar de estrofe é cordel
Lugar de puta é motel
Cante, cante cantador.


Lugar de lobo é covil
Lugar de lazer é praia
Lugar de cavalo é baia
Lugar de bala é fuzil...
Lugar de pinga é barril
Lugar de sonho é langor
Lugar de casca é licor
Lugar de ovo é a cesta
Lugar de cangalha é besta
Cante, cante cantador.

Lugar de força é cambão
Lugar de grampo é estaca
Lugar que fede é ticaca
Lugar de cobra é grotão...
Lugar de mecha é canhão
Lugar de fama é fulgor
Lugar de marcha é trator
Lugar de letra é artigo
Lugar de bela é comigo
Canta, cante cantador.

FIM


















                                 








O INVERNO DOS PROFETAS Clerisvaldo B. Chagas,8 de abril de 2020 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.289 BARRAGEM CON...

O INVERNO DOS PROFETAS


O INVERNO DOS PROFETAS
Clerisvaldo B. Chagas,8 de abril de 2020
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.289

BARRAGEM CONFIRMA OS PROFETAS (F.OTO: ÂNGELO RODRIGUES).

Com êxito total ainda repercute o encontro anual do Profetas das Chuvas em Santana do Ipanema, sertão de Alagoas. Todos os sertanejos experientes que se apresentaram no evento, confirmaram o que a Ciência vinha pregando sobre um ano bem chovido e um inverno profícuo para a Agricultura e a Pecuária do semiárido. Baseados nas observações da Natureza, os profetas acumulam conhecimento durante décadas e décadas. A Ciência até erra às vezes, mas os Profetas das Chuvas continuam firmes com seus olhares sobre a fauna, a flora, o tempo e os sinais do céu na barra, nas estrelas, no Sol, na Lua e em outros segredos transmitidos pelos     ancestrais. E esse mundo mágico do homem rural dedicado a inquirir
O ambiente, até agora tem sido verdadeiro.
As chuvas que antecedem o inverno de Sergipe, Pernambuco e Alagoas, com o nome trovoadas, vêm surpreendendo pela intensidade e volume. Não ficou um só rio, um só riachinho que não extrapolasse suas enchentes, aguardadas há anos seguidos de seca braba. E o espanta-boiada canta sobrevoando as lagoas; o bem-te-vi não para o bico; sapinhos formam exércitos e marcham dos rios pelas ruas mais próximas das cidades. O inverno para nós tem início em maio, mas muitos agricultores já seguiram conselho dos antigos: “é chover é plantar”. Dessa vez o acauã não cantou; as formigas fugiram dos riachos secos; o mandacaru florou bonito e o rio Ipanema botou cheias e mais cheias torando o São Francisco pelo meio. O sertão queimado ficou verde, belo e espetacular com seus matizes.
São as chuvas que alimentam os rios. São os rios que alimentam a terra e o mar. Os detritos das correntes engordam o peixe que mata a fome do ribeirinho. E os campos ficam dourados entre o sol e a chuva, nasce o grão, chega à espiga, boneca verde de cabelos ouro. Nos terreiros das fazendas, canta-se o “mineiro-pau” na batida do cacete no feijão de arranca. O galo assanha o desejo correndo de asas abertas atrás das frangas. Até mesmo a raposa faz festa em rondas curtas pelos galinheiros. Produtos no mercado, dinheiro no bolso, barriga cheia... Viva Sertão paraíso do mundo.
Com certeza os Profetas das Chuvas estão em alerta.
Com certeza Deus está no comando.
“E nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio”.


A FAMA DO BOI Clerisvaldo B. Chagas, 7 de abril de 2020 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.288 BOI SALGADINHO.  (IMAGE...

A FAMA DO BOI


A FAMA DO BOI
Clerisvaldo B. Chagas, 7 de abril de 2020
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.288
BOI SALGADINHO.  (IMAGEM: YOUTUBE).

Iguaracy, lá para as bandas da região do Pajeú, Pernambuco, está criando fama no Brasil inteiro, através das redes sociais. Cidade com pouco mais de 12.000 habitantes, desafia Norte, Nordeste e todas as regiões brasileiras. O desafio é que possui em suas terras um boi revelação rei da caatinga e desmoralizador de vaqueiro desassombrado. Na vaquejada verdadeira também chamada pega de boi e pega de boi no mato, o boi Salgadinho vai completando suas 39 edições de carreiras e vaqueiro nenhum de inúmeros estados brasileiros, conseguiu lhe pôr as mãos. Vem gente de todos os lugares do Nordeste, uns para tentar a sorte outros atraídos apenas pela brincadeira e o histórico do boi. É grande o número de apostas de todo tamanho quando acontece cada uma dessas edições.
Todo o semiárido tem nos seus anais bois e vaqueiros invulgares cantados e decantados em prosa e versos através de décadas. Foi assim com o boi Saia Branca nos anos 1960, no povoado Várzea de Dona Joana, em Alagoas. Foi vencido pelo vaqueiro Zé Vicente que já era famoso e passou a ser glorificado. Mas agora em Pernambuco o boi Salgadinho estica suas vitórias desafiando excelentes cavalos e cavaleiros. Dizem que ele é treinado para se esconder com mestria dos seus melhores perseguidores. E se é difícil pegá-lo em mato seco, imagine na caatinga verde. O dono do boi também provoca a quem quiser apostar alto contra o animal. Porém, os mais famosos vaqueiros que foram derrotados por Salgadinho, não colocam desculpas esfarrapadas, mas sim, reconhecem a rapidez do ruminante de Iguaracy.
Músicas, aboios, repentes e talvez cordéis, exaltam as qualidades do bicho que não se deixa pegar. Até carro zero entra na jogada de premiação, conforme o que temos visto. Um veterano derrubador de gado falou: “Se um dia pegarem o boi Salgadinho, merece uma estátua em Iguaracy, o boi e o vaqueiro vencedor, porque esse será, sem dúvida, o rei de nós vaqueiros”.
É assim que se vai perpetuando a brincadeira bravia de homens intimoratos desde a chegada do gado nos sertões. Brincadeira essa filha das mangas dos antigos latifundiários criadores.
Você é vaqueiro? Pois tente pegar o Salgadinho, camarada.
Salve o eterno Ciclo do Gado nordestino.