MUNDO NOVO Clerisvaldo B. Chagas, 21 de abril de 2026 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3343   A   primeira mudança q...

 

MUNDO NOVO

Clerisvaldo B. Chagas, 21 de abril de 2026

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3343

 



A  primeira mudança que registrei no mundo do Sertão para o progresso e o modernismo foi a invasão de calçados vindos de Pernambuco. Isso quebrou os curtumes e faliu as fábricas de calçados de Santana do Ipanema. Depois foi a chegada devagar de confecções prontas, vendidas em bancas de feira no ramo de armarinhos. A sua crescente presença, eliminou os alfaiates e as costureiras de Santana do Ipanema. Houve a decadência em lojas de tecidos. E pela primeira vez na vida, vi uma montanha de calcinhas, na feira, vendida a 1 real, cada peça. Incrível para a época. Ao mesmo tempo numa viagem à Juazeiro do Norte, vi montanhas de confecções, cujas calças para homens, custava apenas 15, reais, que era praticamente de graça. No Sertão ainda se usava roupa sobre medida, escassez no vestiário e falta completa de sutiãs e calcinhas.

Mas, o início de fato dessa transformação, foi quando, como adolescente, notei que as fábricas estavam fabricando brinquedos baseadas naqueles que usávamos no cotidiano feitos pelos nossos artesãos: Caminhões de molas de lata, pinhão de goiabeira, Mané-gostoso, principalmente. Depois vieram as bicas (calhas) de plástico para escoar as águas das chuvas no telhado. Isso foi eliminando a profissão de flandreleiro, em outros lugares, chamados funileiros. E essa transformação silenciosa, notada por muito poucas pessoas, continua ainda  e agora com velocidade espantosa. Veja o exemplo do celular, atualizado a cada seis meses.

O progresso faz, então, lembrar do padre Bulhões e o matuto que entrou na igreja, vindo do sítio chamado Mundo Novo. Olhando a nave do Altar-mor, o padre viu quando o matuto entrou na Matriz de Senhora Santana, com chapéu e cigarro apagado na boca. Dirigiu-se ao altar que estava com uma vela   acesa e procurou acender o seu cigarro boró. O padre desceu até lá, procurando se conter para não aplicar mais um  esporro daqueles acostumados a  presentear. “Bom dia, de onde o senhor é?”, indagou. O matuto respondeu: “Sou do Mundo Novo”. E o padre, dominando a impaciência disse coçando a cabeça: “Só podia ser. Pois no Mundo Velho de meu Deus, não existe isso  não”

Durma com um barulho desses!

BBC NEWS. CIDADE DO CABO.



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