FERREIRINHA Clerisvaldo B. Chagas, 15 de outubro de 2024 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3.127   Poeta, compositor,...

 

FERREIRINHA

Clerisvaldo B. Chagas, 15 de outubro de 2024

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.127

 




Poeta, compositor, cantor sertanejo, pescador e garrafeiro, Senhor das Plantas, Ferreirinha iniciara sua carreira cantando sertanejo com seu parceiro Ferreira, fazendo a dupla Ferreira e Ferreirinha. Cantava sempre no coral da Matriz de São Cristóvão e tornou-se nosso companheiro da “Associação Guardiões do Ipanema” – AGRIPA. A foto abaixo representa uma incursão nossa pelo rio Ipanema, trajeto comércio – Cachoeiras, ocasião em que Ferreirinha descrevia várias plantas medicinais no trecho. Era mestre no conhecimento de plantas e usos imediatos. Até livreto editara sobre o tema. Gostava de pescar (inclusive surge pescando de anzol no rio Ipanema no livro inédito “Repensando a Geografia de Alagoas”. Ele nunca viu.

Ferreirinha também era exímio cozinheiro e sempre era contratado para cozinhar para grande quantidade de homens. Infelizmente, em uma noite calma, o nosso poeta santanense, sentara à porta de casa para gozar a brisa da rua, quando passou um malandro das imediações. Pediu-lhe um cigarro. Ferreirinha respondeu que não fumava. O bandido seguiu adiante alguns passos e voltou de repente esfaqueando o cantor. Ferreirinha foi socorrido por familiares, enfrentou maratonas de hospitais, porém nunca sarou completamente e o ferimento nos intestinos virou um câncer. Com o escritor Marcello Fausto estivemos em sua residência para uma visita e ouvimos seu dedilhar numa viola muito boa e que o poeta gostava muito.

Para mim, era o maior de todos os guardiões do nosso grupo. Infelizmente ou felizmente, não sabemos o dia de amanhã. E Ferreirinha, morador da CONHB nova, curtindo aragem do bairro mais alto da cidade, teve sua integridade física atacada por um marginal do Bairro Lajeiro Grande. Monitorou o bandido por uns tempos com seus familiares, mas o destino não permitiu que o poeta sujasse suas mãos. Tempos depois, outros marginais ou a polícia fez o que muitos queriam fazer com o agressor.

No momento, revendo algumas fotos de Ferreirinha, bateu a vontade de homenageá-lo com uma crônica sentida.

Onde você estiver, meu poeta...

Receba um forte abraço do companheiro da AGRIPA.

ARISELMO E FERREIRINHA (DE BERMUDA) E FERREIRINHA SOZINHO NA ANTIGA ESCOLA HELENA BRAGA, SEDE DA AGRIPA.  FOTO: ARQUIVO DO AUTOR.

 

 

 

  FOI ARRETADO! Clerisvaldo B. Chagas. 14 de outubro de 2024 Escrito Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3.126   Não vacilei no co...

 

FOI ARRETADO!

Clerisvaldo B. Chagas. 14 de outubro de 2024

Escrito Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.126

 



Não vacilei no convite no dia da Padroeira do Brasil e fui bater na Região rural do “Alto d’Ema”. Nunca mais tinha saído da cidade e, sempre e para sempre o campo me faz um bem danado! Parte da família e alguns amigos na chácara do casal Zé Ailton e Toinha (cunhado e irmã) me proporcionaram grande felicidade no dia da Santa. Fui com o Ivan (Caju) onde já aguardavam os conhecidíssimos Cecéu, Zé de Pedro e mais. Bebendo somente água e cafezinho fui ficando na conversa de muita comida e bebida, entre piadas e mais piadas que faziam parte de jornadas santanenses. Voltei encantado com a chácara, à margem da rodovia de asfalto recente rumo aos Carneiro e Senador Rui Palmeira – Sonho antigo só realizado no Século XXI.

A beleza da Chácara me chamou atenção, a piscina, o pequeno açude...  Porém, como sempre, a atenção dobrada na vegetação, no relevo, no tempo. Tivemos um excelente e prolongado inverno com chuvas moderadíssimas, alternada com o Sol. Isso foi muito bom para a lavoura e para o rebanho, entretanto, para barragens e barreiros foi ruim. O acumulado d’água não dá para atravessar o período seco até o próximo inverno. Assim volta o pensamento sertanejo em direção às trovoadas, uma esperança e uma incerteza no que vem aí entre novembro e janeiro. Mas meu amigo, para esse velho geógrafo o Sertão é belo molhado, o Sertão é belo ressequido, O Sertão é belo de todo jeito como a mulher bonita que continua bonita independente das suas vestes. Gostou?

E como não poderia deixar de ser, encontramos o “Hipermercado Nobre” pelo nosso caminho –  ambiente este, digno de figurar nas melhores capitais do País – não resistimos a uma foto dali em direção ao antigo “serrote do Gonçalinho” ou atualmente “serrote do Cristo” ou das “Micro-ondas” onde recentemente formou-se o Bairro Santo Antônio em suas faldas a barlavento. Está aí ao fundo da foto com sua vegetação crestada com raras nuances verdes, representando o restante do Sertão de Nosso Senhor Jesus, o Cristo.

Quão prazeroso é viajar pelo Sertão!

SERROTE DO GONÇALINHO VISTO DO HIPERMERCADO NOBRE. (FOTO B. CHAGAS).

 

 

 

  O DESFILE Clerisvaldo B. Chagas, 11 de outubro de 2024 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano   Crônica: 3.125   Era um tempo feliz...

 

O DESFILE

Clerisvaldo B. Chagas, 11 de outubro de 2024

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

 Crônica: 3.125

 



Era um tempo feliz, mas difícil. Não havia médico em Santana do Ipanema e no Sertão. As pessoas quando adoeciam apelavam para as ervas caseiras, as garrafadas ou rezas das benzedeiras ou rezadeiras. Quando a mulher estava perto de dá à luz, era assistida por parteiras que naturalmente traziam este dom, tanto na cidade quanto no campo. A parteira, tinha uma experiência extraordinária e sabia de orações poderosas. Havia parteiras no Sertão que contavam com centenas e centenas de partos sem perder jamais nenhum bebê. Lá em casa mesmo fomos dez filhos somente à base de parteira, cujo nome já esqueci. Morava no início da Rua São Pedro e parece que era a vó do conhecido Major Cavalcante. Pessoa humilde e altamente prestativa.

Já os serviços religiosos na zona rural, os padres utilizavam animais para seus deslocamentos: o cavalo ou o burro. Assim era a assistência aos enfermos, os casamentos e batizados que aconteciam nos povoados e sítios. Por sinal, em nosso livro “Canoeiros do Ipanema”, temos o registro do padre Bulhões atravessando o rio, de canoa, após acomodar sua burra viageira nesse tipo de transporte. A burra sentada e o padre corajoso enfrentando a fúria das águas, após viagens pelos sítios rurais. A situação foi mudando. No início da década de 60, ainda se contava os automóveis em Santana do Ipanema. Foi aí que uma surpresa tomou conta da cidade. De repente, um desfile de 60 jipes Willys aconteceu pela Avenida Coronel Lucena até o Comércio da cidade.  E se não me engano era dia de Carnaval.  Disseram que era sobra de guerra e vieram para quem quisesse os adquirir e acelerar o progresso da urbe.

O único médico da cidade comprou um jipe. O padre, comerciantes, fazendeiros, empresários aproveitaram a oportunidade. Bicho difícil de quebrar, o peste do jipe de guerra acionou mesmo o progresso latente de Santana e do Sertão. Além de muitos outros serviços importantes facilitados pelo veículo, o padre e o médico agilizaram seus atendimentos no campo. E como a década era mesmo de ouro, logo chegou a água, a luz, a televisão, a ponte sobre o Ipanema, o hospital e tantos outros benefícios. Vivemos e registramos a história sertaneja alagoana, o que nos traz o consolo e a certeza de dever cumprido.

Orgulho em ser sertanejo nordestino!

JIPE WILLYS, IMAGEM.