GUERREIROS ALAGOANOS (Clerisvaldo B. Chagas. 13.4.2010) Jackson do Pandeiro foi um dos cantores e ritmistas mais apreciados do Brasil. Em J...

GUERREIROS ALAGOANOS

GUERREIROS ALAGOANOS
(Clerisvaldo B. Chagas. 13.4.2010)
Jackson do Pandeiro foi um dos cantores e ritmistas mais apreciados do Brasil. Em Jackson, tudo me impressionava. Pequeno e franzino com apresentação frenética, voz e estilos diferentes, foi um rei em tudo o que fez e criou. Era admirado por Luiz Gonzaga e saiu influenciando gerações. Além do ritmo gostoso e contagiante, o artista surpreendia também na vida fora dos palcos, basta lembrarem o modo ímpar como conquistou o primeiro casamento. Os sucessos extraordinários do homem da Paraíba estavam no cotidiano; no forró de algum lugar, na passagem do amolador, no ninho da ave casaca-de-couro... Enfim, era um descobridor das coisas simples do dia-a-dia. Essa simplicidade que entrava pelos nervos, virava matéria-prima para os belos ritmos que encantavam multidões. Mas não pretendemos falar sobre Jackson do Pandeiro nem da dimensão que ele ocupou e ocupa entre os músicos brasileiros. Destacamos apenas uma das suas estrofes quando o assunto cortava o espaço:

“Avião, papai,
Avião, papai,
É bonito quando voa
Mas é feio quando cai...”

A queda do avião polonês que matou mais de noventa pessoas, entre elas o presidente da Polônia e esposa, causou consternação naquele país, na Europa e no mundo. A Polônia, situada no centro da Europa, tem milhares de episódios para contar. Pela sua posição estratégica, sempre foi alvo de atropelos por tropas estrangeiras como as da Alemanha nazista e União Soviética. O povo polonês sempre defendeu seu território com denodo, além de ser gente civilizada e de altivez. Na vitória ou na derrota surpreendeu o mundo pela bravura patriótica apresentada. Acertou o presidente brasileiro quando decretou luto de três dias pela tragédia que vitimou quase uma centena de pessoas. A esse desastre aéreo vão somando-se outros que tantas dores causaram deixando famílias em desespero. Foi um dia muito difícil para Varsóvia e o restante da Polônia.
É divina também a arte brasileira que se aproveita de tudo para construir. É a charge, a piada, a música, a peça teatral. Os cordelistas farejam fatos novos e lançam folhetos de qualquer gênero como desenrolar de acontecidos em primeira mão. O folclore, sempre mais lento por causa das suas apresentações esporádicas, também marca presença nas tragédias. Registramos assim a bela estrofe de Jackson, no início deste trabalho e apresentamos no fim, outra belíssima de grupo folclórico de guerreiro sobre o mesmo tema. É a toada do mestre seguida pelas figuras componentes:

“O avião subiu
Se alevantou
No ar se peneirou
Pegou fogo e levou fim...”

Dessa forma, todas as tragédias aéreas do mundo estão na música de Jackson do Pandeiro e em grupos de GUERREIROS ALAGOANOS

CABEÇA DE BURRO (Clerisvaldo B. Chagas. 12.4.2010) Somente aqueles que viveram e lutaram na época pelo asfalto Palmeira dos Índios─Santana ...

CABEÇA DE BURRO

CABEÇA DE BURRO
(Clerisvaldo B. Chagas. 12.4.2010)
Somente aqueles que viveram e lutaram na época pelo asfalto Palmeira dos Índios─Santana do Ipanema, sabem como foram os combates contínuos e ferozes. Com a chamada rodagem da BR-316 completamente desgastada, foi necessário uma mobilização sertaneja que sensibilizasse as autoridades federais. Era um privilégio sem limite o asfalto Palmeira─Maceió, inaugurado no governo Arnon de Mello. Veja a evolução do transporte em Alagoas.
Para chegar a Maceió, o sertanejo saia a cavalo até Pão de Açúcar e fazia o restante do trajeto pelas águas do rio São Francisco e pelo mar. Com a chegada da via férrea em Alagoas, o homem do Sertão, deixou o rio. Passou a viajar a cavalo até a ponta dos trilhos e dali embarcava na engrenagem até a capital. O espaço foi encurtando a medida que o trem ia chegando mais perto. Primeiro, Viçosa, depois Quebrangulo e por último, Palmeira dos Índios. Quer dizer, o cavalo e o trem foram importantes para os sertanejos do estado. Mas com o surgimento dos primeiros caminhões e com a rodagem, Palmeira─Delmiro, a evolução desde o início foi extraordinária. O deslocamento até Palmeira passou a ser em caminhões, automóveis ou “sopas”, depois. Quando chegou o asfalto a Palmeira dos Índios, foi outro grande salto para o Sertão. Mas nessas alturas, de Cacimbinhas a Delmiro ninguém mais se conformava em comer poeira até a “Princesa do Sertão” e continuar na maciez civilizada do asfalto palmeirense. A estrada chegou a não ter mais consertos com suas máquinas pesadas. Santana reagiu duramente, porém, as batalhas da sociedade com o poder público durou décadas de suor e frustrações. Os mais experientes diziam: “Parece que alguém enterrou uma cabeça de burro na rodagem entre Palmeira e Santana”. Nenhuma força de gigante era capaz de trazer o asfalto à terra da avó do Cristo. Mas um dia, um dia de tão cansada luta que nem teve entusiasmo para comemorar, chegou “Zé Pretinho”. Mais um sonho realizado, morno como café de ontem, porém com muita serventia.
Quando lemos nos jornais impressos e virtuais outros embates do alto Sertão pelo restante do asfalto da BR-316, lembramos do que sofremos na pele. Mata Grande, pequena, bela e peculiar cidade serrana, precisa mais de que nunca desse asfalto que bem poderia chegar até ao solo pernambucano. Cidade da rapadura, mel de engenho... Com relevo montanhoso e um dos melhores pequenos climas de Alagoas, Mata Grande tem história de mando no estado, episódios lampionescos e grandes tradições. Àquelas terras Santana já pertenceu duas vezes como comarca. Suas ruas de traçados transversais, a imponência da igreja, as histórias da cadeia velha e a tradição de belas mulheres, fazem de Mata Grande uma cidade curiosa que precisa ser visitada.
Desejamos de coração que ações em busca do asfalto da BR-316 tenham coroamento. Nem importa a proximidade das eleições. O que vale de fato é luta e reza forte para ─ definitivamente ─ ser localizada, cavada e desenterrada a tenebrosa CABEÇA DE BURRO.


DETALHES DA HISTÓRIA (Clerisvaldo B. Chagas. 9.4.2010) É com imensa satisfação que comemoramos esta crônica de número 250. A maior parte de...

DETALHES DA HISTÓRIA

DETALHES DA HISTÓRIA
(Clerisvaldo B. Chagas. 9.4.2010)
É com imensa satisfação que comemoramos esta crônica de número 250. A maior parte desses trabalhos foi apresentada no Portal Santana Oxente, acrescentados também no blog do autor e no Portal Maltanet. São 250 trabalhos divididos em CDs de apenas 50 crônicas que poderão ser transformadas em livros depois de selecionadas. Os mais diferentes assuntos caracterizam a versatilidade de quem as escreveu. Nunca ninguém em fase alguma exaltou tanto a sua terra como o escritor Clerisvaldo. Nos romances, no conto, no paradidático, na História... Nas crônicas e poesias. As crônicas falam para o mundo, mas com certeza se houver uma seleção destacando as que exaltam a terra, darão um livro de história de Santana com vários nuances. Modéstia à parte, o autor merece nome de bairro em Santana, pois nome de escolas e ruas está cheias de escritores que abandonaram a terra e sumiram. Foram desencavados por padrinhos do poder. É hora de saber quem ficou batalhando na trincheira santanense sozinho e até agora. E para comemorar o número do marco, vamos mais uma vez nos voltar para Oscar Silva.
Não me lembro de nenhum tombamento de prédios públicos ou particulares em Santana do Ipanema. Aliás, tombamento em Santana é queda mesmo. Quando se juntam descaso, indiferença e ignorância, o resultado é óbvio.
Fui o primeiro escritor santanense a tirar Oscar Silva do esquecimento e apresentá-lo a essa juventude. E para aqueles que gostam de detalhes, resolvi acrescentar algo sobre à casa de Oscar Silva pois ele mesmo foi o primeiro a não se envergonhar do lugar em que habitou. Fora a flandreleira “Zifina”, sua avó (já falei sobre ela nessa coleção de 250 crônicas), conheci como segundo proprietário daquela casa trepada no barranco defronte a de meu pai, um casal da qual a mulher era macumbeira. Ser macumbeiro naquela década de 50 não era fácil. Por isso ou por aquilo, principalmente por causa da língua, a tal mulher terminou levando tremenda surra de chibata de bater em cavalo. Foram os autores o senhor José Urbano (morador defronte) e Antonio Néris, marceneiro, vizinho da mulher, apenas separados por uma casa. A macumbeira não amanheceu o dia em Santana. Depois, lembro que a casa foi ocupada por Antonio Porqueiro, conhecido assim porque matava e vendia porcos. Gente boa. Dessa família simpática destaco três dos filhos de Antonio. “Julinho”, que jogava peladas nas areias do Ipanema. Só jogava sorrindo e aplicando sucessivos dribles curtíssimos nos adversários. Jamais vi coisa igual. Francisco, o mais velho, moreno, forte (parecia um mexicano) terminou envolvendo-se em coisas pesadas lá para as bandas de Maceió. Coisas que os santanenses custavam a acreditar. E “Zé Porquinho”, novo, simpático, parece que a ele o futuro mostrou o mesmo caminho de Francisco. Desintegrou-se a família do compadre de meu pai. A casa passou muito tempo fechada e depois foi adquirida pelo senhor José Urbano e esposa “Florzinha”; demolida, faz parte agora do quintal vizinho. Sobre à casa do meu escritor santanense predileto, está aí para quem gosta de DETALHES DA HISTÓRIA.