FUMACINHA BESTA (Clerisvaldo B. Chagas. 19.4.2010) Estamo s vivendo ainda esse caos aéreo que deixa os passageiros de aeronaves aborrecidos....

FUMACINHA BESTA

FUMACINHA BESTA
(Clerisvaldo B. Chagas. 19.4.2010)
Estamos vivendo ainda esse caos aéreo que deixa os passageiros de aeronaves aborrecidos. Quem viaja quer viajar. Mas quem é que pode com a Natureza, meu amigo? De repente a Natura resolve quebrar a alegria dos viajantes, exibir o mau humor das companhias aéreas e aplicar um nó de porco no tráfego espacial. E agora? Ah, muitos pensavam que tumultos em aeroportos só aconteciam no Brasil. Estamos vendo que a semente do imprevisto foi semeada no planeta inteiro. Nem adianta encher a boca com orgulho do tal primeiro mundo. Tem até um ditado sertanejo que diz: “Quando Deus não quer, nem peleje”. E assim os caceteiros dos países em desenvolvimento param um pouco a severidade contra nós.
A Islândia, cuja capital e Reiquiavique, estar situada no Atlântico Norte, sendo um dos países mais adiantados do mundo. Em 2007, chegou a ser considerado o mais desenvolvido de todos. Sua Geografia é assim mesmo, diferente de todas. O Centro do país é formado de planalto de areia, montanhas e geleiras. Nas planícies, muitos rios de origens glaciais vão despejar no mar. A Islândia convive com vulcões e é também rica em gêiseres. Os gêiseres servem até de atrações turísticas e, dessas fontes geotérmicas algumas são usadas como fontes de energia elétrica. No século XVIII, aconteceu problema sério por causa de fumaça de vulcão da Islândia que matou pessoas na China e na Europa. Inclusive, muitas morreram de fome em consequência dessas erupções. Portanto, essa não é a primeira vez que um vulcão da Islândia apavora parte do planeta. A fumaça que tomou conta da Europa paralisou foi tudo.
Aqui em Maceió, do outro lado do mundo, a gente vai conversando sobre o assunto na Praça Deodoro. A estátua do nosso cavaleiro Proclamador da República parece desconfortável no centro de tantos maconheiros e cheira colas. É o antigo cartão de visita da capital que vai tombando aos poucos como árvores em final de existência. O outrora abrigo de aposentados vai evidenciando a presença nefasta da escória. A impressão é que as autoridades lavaram definitivamente a consciência no combate às causas dos mostrengos. Isso nos causa uma vergonha enorme quando o turista em alerta aponta com o dedo. Cobertores rotos espichados pelo chão. Restos de comida pelos bancos imundos. Guardas impotentes de farda; guarda débil de máscara (Teatro Deodoro); guarda fraco de livros à mão (Academia de Letras); guarda frágil de balança pênsil (Justiça)... E no meio, bem no meio do palco da vida, o foco do Sol dardejando as cenas degradantes da sociedade luz.
Ouvindo a nossa conversa sobre a fumaça que assola o continente europeu, o maconheiro adolescente ergue-se de um pedaço de lona. Puxa de algum lugar da calça o fumo e o papel. E depois de fazer um cilindro “baseado”, ainda trôpego, risca o fósforo no recheio de folhas, aspira com sofreguidão e mostra que estar ligado à conversa vizinha. Joga dos pulmões o mundo de fumo e rebate a crônica que teimava em não sair: “Tá louco, meu! E as Oropa tá se acabando toda mode essa FUMACINHA BESTA!”




CAPIM DA LAGOA (Clerisvaldo B. Chagas. 16.4.2010) Mal  iniciam os contatos para novas eleições, os viciados vão se apresentando nas rádios ...

CAPIM DA LAGOA

CAPIM DA LAGOA
(Clerisvaldo B. Chagas. 16.4.2010)

Mal iniciam os contatos para novas eleições, os viciados vão se apresentando nas rádios sertanejas, nas praças, nos aglomerados. Eles aguardam os intervalos dos pleitos trabalhando em atividades as mais diversas, mas sempre sonhando com os golpes costumeiros que lhes rendem extras. Nessa época, o viciado inventa qualquer assunto e vai para as rádios denegrir e chamar atenção da cúpula candidata em busca dos míseros dois vinténs. Todos os políticos dos municípios do Sertão conhecem os viciados profissionais. São esses cabras que regulam o mercado clandestino do dinheiro fácil. Muitos desses cambistas possuem tanta confiança em si, que não negociam pacotes. Só fazem negócios separados. Trabalhar para deputado estadual é um preço. Para o federal, “deixe que quando ele me procurar eu acerto com ele”. Contratos para governador e senador, também são coisas à parte. Nesse exemplo, se o viciado conseguir fechar acordo com os quatro candidatos separadamente, poderá comprar um carro, um sítio ou mais algumas cabeças de vacas para aumentar o rebanho.
Quer saber o preço do boi gordo, procure os aglomerados. Quer pesquisar o preço do voto, frequente as praças da cidade. Um suplente de suplente de suplente de vereador falava que deputado fulano o tinha procurado. A resposta foi clara e objetiva: doze mil reais por duzentos votos. O deputado falou que iria pensar. A nova resposta foi: “Pense logo antes que chegue outro”. Ora, se suplente de suplente de suplente já lançou a oferta, quanto custarão os mesmos duzentos votos arranjados por um suplente da vez ou por um vereador famoso em qualquer lugar do semi-árido? Certa vez ouvi um eleitor medonho falando a um candidato a prefeito não aceitar certo viciado em sua equipe. O prefeito respondeu que de fato o sujeito era cabra de peia, mas precisava dele para provocar os adversários. Pelo que se observa ninguém consegue menos de cinco mil reais para “trabalhar” para um político. E quando este cisma em não pagar quando ganha ou quando perde, é um caso sério. O cabra de peia nem denunciar pode.
Em uma rádio do interior, certo juiz dizia que havia dado uma batida durante a madrugada precedente uma eleição, tentando flagrar alguma compra de voto. Ao chegar a determinado lugar, os viciados nem aguardaram a descida dos passageiros. Saíram do mato, sequiosos com as mãos estiradas, coçando os dedos e perguntando nervosos ao juiz: ”Cadê! Trouxe o capim da lagoa?”
Com o nome de “grana”, “dindim”, “mufunfa” e outros da gíria brasileira, o dinheiro do contribuinte vai colocando a cabeça de fora como jabuti em busca de tempo bom. As barrigas continuam famintas, doidas varridas pelo CAPIM DA LAGOA.

MANÉ BOLOLÔ (Clerisvaldo B. Chagas. 14.4.2010) A memória canalizada permanentemente com o passado, mostra as areias do rio Ipanema da antig...

MANÉ BOLOLÔ

MANÉ BOLOLÔ
(Clerisvaldo B. Chagas. 14.4.2010)
A memória canalizada permanentemente com o passado, mostra as areias do rio Ipanema da antiga perfuratriz. A perfuratriz era uma engrenagem dentro de um prédio quadriculado de estilo único, situada a margem esquerda do rio. Dali mandava água para outro prédio situado no Bairro São Pedro, acima, a cerca de quinhentos metros, através de tubulações. Os tubos subiam pela Rua São Paulo até encontrarem o prédio que fomentou o algodão na área sertaneja. Esse prédio que fez história em Santana está sendo devorado pelo tempo. Inclusive com um tanque enferrujado que dizem ter sido do primeiro corpo de bombeiros da cidade. Da antiga perfuratriz ─ que sempre foi ponto de referência em Santana ─ não resta sequer a foto. O seu lugar exato era onde hoje inicia a Rua da Praia. Ali nas imediações as cheias do Panema sempre deixavam bons areados para a prática do futebol. Aos domingos, toda a rapaziada das imediações procurava a perfuratriz para um dia inteiro de pelada.
Como em alegria de brincadeira nunca deixa de aparecer encrenca, certa vez, com os nossos dez ou onze anos, surgiu uma comigo e o meu irmão Erivaldo. Erivaldo não era mole. Sempre foi guerreiro. Mas acontece que havia o Domício, rapagão feito, filho do soldado Joaquim Manoel, vizinho nosso de umas dez casas. Ora, o Domício, para nós, era velho e parrudo. Tinha o apelido de “Domício Grosso”. Por isso ou por aquilo ameaçava nos bater. E naquela preleção de bate, não bate, aproximou-se dele um sujeito que morava à Rua São Paulo, chamado “Mané Bololô” e montou-se às costas de Domício. O pau cantou e, o valentão Domício Grosso levou uma pisa da peste! Houve aplausos para Mané Bololô. Após a surra, Mané ainda recomendou ao Domício passar sempre por longe de nós. Qualquer coisa, por pequena que fosse, queria saber. Não tenho certeza se esses personagens da minha infância ainda vivem. Soube apenas que Domício virou soldado como o pai e trabalhava lá para as bandas de Paulo Afonso. Do nosso anjo da guarda Bololô, nunca mais obtive notícia.
No decorrer das nossas vidas, vamos sempre encontrando valentões como Domício Grosso. Quando não podem bater com braços e mãos, atacam com a língua, infeliz arma dos covardes. Outros ainda usam métodos esdrúxulos como semeadura de pedras e omissão. De qualquer maneira, dizem os espíritas (com outras palavras) que deveremos dar graças a Deus pelas barreiras que nos ajudam à perfeição. Quando tudo parece bem na vida, somos obrigados a enfrentar porcos e cães. Mas a caravana continua sua marcha porque Deus não abandona os dele, assim como teve com Elias, com Eliseu, com Jacó... Os cordatos não buscam vingança, querem apenas justiça. E de vez em quando o Filho do Homem entrega mais um da lista de justiça feita. Quem está no sangue do Pai nunca encontra um Domício Grosso sem que não apareça mais um anjo de guarda MANÉ BOLOLÔ.