ZABUMBA FAZ BUM-BUM-BUM Clerisvaldo B. Chagas, 20 de junho de 2011 . (Para João Tertuliano, Sérgio Campos, Afonso Gaia e Lucas).          ...

ZABUMBA FAZ BUM-BUM-BUM

 ZABUMBA FAZ BUM-BUM-BUM
Clerisvaldo B. Chagas, 20 de junho de 2011.
(Para João Tertuliano, Sérgio Campos, Afonso Gaia e Lucas).

          Nesse sábado que passou, tive a honra de receber um dos ilustres valores da terra, filho do comerciante, intelectual e ex-professor Alberto Nepomuceno Agra. João Tertuliano Nepomuceno Agra, engenheiro eletricista, mestre em Ensino de Física, doutor em Física e professor universitário, diz bem da inteligência caracterizada do povo resistente da “Rainha do Sertão”. Além da visita a terrinha, veio o insigne cientista lá de Campina Grande, Paraíba, enlaçado pela causa da cultura santanense. Defensor ferrenho do Calendário Cultural de Santana ─ lançado pelo jornalista José Marques de Melo e Rossana Gaia no livro “Sertão Glocal” ─ João Tertuliano procura incentivar a concretização desse calendário. Entre os objetos presenteados por Tertuliano tanto da sua lavra quanto a de companheiros, deparei-me com o cordel sobre “Marinês, a Imortal Rainha do Forró”, da autoria de Manoel Monteiro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Logo na primeira página minha atenção voltou-se para a belíssima sétima que aparece como segunda estrofe do folheto. Os cantadores repentistas têm hoje como preferência a sextilha, porém, os vaqueiros nordestinos preferem as sétimas para seus aboios. Esse modo de composição poética é mais sonoro do que as sextilhas e foi deixado de lado, talvez, porque a sextilha constante numa cantoria seja menos cansativa. Mas vamos à sétima inspirada pelo cordelista Manoel Monteiro:

            “Triângulo faz tlin-tlin-tlin
                 Zabumba faz bum-bum-bum  
       A sanfona faz xem-xem
       O caboclo estando num
      Forró de pé-de-parede
               Não tem fome nem tem sede
                  Pois melhor não tem nenhum”.

          Diz Monteiro que Inês era filha de Manoel Caetano (ex-cangaceiro do bando de Lampião) e sua mãe chamava-se Josefa Maria, apelidada, Donzinha. Sua denominação artística nasceu na apresentação de rádio quando o apresentador misturou Maria com Inês. Sempre cantando na região de Campina Grande, termi-nou casando com o sanfoneiro Abdias. Admiradora de Luiz Gonzaga foi levada pelo Rei Luiz ao Rio de Janeiro após uma apresentação do artista em solo paraibano. Cantava, tocava triângulo e dançava o xaxado, tendo sempre um chapéu de couro na cabeça, à semelhança de seu pai no cangaço. Após sucesso pelo Brasil inteiro, especialmente Nordeste, mais de trinta discos gravados e um número vastíssimo de apresentações em público, Marinês calou em 14 de maio de 2007. “Peba na Pimenta” foi à música mais marcante da sua gloriosa carreira, também registrada pelo homem do povo, pela literatura de cordel. Com sua voz estridente e frases apimentadas, para a época, Marinês conquistou bravamente o seu espaço e hoje brilha no céu de Campina Grande.
          Se você caro leitor, não viveu à época, nem lhe digo o que perdeu. Nos ouvidos dos cabras da nossa geração, ainda ressoa o tlin-tlin-tlin do triângulo de “Marinês e Sua Gente”. E pelos velhos sertões queimados desse país nordestino, quem afia os ouvidos sente a autenticidade dos filhos do Sol. Abra as porteiras, cabra da peste, que ainda hoje a ZABUMBA FAZ BUM-BUM-BUM.


ESPANADOR DE SEU CLETO Clerisvaldo B. Chagas, 17 de junho de 2011              Falamos aqui outras vezes sobre as peculiaridades das farmá...

ESPANADOR DE SEU CLETO

ESPANADOR DE SEU CLETO
Clerisvaldo B. Chagas, 17 de junho de 2011

             Falamos aqui outras vezes sobre as peculiaridades das farmácias de Santana do Ipanema, Alagoas, nos anos sessenta. A “Vera Cruz” ─ homenagem sobre o descobrimento do Brasil ─ tinha um quadro de leitura obrigatória com sua alegoria dividida: “Entrai pela porta estreita”. E ali estavam às representações da porta estreita e da porta larga, a da salvação e a da perdição, o céu e o inferno. A Vera Cruz continua no mesmo local, mas ignoramos o destino do quadro. Bem que ele poderia fazer parte do museu do proprietário professor Alberto Nepomuceno Agra, no primeiro andar. A outra farmácia, de Cariolano Amaral, vulgo Seu Carola (ô) ─ o homem da gravata borboleta ─ antes no “prédio do meio da rua”, depois, ao lado da Esquina do Pecado, também tinha o seu símbolo. Era ele um negrão forte, careca e lustroso envergando uma barra de ferro. Propaganda impressionante de uma velha conhecida marca de xarope. Poderia a estatueta também fazer parte do museu de Santana. Mas existirá ainda o homem forte?
            Outra coisa que me chamava atenção era o espanador da loja de tecidos do comerciante Cleto da Costa Duarte, também localizada no prédio do meio da rua. Na loja de meu pai havia espanadores de fios de palhas, moles, finos, flexíveis, bonitos e bem feitos que de vez em quando eram vendidos por ambulantes. Nunca perguntei onde eram fabricados, pois diferenciavam de outro tipo comum, mais duro, feito em Santana, vendido nas feiras. Mas aquele espanador da loja de Seu Cleto era único. Feito de penas de peru, arrumado de modo que algumas penas menores se retorciam para cima, esses espanadores eram passados com rapidez sobre os tecidos, dando a impressão que nem serviam para tal mister, sendo mais para enfeite. Parece-me que tinha sido presente de um caixeiro-viajante do Recife. Também sem ter certeza, parece-me que havia objeto semelhante na “Casa Ideal”, sapataria que ficava por trás do prédio do meio da rua, mas do outro lado da via, pertencente ao senhor Marinheiro.
           Dizem que a vida é combate e nós vamos lutando com o costumeiro e com as surpresas que ora nos afligem, ora nos enlevam. Vamos associando os símbolos acima à religião, aos ensinamentos dos pais, ao modo de encarar os acontecimentos que testam a nossa capacidade. Acontece um mergulho nos objetivos da existência, no enfrentamento das vicissitudes, no mérito das provações. No fino nevoeiro também surgem às fraquezas, as covardias, os planos não realizados, valorosos amigos, traidores calculistas, méritos e deméritos que navegam quais folhas secas num espaço infinito. Remoendo nossas fraquezas, não deixamos de apenas para nós, avaliarmos o mérito de servir. Repetia meu pai: “Quem não vive para servir, não serve para viver”. E nesse momento em que o passado ocupa a área do presente, compreendemos que muitos dos que usufruíram da nossa boa vontade, da nossa obrigação em servir ─ esquecendo os obséquios ─ agem como o desafiador negrão de Seu Carola. E seguindo de perto à condição humana, os pobres entusiasmados, sem glória, sem rumo e sem caráter, marginalizam os tempos em que se assemelhavam com frequência ao ESPANADOR DE SEU CLETO.

LIBERTADORES Clerisvaldo B. Chagas, 16 de junho de 2011           Taça Libertadores pode até ser uma série de jogos comuns entre países ir...

LIBERTADORES

LIBERTADORES
Clerisvaldo B. Chagas, 16 de junho de 2011

          Taça Libertadores pode até ser uma série de jogos comuns entre países irmãos. Uma final, porém, de Libertadores, é simplesmente empolgante até para pessoas que não simpatizam muito com futebol. Acontece que são inúmeros itens que estão anexados ao simples rolar da bola no gramado. A grandiosa festa onde estão juntas milhares e milhares de pessoas, o colorido das roupas, dos estádios, da torcida. Fogos, cânticos, gritos, xingamentos, urros gigantescos, movimento forte no trânsito, discussões, alegria, bandeiras, comidas de rua e a mídia do mundo inteiro funcionando, deixam o futebol no topo do esporte das multidões. É bom parar um pouco o dinamismo da corrida diária para relaxar, nem que seja na poltrona, assistindo um belíssimo espetáculo da Libertadores. E foi assim que aconteceu em Montevidéu, uma das mais simpáticas capitais do mundo, bem ali na frieza meridional da América do Sul.
          A brancura maior do terno dos Santos faz contraste com o verde do gramado, com o terno à moda DETRAN, do Peñarol. Uma névoa invade o estádio e a ocupação total das arquibancadas aguarda com ansiedade o toque de início. O resultado é sem gol, mas o jogo foi bom, tenso, raçudo, com o mínimo de violência, acostumada a residir em países como Uruguai e Paraguai. Mesmo assim, o empate na casa do zero, foi como importantíssima vitória para o time da Vila que vai decidir no Brasil uma vitória por um placar simples. Em havendo empate, prorrogação. Persistindo o empate, pênaltis. Mais uma vez a final da final fica em nosso território, o que significa festa dobrada, muito dinheiro circulando, possibilidade real de ganhar o torneio pela terceira vez. Se no Uruguai o espetáculo foi garantido já imaginamos a festa que acontecerá no Pacaembu. Está certo que Neymar não foi brilhante em todo o seu potencial, mas também não foi tão decepcionante assim. Mas a mania de cair constantemente sem motivo, irrita mesmo a torcida adversária e também a nossa. O povo quer ver jogo de bola e não fingimento de quedas a cada minuto. É preciso alguém para abrir os olhos do jogador, nesse caso, pois o atleta vai-se tornando antipático e ao invés de aplausos ganha vaias bem motivadas, sim. O Estádio Centenário proporcionou um bom teste ao time do Peixe. O Santos precisa melhorar a posição e a atenção dos seus zagueiros, bem como a ligação mais junta a Neymar e Zé Eduardo. Elano não conseguiu ser um homem criativo como das outras vezes e, a falta de Ganso foi claramente notável.
          O grande momento do jogo foi quando o bandeirinha, com honestidade e coragem, deu impedimento durante o gol uruguaio. Ainda existem pessoas que valorizam a sua decência, como fez o bandeira em Montevidéu. Vamos aguardar a decisão na próxima quarta, que promete outro bom momento para o brasileiro que vai e o que não frequenta estádios. Afinal, não é sempre que temos a oportunidade de acompanhar time do Brasil na LIBERTADORES.