ONU, VOCÊ MORREU E NÃO SABE Clerisvaldo B. Chagas, 8 de junho de 2012. Crônica Nº 791             Venho dizendo da situação da car...

ONU, VOCÊ MORREU E NÃO SABE


ONU, VOCÊ MORREU E NÃO SABE
Clerisvaldo B. Chagas, 8 de junho de 2012.
Crônica Nº 791

           Venho dizendo da situação da carcomida ONU. Se tudo no mundo se moderniza, por que a ONU não segue o mesmo caminho? Pela mesma ambição humana individual de mandar sozinho com espírito ditatorial. As tradições chinesas e russas de ditaduras militares são como mordida de cágado, só larga depois de bater o sino. Fincadas as duas na tradição do poder pela força do militarismo exacerbado, da cadeia sem chave ao cidadão comum, ambas confiam no arsenal atômico ou na quantidade de gente para mandar à carnificina em qualquer ocasião. Países onde a liberdade individual nunca valeu nada e deságuam sempre na arrogância das suas lideranças. Não existe democracia em nada. São povos escravos desde longas datas vivendo o dia a dia como habitantes pobres dentro de uma aldeia, confinados como bois de matadouro. São gerações e gerações que não conhecem a liderdade que existe no Ocidente. E após a II Grande Guerra, então, essas nações continuam querendo fazer da ONU seus palácios colossais vetando com frequência os benefícios dos povos. Embora a tal querra fria tenha passado, mas Rússia e China valem-se do poder que possuem no Conselho da ONU para dominarem o mundo até o limite do possível. A velha ONU não se renova porque elas não deixam, pois renovação significa sangue novo a dá palpite no xadrez do planeta.
          Dentro da baba do boi danado, ambas as nações têm sede de poder e jogam com ele no Conselho permanente, fazendo das outras nações do mundo, súditos acovardados de cabeças baixas e mãos amarradas. E se essa peste dessa ONU não se renova e possui dono, por que tantos países existentes não criam a ONU II? São uma vergonha tantas nações submetidas apenas a quatro mandonas raivosas que tratam o Órgão como propriedade particular. Se nos tempos das conquistas oceânicas o mundo foi dividido em dois donos apenas, Espanha e Portugal, quando outro país perguntava pelo testamento de Adão, agora o mundo frouxo baixa a cerviz para quatro “ferroadores”. O banho de sangue que vem acontecendo na Síria, aliada de China e Rússia, continua sob a chancela das duas potências que não conseguem viver os tempos modernos sem cabresto nas mãos. Ô mundo velho fraco que só caldo de ximbra!
         Se ninguém tem forças suficientes para fazer alguma coisa pelo povo sírio, é fechar os olhos para a barbárie do senhor Bashar al Assad, atual campeão e criminoso de guerra do seu próprio povo. ONU, ô ONU! VOCÊ MORREU E NÃO SABE.













SANTANA, SAUDADES ETERNAS Clerisvaldo B. Chagas, 7 de junho de 2012. Nesses primeiros dias do mês de junho, entre o engodo das chuv...

SANTANA, SAUDADES ETERNAS


SANTANA, SAUDADES ETERNAS
Clerisvaldo B. Chagas, 7 de junho de 2012.

Nesses primeiros dias do mês de junho, entre o engodo das chuvas e os farrapos da frieza, fomos pesquisar na periferia de Santana do Ipanema. Acertamos na região em que está situado o enorme Hospital Clodolfo Rodrigues de Melo, no Bairro Floresta, que congrega diversas localidades. Logo que deixamos o calçamento, fomos contemplando a outra face da urbe. Vizinho ao hospital foi construído em lugar íngreme, um conjunto habitacional, ladeira abaixo quando ainda era prefeito o senhor Paulo Ferreira de Andrade e sua desastrada assessoria. Dois erros frutos das mentes sem nexo: as casas na época foram chamadas “casas de pombos”, onde o pescoço do cidadão deitado ficava fora da porta da frente e os pés sobravam na porta de detrás. Sem nenhuma infraestrutura, até hoje, passados tantos anos, a erosão come sem parar a rua da pobreza e da miséria do chamado Conjunto Marinho. Nada mudou. Absolutamente nada, com exceção da produção de crianças vagando em esgotos a céu aberto. A palavra “Marinho” é homenagem ao antigo dono daqueles terrenos (pai do médico que empresta seu nome ao hospital) comerciante Marinho Rodrigues.
          Mais abaixo bem por trás do hospital, o abandono total também mora em outro conjunto popular denominado Cajarana. Por enquanto o marco do nome ainda permanece vivo: uma frondosa Cajarana centenária que o machado ainda não viu, indica o ponto do sofrimento discriminatório, outra face da moeda. O lixo toma conta das ruas e quando vêm às chuvas vão engolindo as laterais da estrada de rodagem, feita não sabem por quem. Mais abaixo, outro conjunto habitacional vive o drama dos dois primeiros. Chamado Santa Quitéria, ainda é o menos sofredor, mas a falta d’água constante e a ausência de benefícios do poder público, não recomendam a morada por ali. O final da Rua da Floresta que se liga com as Tocaias, afora uma organizada creche que existe, o restante apenas oferece medo a quem transita por ali, principalmente durante a noite. Entre toda a rede periférica de Santana do Ipanema, “Rainha e Capital do Sertão”, esses três conjuntos representam atualmente o miolo do descaso, do abandono, da miséria e do receio dos transeuntes.
          Quer esquecer essa face? Procure o luxo da praça principal do bairro Monumento, denominada pelo povo de “praça dos ricos”, única escovada e paparicada de todos os dias, vizinha de onde desabou a mais tradicional escola da cidade “Padre Francisco Correia”, que assim continua a pedir socorro em vão ao poder público. Santana do Ipanema, minha terra que ainda não encontrou quem a administrasse corretamente, perdeu mais uma esperança de desenvolvimento: a faculdade de medicina que vai para Arapiraca. O epitáfio é claro: “SANTANA, SAUDADES ETERNAS”.

ÓI A PESTE! Clerisvaldo B. Chagas, 5 de junho de 2012.   E naquele mixuruca lazer no “bar do Bacurau”, torna-se possível o famiger...

ÓI A PESTE!


ÓI A PESTE!
Clerisvaldo B. Chagas, 5 de junho de 2012.

 E naquele mixuruca lazer no “bar do Bacurau”, torna-se possível o famigerado miolo de pote, o jogo da conversa fora, a morte do tempo entre goles da geladinha. O assunto vai sendo molhado no banal do dia a dia, na malandragem santanense dos arredores, nos estepes expostos da vida alheia. O bebão conhecido está ali perto. Vai perturbando a conversa dos equilibrados. Posto num canto com delicadeza, entre um pedido e outro da branquinha, excluído pela roda, vai dando sua opinião curta na conversa alheia. Limita-se a uma frase simples e insistente, a cada conclusão da mesa: “É verdade!”. A roda esgota todos os temas possíveis e fatalmente entra na política. Mas o candidato X não é de Santana, é apenas um forasteiro, testa de ferro da situação. E o bêbedo: “É verdade!”. E Fulano de tal, deixou a vez dele passar, lascou-se. Não vai ser prefeito de Santana nunca. Estou certo ou estou errado? Não, está certo. E o bebão: “É verdade!”. Do ex-prefeito Beltrano o povo não quer ver nem a fala do sobrinho metido a candidato. Ninguém quer mais esse povo. É uma rejeição danada. “É verdade!”. Em minha opinião tem que aparecer um nome novo e que seja de Santana. “É verdade”, confirmava o cricri, doido para tomar outra à base do “pague uma”.  
              O artista plástico e caricaturista Roninho, vez em quando defendia o seu possível candidato a vereador. Ficava na corda bamba entre a efervescência política e o tira-gosto de bode por via aérea. Olhem! Um negócio danado! Nem os quadros de famintos personagens da seca e cangaceiros das paredes, faziam calar os animados amigos do Bairro São José. Foi chegando mais gente: escritores, professores, advogados, agrônomos, palpiteiros em geral. Tudo representava fonte de rejeição do ébrio encostado e esperança de uma reforçada moça branca. Naquele momento perguntaram a um domingueiro quem era o seu candidato a prefeito. O homem nem titubeou. Disse quase gritando que o seu candidato a prefeito era aquele que estava ali na parede. E apontou a pintura mais nova de Roninho, um cangaceiro aleijado e do olho troncho. Os outros aplaudiram imediatamente e, o pinguço mais uma vez aprovou: “É verdade!”.
             Chegou um momento em que todos pareciam meditativos. Houve um silêncio supimpa no bar do Bacurau. Foi quando alguém, iniciando nova conversa, indagou se os demais tinham lido matéria sobre a posição de Vênus, o planeta que iria se aproximar da Terra. Um deles rebateu meio tristonho: “É para isso que existe camisa-de-vênus”. Descambando para o outro lado da história a roda de intelectuais, o bebão não teve dúvidas, mudou o tom. Ao invés de repetir a enjoativa frase: ”É verdade”, adaptou-se aos novos tempos. Engoliu a branquinha de uma só vez, temperou a goela e disse com desconfiança, encerrando a rodada do fim da manhã: “ÓI A PESTE!”.