COMO SE FAZ UM ROMANCISTA (III) Clerisvaldo B. Chagas, 21 de novembro de 2018 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.011 ...

COMO SE FAZ UM ROMANCISTA (III)


COMO SE FAZ UM ROMANCISTA (III)
Clerisvaldo B. Chagas, 21 de novembro de 2018
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.011
 
ILUSTRAÇÃO: DRICA MELO.
Parte Externa

A frente da casa, calçada alta de pedra e cimento, dava para a rua poeirenta. Do outro lado da rua, a bodega, os armazéns, um telheiro com porta e a casa-de-farinha, grande, fechada, sem reboco. Dali eu via o cotidiano externo. Raros passantes. Um cavalo comendo milho no aió vai viajar. Firmino Carreiro, sempre com um palito na boca. O morador Zé Vieira – figura do Jeca – paciente e agradável, chegando à bodega. Lá no fim da rua, perto da igreja, sob frondosa árvore, quartos de bode na banca frágil, expostos à venda. Chega o carreiro Ulisses, assoviando e cantando baião:

“Ó sanfoneiro
Moça mandou lhe chamar
Para tocar um baião no Ceará
Tu diga a ela
Que de pé eu não vou lá
Eu sou vou de avião
Se mandarem me buscar...”.

“Mas ela tinha
Doze parmo de canela
Para dá um beijo nela
É preciso me atrepar...”.

Quando dava, eu ia com Ulisses buscar água em barreiro para servir a casa. Era uma barrica e um funil na mesa do carro, puxado por dois bois, Paraná e Ouro Branco. Andava pelos pomares e por vários cercados do meu tio. Certa vez fui até a Gameleira tomar banho de barreiro na casa de Quitéria. Que delícia!
Havia a Santa, bela mulher independente, morando ali perto. Minha tia era meio esquerda com ela e assim eu evitava os mistérios dos adultos.
  Pela tardinha os bois de carro eram tangidos para a esquina de um dos armazéns, onde comiam palma pinicada. O Sol declinava. Meu tio sentava-se na calçada alta e lavava os pés em gamela ou da árvore gameleira ou do mulungu.
Noites muito escuras, casa iluminada com placas nas paredes, à base de querosene
 E quando havia som de forró nas imediações, não era para mim, não era para nós.
(CONTINUA).

COMO SE FAZ UM ROMANCISTA (II) Clerisvaldo B. Chagas, 20 de novembro de 2018 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2010 P...

COMO SE FAZ UM ROMANCISTA


COMO SE FAZ UM ROMANCISTA (II)
Clerisvaldo B. Chagas, 20 de novembro de 2018
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2010
PILÃO: LUÍS GALDINO.

Parte Interna

Pela manhã, ia contemplar o enorme terreiro de trás, repleto de galinhas, pintos e perus. Participava do tititi, chamando as aves e semeando grãos de milho. Jogava também os grãos pelo gradeado de três chiqueiros onde viviam confinados os capões – animais castrados para engorda – servidos em ocasiões especiais. Pareciam perus de tão cevados. Mais tarde ia visitar o pilão de pedra em formato de rachadura onde mulheres lavavam roupa. Ficava a uns duzentos metros dos fundos da casa. Lá para as dez horas, começava a coletar os ovos das aves do terreiro, espalhados em ninhos por vários lugares, inclusive, dentro de casa. Essa atividade me dava muito prazer.
Passeava pelo oitão direito da casa, onde havia algumas bananeiras, e um coqueiro. Pelo oitão esquerdo, perambulava no amplo jardim aguado todas as manhãs pela minha tia. Entrava no vizinho prédio, em preto, que funcionara como vapor e fora queimado pela investida de Lampião. Pelo grande quintal, chegava até os fundos da casa/escolinha – única do povoado – de dona Expedita e seu esposo Barrinho. Às vezes encontrava ali o primo Paulo Chagas, que como eu, passava alguns dias na casa de Expedita. Era filho da minha tia Araci e José Pinto Oliveira, em Santana. Bom quando chegavam à preta Quitéria e sua genitora lá do sítio Gameleira. Passavam o dia. Ambas com pano amarrado à cabeça. Quitéria falava que só uma matraca! Ali castravam os pintos crescidos, lavavam roupa, engomavam e faziam o café com rapadura, batido num pilão de aroeira. O aroma ia longe, longe...
Quando chegava gente ilustre, igual aos padres, docinho para lá, docinho para cá... E o capão gigante no prato das figuras.
Andar pelos quartos arrumados e frequentar a dispensa estavam sempre na minha pauta.
Durante a noite, dormia assombrado com os morcegos que frequentavam o casarão.
Essa era a parte interna e o aprendizado para o futuro.
(CONTINUA).






                                                         

COMO SE FAZ UM ROMANCISTA (I) Clerisvaldo B. Chagas, 19 de novembro de 2018 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.009 ...

COMO SE FAZ UM ROMANCISTA


COMO SE FAZ UM ROMANCISTA (I)
Clerisvaldo B. Chagas, 19 de novembro de 2018
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.009

Povoado Pedrão

 Idas e vindas e a paisagem geográfica do povoado Pedrão, me fez romancista do Ciclo do Cangaço. Dali nasceram “Ribeira do Panema”, “Defunto Perfumado”, “Deuses de Mandacaru”, “Fazenda Lajeado” e “Papo-Amarelo”. Povoado Pedrão pertencia à vila de Olho d’Água das Flores em que íamos a carro de boi com tolda de esteira, ou em garupa de cavalo.     
Quando em carro de boi, íamos pelo Bebedouro, sítio Jaqueira, e, mais em baixo, cruzava o rio Ipanema, seco, entrava pelas terras de Capim (Olivença) e saía no Pedrão, de Olho d’Água. Em carro de boi, ia com minha tia Delídia, que sempre estava a reclamar dos solavancos do carro. Quando o carreiro não era o branco Firmino, era o preto bem humorado Ulisses. Eu me deleitava com tudo que via e ouvia. Os bois eram chamados de Paraná, Ouro Branco (coice), Sombrante e Caçula (cambão).
Às vezes seguia na garupa do cavalo de quem eu chamava meu tio, Manoel Anastácio.
De qualquer maneira tínhamos que vencer quatro léguas (24 km) da minha cidade ao povoado Pedrão.
Ali o meu tio era o mandachuva. A melhor residência (casarão), muito gado, muitas terras, armazéns, bodega, casa de-farinha, pomar e muita autoridade sem ser autoritário.
O povoado, a igreja, o cemitério, a lagoa e o poeirão na única rua, cabeça para olho d’Água, cabeça para o Capim.
Nunca fui à pedra enorme que dá o nome ao povoado. Além de ficar afastada da rua, ninguém falava sobre ela.
A grande lagoa, quando secava, servia com o solo cinzento de pista para corridas de cavalo.
Os Terços e Ofícios eram rezados na bela igreja do lugar que possuía um cruzeiro de madeira, antes da calçada larga. Periodicamente chegava o padre da vila ou o padre Luís Cirilo Silva, de Santana, para celebrar casamentos, crismas e batizados coletivos. Hospedavam-se na casa da minha tia, onde descansavam em redes e preguiçosas. Cirilo chegava com seu sacristão Jaime, em cavalgaduras.
(CONTINUA).