O PÉ DE PICA DA PREFEITURA Clerisvaldo B. Chagas, 2 de outubro de 2020 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.382 Antiga pre...

 

O PÉ DE PICA DA PREFEITURA

Clerisvaldo B. Chagas, 2 de outubro de 2020

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.382

Antiga prefeitura (Foto: livro 230/domínio público)

Após a primeira reforma da prefeitura de Santana do Ipanema, em 1938, para a época, o ambiente ficou bastante agradável. Chamava atenção os grandes janelões de madeira que abriam e fechavam através de cordões robustos permitindo a entrada intensa da claridade natural. As laterais do prédio suportavam bem o movimento de pessoas e, tanto nessas laterais quanto no pátio frontal havia várias árvores ajardinando o edifício. Mas, apesar da beleza das árvores, havia um, porém. Algumas delas botavam frutos estranhos.  Eram relativamente pequenos, duros e esverdeados. Possuíam formato de duas glandes, uma para cima, outra para baixo. Ninguém nunca definiu o nome científico das árvores safadonas. Nem também se sabia se teriam sido plantadas naquela reforma ou muito depois.

Homens feitos mostravam com malícia aos adolescentes, os frutos em formato de cabeça de pênis. Estes era colocados na mão fechada escondendo uma parte e mostrando apenas a outra, o que de fato se assemelhava ao órgão sexual. Tanto havia admiração de quem conhecia o troço, quanto risos sem-vergonhas depois. Naquele tampo havia certo cuidado para não ser mostrados às mulheres e gerar constrangimentos. Mas também havia aquelas que agiam semelhante aos homens. As árvores permaneceram na prefeitura por longo período. Para evitar maiores constrangimentos e repercussões negativas ao poder público, as árvores foram derrubadas a golpes de machado, tudo indica no governo municipal Genival Tenório.

“Como se chama essa árvore?”, indagavam os curiosos. A resposta era quase sempre a mesma: “Um pé de pica”.  E Assim, como ninguém sabia o nome verdadeiro do vegetal, o “pé de pica” ia varando as gerações. Após sua erradicação, acabou-se o constrangimento feminino e até o prédio ficou mais iluminado.

No primeiro governo Isnaldo Bulhões, o prédio da prefeitura sofreu uma segunda reforma que pareceu muito adiantada para a época, porém, atualmente, bem que a prefeitura ficou pequena para tantas atividades. Já está obsoleta. Mas, mesmo que seja construído um edifício nova geração de arquitetura, estar banido para sempre o

charmoso e safado Pé de Pica.

  O CICLO DOS HOTEIS Clerisvaldo B. Chagas, 1 de outubro de 2020 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.381 Antigo Hotel Lopes...

 

O CICLO DOS HOTEIS

Clerisvaldo B. Chagas, 1 de outubro de 2020

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.381

Antigo Hotel Lopes (Foto: Arquitetura Alagoana)

Parece que o ciclo das coisas que cercam os homens, é igual ao próprio ciclo da vida humana. Hoje refletimos sobre os hotéis, em todos os lugares do Brasil substituídos por simples pousadas. Voltando os tempos em algumas décadas, tínhamos em Maceió o magnífico Hotel Bela Vista, onde a cabeça de Lampião passou uma noite, imediatamente a ser levada para Salvador.  Foi demolido. O Parque Hotel, onde se hospedavam os prefeitos do interior em missões na capital, deixou de existir. O não menos famoso Hotel Lopes, final e início de linha das antigas “sopas” Santana – Maceió e vice versa, parou de funcionar. Um grande hotel que no momento nos foge o nome, situado na Rua do Sol, também na capital, tão bem frequentado, cerrou suas portas com fim melancólico, abandonado à própria sorte, foi aos poucos sendo transformando em coisas. Todos eles tinham nome firme espalhados no estado.

Em Santana do Ipanema não foi diferente, fechou o Hotel Central, um dos mais antigos de cidade e conhecido como Hotel de Maria Sabão. Deixou de existir o Hotel Santanense no Bairro Monumento, chamado Hotel de Dona Beatriz. Antes mudara de dono, depois... O adeus para sempre. Seguindo a sequência, encerra as atividades o Hotel Avenida, ainda no Bairro Monumento, apelidado o Hotel de Seu Leusínger. E por fim o Hotel conhecido como de Maria Valéria, à Avenida Nossa Senhora de Fátima. Também fecharam alguns pequenos hotéis e hospedarias sem nomes no lugar Maracanã e na periferia do quadro da feira semanal.

Após certo período sem hotéis, começam então, a aparecer as pousadas, muito mais simples, sem almoço, sem jantar, apenas com pernoites e café da manhã acompanhado de preços populares. Santana se encheu de pousadas, sendo raríssimo a implantação de hotéis. Em Maceió, após a fase das pousadas, voltas à moda os grandes hotéis de luxo internacionais, dessa vez não mais no Centro, mas, principalmente, nos balneários onde imperam o luxo do litoral.

Cada um desses antigos hotéis tinha seus acervos orais de histórias e mais histórias que mereciam ser contadas de outra maneira. Mas os fantasmas que habitavam as ruínas, foram espantados para sempre com o novo ciclo das coisas.

Todo somos vítimas dos freios de arrumação que mexe com a vida dos humanos e dos seus temporários bens.

 

 

 

  FAÇAM SUAS APOSTAS, SENHORES Clerisvaldo B. Chagas, 30 de setembro de 2020 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.390 Para...

 

FAÇAM SUAS APOSTAS, SENHORES

Clerisvaldo B. Chagas, 30 de setembro de 2020

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.390

Para o escritor contista Fábio Campos

 


Houve
época em Santana do Ipanema que, por isso ou por aquilo, não aconteciam mais jogos do Ipanema e nem do Ipiranga, os times mais competitivos da cidade. Nada de programa de calouros, nada de brigas de galo, nada de banhos no rio. Talvez para quebrar a monotonia dos domingos sem diversões, jovens senhores ligados ao campo inventaram as brigas de touros, na periferia. Isso foi antes da criação do Parque de Vaquejadas Bela Vista, no Bairro Camoxinga, lugar atualmente repleto de residências, imediações do Centro Bíblico. A novidade começou a atrair apostadores e aficionados. Um pouco antes, um pouco depois o esporte voltou-se para corridas de cavalos. Começaram a surgir curiosos, desportistas, entendidos, apostadores e multidões para os eventos.

Com o sucesso das corridas, era necessário um lugar plano e longo para acomodar animais e gente. Assim foi escolhido o sítio Barroso que possuía as características necessárias, no lugar onde hoje existe o Cemitério São José. Multidão vencia ligeiro os 2 ou 3 quilômetros do Centro até ali e ficava ao longo da estrada formando um corredor. Nada de segurança, nem cordas, nem bancadas, nem cercas... Apenas a coragem do corredor humano no qual disparavam éguas e cavalos. As corridas desses animais eram sucesso absoluto com muita torcida e preferências. Uns até diziam que “o cavalo não vence a égua, porque não corre na frente de fêmea”. Mas chovia de apostas, cavalo contra cavalo, cavalo contra besta. As corridas aconteciam entre dois animais por rodada.

Diz o povo que “o que é bom dura pouco” e assim foi encurtada a duração das corridas com uma fatalidade em que se pagava para vê. Em uma dessas belas carreiras, um cidadão morador da Rua Benedito Melo (Rua Nova), de nome Jacinto Vilela, muito querido em Santana, levou peitada de um dos cavalos em ação, vindo a falecer. Houve grande comoção em Santana do Ipanema. Não lembramos se teve algum tipo de punição ou apurações dos fatos, o certo mesmo é que, com a tragédia anunciada poderia ter acontecido com qualquer outra pessoa daquela imprudente multidão. Santana de luto, fim das corridas de cavalos.

Para a juventude santanense, só existe sobre o caso, essa crônica de hoje e mais nada.  Deixamos a multidão, cavalos, prado, apostas... E montamos apenas nos livros ou nas “livras” (cavalos e bestas) que nos transportaram para o FUTURO.