O RUDE HISTORIADOR Clerisvaldo B. Chagas, 20 de fevereiro de 2026 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3366   E com as r...

 

O RUDE HISTORIADOR

Clerisvaldo B. Chagas, 20 de fevereiro de 2026

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3366

 



E com as ruas completamente desertas, sem se vê nem sequer um animal, um passarinho, um gato, um cachorro... Nada, absolutamente nada, nesta manhã de Quarta-Feira de Cinzas, tomo a resolução de sair de casa e caminhar algumas quadras. Vou levar certo donativo a quem precisa e sabe dividir com quem precisa muito mais. Aproveito e procuro localizar a casa modificada do senhor Manoel Daniel, 85 anos e cadeirante. Um senhor aposentado do DNER, que viveu parte da história sertaneja e passou a ser fonte de pesquisa segura, por todo seu aprendizado desde 1941. É por isso que aprendi muito mais detalhes da maior cheia do rio Ipanema, do século passado, a “cheia de 41”, como ficou imortalizada e passou a fazer parte do livro O BOI, A BOTA E A BATINA, HISTÓRIA COMPLETA DE SANTANA DO IPANEMA.

Seu Daniel, parece tão cheio no mundo de valiosas informações que parece querer botar tudo para fora de uma vez. Fala de tragédia, fala de política, de plantas, de animais, de patrões bons e ruins, de remédios caseiros e tanta coisas que não tem livro grosso que caiba tantas informações assim, do nosso passado sertanejo. Você ainda lembra daqueles primeiros tipos de gravadores que apareceram na praça? Pois somente com um gravador daqueles para se fazer uma filtragem longa dos conhecimentos aprendidos e vividos pelo rude historiador do semiárido. Então, eu percebo que somente quem ama de fato seu torrão, sem amargura, sem ódio, sem ressentimento, pode narrar com tanto entusiasmo a paisagem crua do que viu como passageiro da vida. 

Ao retornar, apenas uma senhorita subindo devagar a solidão da rua, a rapidez de um mototaxista se encobrindo na esquina e um pintor solitário pintando o muro de uma residência, SÓ. E para disfarçar a solidão do mundo, passo pelo pintor sem cumprimento, mas apenas lhe jogo um trava-língua: “O pintor que pintou trinta, de tinta tem trinta latas”, repita! E passo sem parar. O homem parece assustado, nada responde e eu faço como a senhorita, continuo a jornada, devagar, ladeira acima. Mais uma Quarta-Feira de Cinzas sem frequentar a missa do importante dia. Afinal, que somos nós em nosso invólucro senão cinzas! Será que o orgulho vale à pena?!

O RUDE HISTORIADOR MANOEL DANIEL (FOTO: B. CHAGAS)



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