DESENHANDO A TARDE (Clerisvaldo B. Chagas, 18 de agosto de 2010) Prefiro o PC normal a esse tal notebook . Mas como é o jeito vamos registr...

DESENHANDO A TARDE

DESENHANDO A TARDE
(Clerisvaldo B. Chagas, 18 de agosto de 2010)

Prefiro o PC normal a esse tal notebook. Mas como é o jeito vamos registrando o cotidiano. Ainda estou aqui na “Cidade Sorriso” sem a definitiva Internet. Telefona-se para “A” e “B” e nada de ligação. Falam que instalaram um cabo. E que cabo é esse, tão difícil assim. Lembro logo do cabo de vassoura, rolo frágil quebrado na cabeça de muitos maridos por aí. Cabo de guerra, brincadeira de gente besta que teima em medir forças. Cabo Zeferino, antigo barbeiro de Maceió, gozado pelos clientes do Bairro do Prado.  Cabotino, cabo Henrique e o cabuloso que deve ser o mesmo cabo que futuca na Web. Encontramos na BR-316 Santana – Maceió um caminhão tombado, pneus contando os pingos de chuva. E logo a jornada agradável vira uma irritante espera. Os botijões da carga imitam brancos soldados da paz, tesos no asfalto. Acolá, um gipão moderno, aos beijos, namora o mato verde, marginal. Alguém fala que foi um “quebra de asa” para não ser esmagado pelo carro grande. A amiga sabe o que é “quebra de asa”? Nem pergunte! Uma velhinha não se contém e diz que foi Deus. Foi Deus o que, minha velhinha? Mas ela nem estirou o pescoço ainda para ver a cena. Apito a boca, um guarda cáqui acena perto dos soldados brancos. O trânsito flui.
Maceió parece em festa inaugurando supermercado novo. O motorista diz que “é gente como a peste!” Ah! Agora são as donas de casa falando em promoção, dando o preço de tudo, somando vantagens, babando a ausência. Passam as horas. No fim da tarde o tempo muda, sopra um vento frio. Enquanto aguardo exames de rotina vejo do alto as águas da lagoa. POR FAVOR, NÃO ABRA A JANELA. Mas é nada, compadre! Quem diabo quer deslocar a vidraça! Basta o pulo de tal “Jamaica” da ponte de Santana. Concentram-se as nuvens sobre as água da lagoa. Cinza muito escura no alto, superfície clara, cinza uniforme até as barreiras. Longe, uma faixa parece metal incandescente contrastando com as nuvens da tardinha. As águas de cassa conquistam e vão aspergindo na lagoa Mundaú.
Chega minha vez de atendimento. A mulher de branco manda sentar, pergunta e anota. Anota e pergunta. E como quer saber sobre as minhas atividades, falo também dos escritos diários na Internet., no compromisso comigo mesmo que faço questão de cumprir. A médica fica sem saber como é que alguém pode escrever crônicas diárias. Onde encontrar tanto assunto assim, continua a mulher da Ciência. Encolho meus ombros e digo que não sei, mas assunto não falta. E enquanto ela baixa a cabeça e escreve, digo acanhado, tímido, com reservas: “O assunto de amanhã é a senhora”. O Sol quer se esconder quando deixo o prédio. A lagarta de automóveis na Avenida vai se encorpando na volta doida para casa. Passageiros parecem cansados nos pontos de espera. Passa o vendedor de CDs piratas poluindo o ar. Coletivos param bruscamente. Um homem observa da esquina, puxa um lápis e anota. Talvez também seja cronista DESENHANDO A TARDE.

MOVIMENTOS DE CULTURA (Clerisvaldo B. Chagas, 17 de agosto de 2010) Os amantes da cultura em nossa Santana, nunca tiveram um lugar natural ...

MOVIMENTOS DE CULTURA

MOVIMENTOS DE CULTURA
(Clerisvaldo B. Chagas, 17 de agosto de 2010)
Os amantes da cultura em nossa Santana, nunca tiveram um lugar natural de reunião, como a Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro ou o Café Central de Maceió. Após tentativas intercaladas por décadas, eu, o Marcelo Almeida, juntamente com outros admiradores das letras e das artes, fundamos a Academia Interiorana de Letras. Não se pode dizer (e essa é uma das raras vezes) que o poder público não quis ajudar. Contávamos com o apoio do prefeito Dr. Marcos Davi e da Secretária de Cultura Selma Campos. O movimento não continuou, graças à fraqueza de pessoas que não se julgavam capaz, juntamente com as desculpas conhecidas sobre comparecimento. Há pouco tentei formar um movimento de interesse pela cultura da terra, com o único compromisso de reunião uma vez por semana para trocarmos ideias. Esse movimento foi quebrado por duas autoridades ligadas à prefeitura que iniciaram conosco. Ficaram de enviar o segundo convite para a próxima reunião e até hoje espero. Deixaram-me a ver navios diante das outras pessoas que fizeram parte da primeira assembleia. Que coisa feia! Falta de palavra, carência de ação. Deixando o negativo de lado, estamos numa segunda tentativa de formar novo grupo a princípio independente. O movimento está bem adiantado e apesar de ser apenas para reuniões semanais e troca de ideias sobre letras, artes e coisas da nossa terra, bebendo o chá ou o café das quatro, coisas novas já surgiram, aliás, pensamentos importantes que poderão se materializar.
Já foram sugeridos dois excelentes lugares para as futuras reuniões, porém, distante do centro. Estamos tentando descobrir outro mais central, se possível, no comércio ou nas proximidades. Se o (a) prezado (a) santanense estiver interessado (a) em ouvir e ser ouvido (a), (por favor, sem vínculo político partidário) dentro da proposta apresentada, escreva para o nosso e-mail, telefone, mande um recado, venha a nossa casa. No momento ainda não tenho autorização dos demais companheiros para divulgação dos seus nomes. Posso assegurar, entretanto, que surgiram várias propostas além do simples bate-papo cultural. Inclusive, já temos oferta de mãos beijadas de amplo terreno para um projeto de cultura nota dez. Um segundo plano é adquirir certa casa para uma realização antiga. Temos certeza de que o proprietário será sensível a nossa solicitação. Quer saber mais? Vá chegando para a ciranda.
Aproveito para agradecer ao professor da Zona da Mata (ainda não nos conhecemos) que fez um trabalho com meu romance “Defunto Perfumado”, ganhando o primeiro lugar em Brasília. Agradeço ainda a manifestação da palavra de ilustre pessoa que me visitou domingo próximo, ao dizer que “Defunto Perfumado” foi um dos melhores livros que já leu na vida. Aos outros leitores que me escrevem, empolgados com “Ribeira do Panema” e o mesmo “Defunto Perfumado”, também meu muito obrigado pelo incentivo. A próxima batalha é pela apresentação de ambos na TV, assim como os inéditos romances “Deuses de Mandacaru” e “Fazenda Lajeado”. Após o lançamento do “Boi a Bota e a Batina, História Completa de Santana do Ipanema”, vamos para a luta mais leve de publicação do “Ipanema Um Rio Macho” (memória de viagens) paradidático e o livro de poesias “Colibris do Camoxinga”. Aguardamos seu interesse pelos MOVIMENTOS DE CULTURA.

BILOCAÇÃO (Clerisvaldo B. Chagas, 16 de agosto de 2010) (Para meus compadres professores Alberto Pereira e Salete Bulhões assíduos e importa...

BILOCAÇÃO

BILOCAÇÃO
(Clerisvaldo B. Chagas, 16 de agosto de 2010)
(Para meus compadres professores Alberto Pereira e Salete Bulhões assíduos e importantíssimos leitores das nossas crônicas diárias).
Victor Mature estava no papel de escravo. Olhava com espanto para ti, Senhor, no filme “O Manto Sagrado”. Mas por que me levaste até o Gólgota? Estou mais perto de ti de que o ator de cinema. Estremece as minhas carnes, vibra o meu espírito. Irmano-me a tua dor. Atravesso a dor. Sinto a sua dor... Mas não é, Pai, a dor que traz a dor. São formas de translúcidos cristais que fulminam as minhas veias mutantes de crisálidas. O sangue listrado do teu corpo é o encarnado escarnecido do teu manto. Por que meus passos não são passos, não passam dessa cruz? Vigorosa, martirizante... sacra. Minha íris débil reluta a tua íris santa. Cai em mim, silêncio morto, cheio de vida do reluzir grande. Um soldado inerte, um rei no trono que a madeira ampara. Mas eu vejo na transparência fluida o que não via. Por que me elevas, Senhor, ao nível do teu sofrido e sereno rosto? Sim, vejo sim, pontos de luzes brancas em ordem de esfera. Cabelos com respingos escarlates nos fios naturais. Terríveis espinhos do horror humano. Estou vendo, Senhor: o céu é plúmbeo, à hora é nona. Faíscas de ouro escapam dos picantes ecúleos. Dardejam mistérios divinos nesse temerário céu. Longas manchas negras de caudas leitosas cortam o etéreo por trás de ti. Estendo meus dedos que se alongam em busca das tuas chagas. Um poderoso imã impede a proximidade profana. E sinto meus dedos suavemente girando em torno das tuas feridas. As mãos, as mãos, Senhor, por vontade espontânea erguem o interior das palmas e recebem fragmentos de ferro que ardem como fogo. Novamente olho nos teus meigos olhos. E o sangue dos teus ferimentos forma jorros finos que sobem, curvam-se, caem nos espalmados das minhas mãos. Vão-se os fragmentos de limalhas. As dores baixam, aliviam, desaparecem.
Vejo tua boca, Senhor, ouço o teu brado. Vou além sem saber como, na velocidade/luz. O véu do templo rasga em minha frente e meu ser estremece como em busca do teu espírito. Volto lentamente ao Gólgota e já não encontro o teu calvário. Tua cabeça pendida me expulsa lágrimas como o jorro do teu sangue. Da baixada, sobe um ornejar. À altura do teu corpo, a mesma força me conduz a te examinar sem toque da cabeça aos pés. Como o colibri que esvoaça em torno da flor, vou circulando sucessivamente em tua volta. Não pode ser irreal esse coro que ouço e não conheço. Porque ele toma o que sou e me permite a retirada. Não vejo centurião, não enxergo centúria, ignoro apóstolos. Somente o céu, a música e ti. E a mesma força que me conduziu a Judeia, vai me afastando como cheguei ao monte.
Sem saber se isto é uma crônica, um sonho, um conto... Olho as minhas mãos, descubro vestígios vermelhos dos tiranos pregos. E um perfume profundo que supera as rosas, emana fortemente das marcas encontradas. Choro copiosamente. Vacilante, espio a sua imagem hirta na parede do quarto. E fico entendendo sem compreender essa BILOCAÇÃO.