NOSSO AMIGO PEDRINHO Clerisvaldo B. Chagas, 28 de junho de 2011                Fechando a marcha junina, o dia dedicado a São Pedro parece...

NOSSO AMIGO PEDRINHO

NOSSO AMIGO PEDRINHO
Clerisvaldo B. Chagas, 28 de junho de 2011

              Fechando a marcha junina, o dia dedicado a São Pedro parece ser o último dia de Carnaval para os foliões.  O Brasil inteiro comemora as festas dos três santos, mas é na região Nordeste onde o auge dos festejos é atingido, graças à religiosidade, tradição, crenças e muito divertimento durante todo o mês de junho. Cada um dos santos desse chamado calendário junino tem as suas particularidades que os transformaram nos mais populares entre todos. São Pedro sempre foi o mais escolhido para piadas, anedotas, brincadeiras sadias ditadas pelo povo nordestino. Sua condição de chaveiro do céu, seu prestígio diante do Senhor, suas fraquezas antes do calvário e suas firmezas após o Gólgota, aguçam as brincadeiras dos seus seguidores na terra. Até mesmo inúmeros folhetos de cordel descrevem situações vexatórias e humorísticas das almas que procuram entrar sem merecimento no Reino de Deus. A chegada de Lampião no Céu; o embate do demônio com São Pedro; a festa no céu e a sabedoria do macaco estão entre centenas e centenas de escritos, piadas e anedotas que divertem bastante, mas não ofendem ao santo.
             Simão era seu verdadeiro nome e nasceu em Betsaida, província da Galileia. Filho de Jonas era casado e pescador. Certa feita, seu irmão André encontrou com Jesus e depois comentou com Simão. Simão quis conhecer o Messias e daí saiu à amizade que durou para sempre entre os dois. Temperamento impulsivo, mas homem generoso e de grande amor ao Mestre, Simão foi o escolhido para comandar a Igreja de Cristo, o que fez com muita firmeza e competência. Em Cesareia de Filipe, Jesus diz a Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus, e tudo que ligares sobre a terra será ligado também no céu, e tudo que desligares na terra será também desligado do céu”.
              Verificando os Atos dos Apóstolos, descobrimos a atuação marcante do apóstolo Pedro, principalmente nos dez primeiros capítulos. Foi ele o grande líder da comunidade cristã após a morte de Jesus. Integrou Matias ao colégio dos apóstolos para substituir Judas; e no dia de Pentecostes estava lá fazendo o seu primeiro discurso e convertendo mais de três mil pessoas. Está escrito também que realizou o seu primeiro milagre curando um homem coxo. Pedro foi preso, convocou o concílio dos apóstolos e ainda foi a Antioquia onde passou sete anos na direção da igreja. Saindo da Antioquia dirigiu-se a Roma onde permaneceu até ser martirizado em 29 de junho de 67 depois de Cristo. Como não se achava digno de morrer da mesma maneira de Jesus, pediu para ser colocado na cruz de cabeça para baixo. Pedro foi sepultado no lugar onde hoje é a Basílica do Vaticano e que leva o seu nome. Respeitado, venerado e admirado pelo povo brasileiro, continua nas brincadeiras folclóricas sendo tratado com muita intimidade pelos seus devotos, entre os quais o cronista que tem o prazer de chamá-lo carinhosamente de NOSSO AMIGO PEDRINHO.

O BURACO DA BOTIJA Clerisvaldo B. Chagas, 27 de junho de 2011. Esse estado alagoano já sofreu tantas agruras que uma simples boa notícia n...

O BURACO DA BOTIJA

O BURACO DA BOTIJA
Clerisvaldo B. Chagas, 27 de junho de 2011.

Esse estado alagoano já sofreu tantas agruras que uma simples boa notícia nos deixa desconfiada. E se uma banal mensagem provoca desconfiança, imaginemos notícias de médio e de grande impactos. Somos vítimas há décadas dos ataques desvairados às nossas riquezas, pelos donos do poder, especialmente os poderosos do Executivo e Legislativo. O insano descalabro fez o nosso território ir à falência e a miséria absoluta onde congrega analfabetos e miseráveis tipos exportação. Enquanto a elite canavieira não pagava impostos, fábricas importantes e tradicionais iam fechando e migrando para outros estados. PRODUBAN, EMATER e tantos outros órgãos foram caindo como castelos de cartas. De um estado rico e progressista, passamos para uma situação comparativa a outras unidades da federação, qualidade ainda menos que província. As páginas do cotidiano vão sendo montadas nas folhinhas de parede com um índice social vergonhoso de descida ao fundo da cisterna. E o pior é ver o progresso célere de estados irmãos, ao lado da cabeça baixa do povo alagoano.
Quando o atual governo diz que organizou o estado desestruturado, falido, moribundo, esperamos que seja verdade. Quando o atual governo diz que se instalaram mais de quarenta indústrias em Alagoas, esperamos que seja verdade. Quando o atual governo diz que será implantado um estaleiro em Coruripe, esperamos que seja verdade. Ninguém suporta mais ser reboque de Pernambuco, Bahia e mesmo Sergipe. É um olho na verdade, outro no engodo. Um pé adiante, um pé atrás; orelhas erguidas numa desconfiança que nos impuseram e estar difícil de sair. Os acomodados dormem em berços esplêndidos, deixando pouquíssimas, raríssimas, quase nenhuma voz gritar a sua “alagoanidade”.
Dizem que estar chegando a Mineração Vale Verde para extração de ferro e ouro na região de Craíbas e Igaci. Falam em 165 milhões de toneladas de minérios que, de primeira, poderiam render um trabalho contínuo de quinze anos para a citada mineradora. As previsões falam que as obras do parque industrial devem ser iniciadas em 2012 e que estudos da empresa prosseguem o que pode levar a novas descobertas de jazidas. Bem, vamos ver se é verdade que essa faina estar impulsionando o desenvolvimento social através de trabalho e educação.
         Ainda hoje no Nordeste se fala em botija (aquele dinheiro e joias que as pessoas enterravam, pela ausência de bancos). Quando o camarada sonhava com uma delas, levava tudo que encontrava, deixando somente o buraco, para a frustração de quem descobria o rombo. É por isso que ainda ficamos desconfiados quando falam em tantas bondades juntas uma das outras. Esperamos que essa extração de ferro e ouro em território do nosso Agreste seja positiva; um fato provado e comprovado como honesto e digno propulsor de desenvolvimento; ou será mais uma sabedoria titã em levar o doce do garoto? Ai, ai, Dona Maria! Reza e vigilância, mulher, para não nos deixarem apenas com O BURACO DA BOTIJA.

FILHO DA TRADIÇÃO Clerisvaldo B. Chagas, 24 de junho de 2011.              Filho legítimo da tradição junina, noite de São João fora de cas...

FILHO DA TRADIÇÃO

FILHO DA TRADIÇÃO
Clerisvaldo B. Chagas, 24 de junho de 2011.

            Filho legítimo da tradição junina, noite de São João fora de casa, nem pensar. Disponível o ano inteiro para viagens, menos nas noites sagradas do São João e Natal, vamos mantendo a vontade de está em casa. Enquanto puder acender a fogueira do santo na rua pavimentada com pedras, vamos mantendo o ritual bendito das raízes, dentro do mais puro segmento interiorano nordestino. Faz parte da festa à peleja para acender a madeira misturada componente da fogueira. Os tufos insistentes da fumaça, o molejo da palha no abano comprado na feira, o esvaziamento da caixa de fósforos sem consistência, vão permitindo o recado do Criador que você ainda vive. Como o poder aquisitivo deu direito ao som para todos, o abuso musical acontece pela vizinhança, no padrão “ninguém pode conversar”. O milho chega ao momento certo e vira consumo nas mais variadas formas. As bebidas estão aí, para quem bebe e quem não bebe diante do churrasco tentador que tempera a conversa dos compadres. Não, não adianta telefonar me chamando que eu não vou, meu amigo. Já disse que noite de São João não saio de casa. Estão ali na mesinha, o quente e o frio se você me visitar, mas ir para lá, vou não. Não tem quem me faça, é assim que se diz por essas bandas.
          Quando os legítimos forrós do Rei do Baião vão desfilando, trazem a saudade danada de cada São João, de cada momento vivido, de cada item familiar que acompanha o tempo. Os olhos não resistem e, devagar, empurram duas lágrimas rebeldes que bem traduzem a dormência da alma. Ninguém percebe. Ninguém deve perceber o que é só meu. Deixe meu mundo interno escorrer até o copo tinto de vinho suave. As chamas do atilho queimam o angico, a aroeira e vai temperando uma nostalgia que maltrata. Uns olhos verdes e tentadores que chamam por cima do fogaréu. O Sol ardente do Sertão que tange um amor para os juazeiros, baraúnas, quixabeiras. Uma sequidão terrena que se mistura à seca de beijos, de nexos, de sexo. Suaves carícias no pipiri das caatingas. Arrulho de pombas rolas nos galhos retorcidos. Coaxar nas lagoas de inverno. Invasões temporárias de sentimentos viajados. Lençóis cheirosos sobre corpos sensuais. Despertar de um passado diante da fogueira. A fogueira de São João.

   "O fole roncou
          Lá no alto da serra
                   Cabroeira da minha terra
 Subiu a serra
E foi brincar

       Eu sei que morro
            De faca, de carabina
                   Mas o amor de Joventina
                   Me dá força pra brigar...”

          A chama da fogueira continua passando filme. Permanece, entra ano sai ano, reforçando um FILHO DA TRADIÇÃO.